segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Ano que vem será de crise ou estelionato eleitoral, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Lula e Flávio Bolsonaro não apresentaram propostas para atacar o maior problema da economia brasileira hoje

O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro não apresentaram propostas para atacar o maior problema da economia brasileira hoje, o crescimento constante da dívida pública, equivalente a R$ 10,8 trilhões, ou 82% do PIB. Na entrevista da Globo, escaparam dos números, mas deixaram alguns sinais do que podem fazer.

Lula assegurou, com ênfase:

— Meu compromisso é com o crescimento.

A ideia: com o país crescendo, tudo o mais se resolve.

O senador disse que sua eleição provocará tal ganho de credibilidade que os juros cairão imediatamente. E tudo entrará nos eixos. Ambos estão errados.

Lula não elaborou sua ideia — nem havia tempo para isso —, mas ela ecoa uma teoria bastante conhecida no pensamento econômico da esquerda: a saída pelo crescimento. A tese sustenta que o valor absoluto da dívida não importa. Na entrevista, Lula garantiu que não se preocupa com os R$ 10,8 trilhões da dívida. Nessa perspectiva, o mais importante é o valor relativo, a relação dívida/PIB. Eis o ponto central: se o PIB crescer mais que a dívida, a relação cai, sem que se precise fazer qualquer corte nas despesas que alimentam o déficit.

O corolário dessa tese é a redução taxa básica de juros pelo Banco Central. Não por acaso, Lula voltou a reclamar do BC. Essa teoria, também chamada desenvolvimentismo, formulada nos anos 1940/1950, tem sua lógica. Ou um encanto. O problema é que nunca funcionou. Por aqui, a última tentativa foi no governo Dilma. Semeou crescimento, com forte expansão dos gastos, e colheu inflação e recessão. Quando a crise estava instalada, tentou uma saída pela ortodoxia — aliás, detonada pelos economistas do PT. A crise só foi debelada no curto governo de Michel Temer, que estabeleceu o teto de gastos e encaminhou a reforma da Previdência. Mas o governo Bolsonaro furou o teto com os gastos eleitoreiros.

A “saída pelo crescimento”, embora possa ter êxito no início, não se sustenta. Déficits primários, causados pelos gastos acima da arrecadação, obrigam o governo a tomar empréstimo para tapar o rombo. Sobe a dívida, aumenta o custo de rolar esse passivo. Mesmo com o BC mantendo juros artificialmente baixos, as taxas sobem nos mercados e elevam a dívida do Tesouro. O ciclo se completa com a alta da inflação e juros mais altos, que inibem o crescimento.

O governo Lula obteve crescimento do PIB acima de 3% nos dois primeiros anos. Em 2025, caiu para a faixa dos 2%. Cai de novo neste ano. E a previsão para 2027 está na casa do 1%. A inflação só não sobe porque o BC mantém os juros elevados. Mas o crédito caro leva famílias e empresas à inadimplência.

Nos últimos três anos e meio, o gasto do governo aumentou acima da arrecadação. Para 2027, Lula promete um gordo superávit, sem mexer no arcabouço e sem mexer nas despesas obrigatórias, crescentes. Difícil acreditar que a mesma política produza resultado diferente. O maior problema está no crescimento da despesa previdenciária. Aposentadorias estão indexadas ao salário mínimo, que recebe aumento real todos os anos. Lula nem pensa em mudar isso.

E Flávio Bolsonaro? Foi questionado. Eliminará o reajuste do salário mínimo acima da inflação? Não. Desindexará a despesa previdenciária do salário mínimo? Não. Como resolverá o problema? Pela mágica. Flávio disse que os juros cairão no dia seguinte à sua vitória, tudo se resolvendo com esse ganho imediato de credibilidade. Credibilidade importa. E é certo que o mercado responderia com otimismo à derrota de Lula. Mas isso será passageiro se o novo governo não construir uma política econômica ortodoxa, de austeridade. E Flávio já disse que não mexerá nos pontos cruciais das despesas, nem aumentará a carga tributária.

Tudo considerado, as manifestações dos dois candidatos mostram que 2027 será um ano de crise e de baixo crescimento. Se o governo, seja de Lula, seja de Flávio, se assustar e tentar a austeridade, teremos um estelionato eleitoral. Sem credibilidade.

 

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