quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A tomada da IA pela China, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

De chips a modelos de código aberto, a China entrou de vez na corrida pela liderança da inteligência artificial

A China entrou de vez na corrida pela liderança da inteligência artificial: não somente na fabricação de chips e de outros insumos numa cadeia de produção bilionária, em segmentos dominados por empresas coreanas e taiwanesas, mas também no desenvolvimento de modelos de IA de código aberto a preços bem mais baixos que os cobrados pelos rivais americanos OpenAI e Anthropic. Em julho, a estreia na Bolsa de Valores de Xangai da CXMT, maior fabricante chinesa de chips de memória, cujas ações dispararam quase 500% no primeiro pregão, foi o último empurrão que fez o principal índice acionário da Coreia chegar a cair 40% do seu pico em junho.

Esse impulso – financiado pelo governo – pode até vir a transformar a estrutura da economia chinesa, passando os gastos com IA a ser o novo motor do crescimento. Nos cálculos da Capital Economics, no segundo trimestre deste ano, na comparação com os três meses anteriores, mais da metade da expansão do PIB chinês veio da fabricação de produtos eletrônicos e dos serviços de tecnologia da informação e telecomunicações – atividades ligadas à IA.

Conforme a Capital Economics, o setor de tecnologia da informação e telecomunicações é agora a principal fonte de crescimento dos serviços na China, superando, no segundo trimestre, a contribuição conjunta do comércio varejista, da hotelaria e dos transportes. Ao fim do primeiro semestre deste ano, o investimento fixo na fabricação de produtos eletrônicos cresceu 6,5%, com destaque para as novas fábricas de chips de memória que devem entrar em operação em 2027.

É difícil dizer em quanto tempo a China pode ultrapassar seus competidores globais de insumos e equipamentos para a infraestrutura da IA. Em julho, a estatal Aishengna anunciou planos para começar a fabricação em massa de máquinas de litografia DUV, usadas para gravar os circuitos nos chips, tecnologia dominada pela holandesa ASML. Não por acaso, a ação da ASML caiu 8% após o anúncio.

Os chineses também devem acirrar a competição pelos modelos de IA de código aberto. Em julho, a startup Moonshot lançou o seu mais recente modelo de IA (o Kimi K3) a um custo quase três vezes mais baixo, nos cálculos de alguns analistas, do que os modelos da OpenAI e da Anthropic. A dúvida é se os modelos chineses vão dominar o mundo, oferecendo preços menores e atendendo às necessidades básicas de empresas e indivíduos. Por ora, o mercado doméstico já é gigante: em dezembro de 2025, havia 602 milhões de usuários de IA generativa na China, equivalente a 43% da população conectada.

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