Folha de S. Paulo
Ocorrências são tão velhas quanto a República,
mas governos de direita abrem campo com estímulo a armas
De 2003 a 2023, houve 1.228 ataques a
políticos e ativistas e 760 assassinatos consumados
A saída acabou sendo mais momentosa que o
debate. Foi quando o prefeito chamou na chincha o candidato ao governo do
partido adversário. Aconteceu em São Paulo e
não esquentou mais porque as respectivas equipes entraram apartando.
Na presidencial, Flávio
Bolsonaro decidiu-se por slogan que ressoa o de Lula e alude
à arminha do pai: "A
esperança virou medo". Medo da criminalidade, que Jair
Bolsonaro e seu pupilo Tarcísio
de Freitas tinham prometido conter.
Como ficaram na promessa, o tema ficou na agenda e outros se lançam ao posto de solucionador-mor da República. A violência está no programa de Ronaldo Caiado, velho de guerra de 1989, como Lula. Em um de seus arroubos juvenis (já desafiou o Bananinha para luta livre), Kim Kataguiri propôs nada menos que uma bomba atômica.
Flávio B. e Caiado miram a dimensão social e
Kataguiri, a Internacional da violência em suas agendas políticas. O entrevero
entre Fernando
Haddad e Ricardo Nunes alude
à outra: a relação violenta dos políticos entre si.
Ataques mortais a políticos por outros
políticos ou terceiros incomodados com suas ações é fenômeno internacional e de
longa duração. No Brasil, de um janeiro a outro entre 2003 e 2023, houve 1.228 ataques a políticos e ativistas e 760 assassinatos
consumados. Políticos são a maior parte desse bolo: 63,1% dos casos. Embora
o levantamento para os últimos anos esteja em andamento, o problema não
desapareceu.
O candidato que tematiza o medo tem medo ele
próprio: segundo a revista Oeste, Flávio B. acumula 2.000 ameaças.
Fiel ao pai, adotou colete e foge da Polícia
Federal. Recusou esta polícia, mas recorreu à do Senado e triplicou sua
segurança.
Não é só na presidencial que a violência se
esgueira.
As deputadas Gleice Jane (PT-MS), em
Dourados, e Lívia Duarte (PSOL-PA), em Belém, foram ameaçadas de morte,
respectivamente, em dezembro de 2025, por Zap, e em fevereiro de 2026, por
email. Tampouco é só misoginia. Lívia é a primeira deputada negra da Alepa
(Assembleia Legislativa do Estado do Pará), o que, a própria apontou, adenda
outra camada.
Mas os homens e os brancos, sendo maioria na
política, são também os mais visados. O vereador de São Paulo Adrilles Jorge (União Brasil)
registrou ameaça em abril. O deputado Cafu Barreto (PSD-BA) ganhou áudio
aterrorizador em Ibititá, na Bahia. No Paraná, o deputado federal Toninho
Wandscheer (PP) e seus filhos Alisson, deputado estadual (Solidariedade), e
Tiago, secretário municipal de Fazenda Rio Grande, registraram B.O. em julho.
Nem quem tem arma escapa: a deputada federal
Coronel Fernanda (PL-MT) encontrou em sua caixa de entrada, em junho, email com
detalhes de sua rotina e a advertência: "Sei onde você mora".
A PF corre atrás. Anunciou operação nacional
para assegurar a integridade física dos presidenciáveis, aumentando em cerca de
53% o contingente mobilizado (de 300 para 458 agentes). Mas enxuga gelo.
A variedade de estados atesta que a questão
suplanta o nível local, abrange políticos municipais quanto estaduais e ronda a
Presidência. Resolver conflitos políticos à bala é fato tão notório quanto
nacional.
E não é específico desta conjuntura. A
violência contra políticos é tão velha quanto a República: o primeiro civil na
Presidência, Prudente de Morais, quase morreu de bala. E atinge a todos os
partidos. Contudo, governos de direita abrem mais campo para ocorrências ao
liberarem armas ou incentivarem seu uso. No levantamento citado, a média anual
de assassinatos políticos mais que dobrou entre o primeiro governo Lula e o de
Bolsonaro.
O fenômeno deve muito ao discurso de políticos conservadores de estímulo à resolução direta dos conflitos políticos, desprezando as mediações institucionais. Confiando mais nas balas que nas urnas, são eles próprios, muitas vezes, as vítimas delas.
*Professora titular do Departamento de Sociologia da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

Nenhum comentário:
Postar um comentário