sábado, 15 de agosto de 2026

Lula, a última valsa, por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

A campanha do presidente tornou-se o guarda-chuva sob o qual articula-se a paz entre o Congresso e o STF, para que tudo permaneça como está

No terceiro mandato, o reformismo brando de Lula dissolveu-se em mera irresponsabilidade fiscal populista

PT veste vermelho, quando concorre para marcar posição, alternando às cores nacionais quando crê no triunfo. Lula vestiu branco, sob o fundo de uma bandeira verde-amarela, na convenção de lançamento de sua sétima candidatura presidencial. "Lulinha porreta", como se exibiu? Não: isso foi dirigido à militância. O sétimo Lula é o candidato da "ordem".

"Ordem", aí, com aspas. O certo é candidato do status-quo, ou seja, da desordem institucional. Sua campanha tornou-se o guarda-chuva sob o qual se articula a paz entre o Congresso e o STF, para que tudo permaneça como está.

Desde que Jair ungiu Flávio, delineia-se a reeleição de um presidente assombrado por crônica rejeição majoritária, que resiste às "bondades eleitorais" oferecidas às custas do endividamento público. As conexões de Flávio com o Master e sua submissão absoluta à Casa Branca foram lidas pela direita como atestado de óbito.

Daí, seguiram-se a retração de Tarcísio de Freitas à fortaleza paulista e a confirmação das candidaturas especulativas de Caiado e Zema, que sonham herdar a base eleitoral bolsonarista na hipótese de implosão do pretendente bolsonarista. Mas, sobretudo, o centrão extraiu do cenário a conclusão lógica de que deve concentrar seus esforços na apropriação do tesouro depositado no cofre das emendas parlamentares.

União Brasil, PP e Republicanos, principais partidos do centrão, assim como o MDB, declararam neutralidade no plano nacional e "flexibilidade" nas disputas estaduais. Hugo Motta, presidente da Câmara, fez suas contas antes de pronunciar o veredicto: "Lula é o presidente que converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país". Tudo indica que Alcolumbre, seu colega do Senado, siga na mesma direção.

O "país" mencionado por Motta não é o Brasil das ruas, mas um Brasil oficial vergado pelo desequilíbrio institucional. Seu objetivo é conservar a inflação de poderes do Congresso –isto é, o sequestro legalizado da prerrogativa de desviar recursos públicos para as bases dos parlamentares. Sob um governo Lula 4, isso solicita uma reconciliação com o STF, cuja maioria alinha-se ao presidente.

O STF reagiu à operação golpista de Jair Bolsonaro pela ampliação de seu próprio poder. Os juízes supremos gostaram e, passada a situação excepcional, prosseguiram a escalada. Censuram ilegalmente, indiciam arbitrariamente, ameaçam o sigilo de fontes jornalísticas, legalizam rendas abusivas do Judiciário, protegem seus colegas das investigações policiais no caso Master. Hoje, precisam evitar uma retaliação do Congresso que emanará das urnas. Lula, Alcolumbre e Motta surgem como intermediários na costura de um pacto de elites: as emendas em troca dos poderes excessivos dos juízes de capa preta.

O "Lulinha da dona Lindu" nunca foi de esquerda, algo que ele mesmo admite. No terceiro mandato, seu reformismo brando dissolveu-se em mera irresponsabilidade fiscal populista. Sua campanha atual, valsa derradeira, baseia-se em duas negativas: não ao autoritarismo dos Bolsonaro, em nome da democracia; não ao neoimperialismo de Trump, em nome da bandeira auriverde. Dois "nãos", nenhum "sim".

"Vai ter briga com emenda parlamentar", prometeu Lula no palanque da convenção. Esqueça: aos 80, o fiador do pacto das instituições representa uma ordem imune à mudança e carente de amparo popular.

 

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