O Globo
Lula e Flávio Bolsonaro não apresentaram
propostas para atacar o maior problema da economia brasileira hoje
O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro
não apresentaram propostas para atacar o maior problema da economia brasileira
hoje, o crescimento constante da dívida pública, equivalente a R$ 10,8
trilhões, ou 82% do PIB. Na entrevista da Globo, escaparam dos números, mas
deixaram alguns sinais do que podem fazer.
Lula assegurou, com ênfase:
— Meu compromisso é com o crescimento.
A ideia: com o país crescendo, tudo o mais se resolve.
O senador disse que sua eleição provocará tal
ganho de credibilidade que os juros cairão imediatamente. E tudo entrará nos
eixos. Ambos estão errados.
Lula não elaborou sua ideia — nem havia tempo
para isso —, mas ela ecoa uma teoria bastante conhecida no pensamento econômico
da esquerda: a saída pelo crescimento. A tese sustenta que o valor absoluto da
dívida não importa. Na entrevista, Lula garantiu que não se preocupa com os R$
10,8 trilhões da dívida. Nessa perspectiva, o mais importante é o valor
relativo, a relação dívida/PIB. Eis o ponto central: se o PIB crescer mais que
a dívida, a relação cai, sem que se precise fazer qualquer corte nas despesas
que alimentam o déficit.
O corolário dessa tese é a redução taxa
básica de juros pelo Banco Central. Não por acaso, Lula voltou a reclamar do
BC. Essa teoria, também chamada desenvolvimentismo, formulada nos anos
1940/1950, tem sua lógica. Ou um encanto. O problema é que nunca funcionou. Por
aqui, a última tentativa foi no governo Dilma. Semeou crescimento, com forte
expansão dos gastos, e colheu inflação e recessão. Quando a crise estava
instalada, tentou uma saída pela ortodoxia — aliás, detonada pelos economistas
do PT. A crise só foi debelada no curto governo de Michel Temer, que
estabeleceu o teto de gastos e encaminhou a reforma da Previdência. Mas o
governo Bolsonaro furou o teto com os gastos eleitoreiros.
A “saída pelo crescimento”, embora possa ter
êxito no início, não se sustenta. Déficits primários, causados pelos gastos
acima da arrecadação, obrigam o governo a tomar empréstimo para tapar o rombo.
Sobe a dívida, aumenta o custo de rolar esse passivo. Mesmo com o BC mantendo
juros artificialmente baixos, as taxas sobem nos mercados e elevam a dívida do
Tesouro. O ciclo se completa com a alta da inflação e juros mais altos, que
inibem o crescimento.
O governo Lula obteve crescimento do PIB
acima de 3% nos dois primeiros anos. Em 2025, caiu para a faixa dos 2%. Cai de
novo neste ano. E a previsão para 2027 está na casa do 1%. A inflação só não
sobe porque o BC mantém os juros elevados. Mas o crédito caro leva famílias e
empresas à inadimplência.
Nos últimos três anos e meio, o gasto do
governo aumentou acima da arrecadação. Para 2027, Lula promete um gordo
superávit, sem mexer no arcabouço e sem mexer nas despesas obrigatórias,
crescentes. Difícil acreditar que a mesma política produza resultado diferente.
O maior problema está no crescimento da despesa previdenciária. Aposentadorias
estão indexadas ao salário mínimo, que recebe aumento real todos os anos. Lula
nem pensa em mudar isso.
E Flávio Bolsonaro? Foi questionado.
Eliminará o reajuste do salário mínimo acima da inflação? Não. Desindexará a
despesa previdenciária do salário mínimo? Não. Como resolverá o problema? Pela
mágica. Flávio disse que os juros cairão no dia seguinte à sua vitória, tudo se
resolvendo com esse ganho imediato de credibilidade. Credibilidade importa. E é
certo que o mercado responderia com otimismo à derrota de Lula. Mas isso será
passageiro se o novo governo não construir uma política econômica ortodoxa, de
austeridade. E Flávio já disse que não mexerá nos pontos cruciais das despesas,
nem aumentará a carga tributária.
Tudo considerado, as manifestações dos dois
candidatos mostram que 2027 será um ano de crise e de baixo crescimento. Se o
governo, seja de Lula, seja de Flávio, se assustar e tentar a austeridade,
teremos um estelionato eleitoral. Sem credibilidade.

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