O Globo
A carne ilumina a servidão voluntária
brasileira
O Canadá conta uma história; o Brasil, o
reverso dela. Na partida, os dois engajaram-se em negociações comerciais com
os Estados
Unidos, que implodiram de encontro às exigências imperiais da Casa Branca.
Então, um escolheu a via da resistência, ajustando seus atos às palavras,
enquanto o outro optou por um servilismo suplicante mascarado por discursos
palanqueiros.
As exportações representam quase um terço do PIB canadense — e mais de 70% delas têm os Estados Unidos como destino. O Canadá perde muito, no curto prazo, com a decisão de enfrentar a guerra comercial deflagrada por Trump. Mas, na defesa de seus interesses de longo prazo, a sociedade canadense uniu-se ao redor da estratégia de retaliação, que conta com respaldo de 76% da população.
As exportações não representam mais que 15%
do PIB brasileiro — e menos de 10% delas têm os Estados Unidos como destino.
A China,
nosso maior parceiro, absorve mais de 30% das exportações brasileiras, seguida
pela América do Sul e pela Europa, com cerca de 15% cada uma. Contudo o governo
rende-se ao lobby dos negócios dos exportadores: renuncia à retaliação e usa a
Lei de Reciprocidade apenas como muleta de discursos eleitorais “soberanistas”.
O Canadá reagiu às tarifas punitivas taxando
as exportações dos Estados Unidos, dólar por dólar, nos mesmos patamares — e
diversas províncias mantêm o boicote a destilados americanos. O país fornece a
vasta maioria do gás e da eletricidade importados pelo agressivo vizinho e
cerca de 60% do petróleo, além de potássio e minérios críticos. No degrau
seguinte, estuda-se a imposição de impostos de exportação sobre esses produtos.
“Vá se danar”, foi o recado de Doug Ford,
primeiro-ministro da província de Ontário, ao presidente americano. Na verdade,
Ford usou palavra ligeiramente diferente, antes de concluir:
— Trump nos subestima. Eis o grande erro.
Percorrendo trajetória oposta, o Brasil caiu
de joelhos. Lula obteve, em longo telefonema a Trump, a reabertura de
negociações, com a meta minimalista de alargar a lista de exceções esculpida
pelas conveniências da Casa Branca. Trata-se de atender aos interesses
imediatos de setores exportadores, como se representassem o interesse nacional.
É a nação definida como coleção de grupos empresariais. Nada de retaliação
assimétrica via exportações de nióbio, aviões regionais ou carnes.
A carne ilumina a servidão voluntária
brasileira. Confrontado com inflação de alimentos, Trump abriu uma importação
extraordinária de 300 mil toneladas de carne para hambúrguer, sem cotas ou
tarifas, mas exigindo desconto de 25% dos exportadores. Único país capaz de
fornecer imediatamente tal quantidade, o Brasil prontificou-se a exportar. As
celebrações unem a Casa Branca à trindade JBS, Marfrig e Minerva Foods. Os
Estados Unidos tarifam o conjunto da economia brasileira; em troca, o Brasil
garante o hambúrguer subsidiado às vésperas das eleições americanas.
O objetivo estratégico do tarifaço contra o
Canadá é eliminar a indústria automobilística do país, transferindo-a para os
Estados Unidos. A Casa Branca almeja, desse modo, enfrentar o avanço chinês no
mercado global de veículos. Contudo o resultado provável será romper as cadeias
produtivas integradas nos três países da América do Norte, cedendo o mercado
canadense às empresas da China. Chrystia Freeland, antiga vice-chefe de governo
do Canadá, acerta na mosca ao qualificar as tarifas punitivas como “mau negócio
mesmo para os Estados Unidos”.
Mark Carney, primeiro-ministro canadense,
conclamou sete meses atrás, em Davos, as potências médias democráticas a se
unirem contra a guerra tarifária de Trump. A maioria delas preferiu o caminho
do apaziguamento, o que só estimula a Casa Branca a multiplicar suas
investidas. Mesmo quase sozinho, o Canadá decidiu quebrar o ferrolho da jaula
americana em que a História e a geografia o trancaram.
O Brasil, que vive fora da jaula, tecendo
redes de intercâmbios globais, escolhe a submissão na hora do aperto.
— Não há interesse em retaliar ninguém —
assegurou o apaziguador Alckmin, deixando a Lula o papel farsesco de proferir
bravatas dirigidas ao público interno.
Inexplicável? Nem tanto: os Joesleys nos
governam.

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