domingo, 30 de agosto de 2026

As lições do piano de Thelonious Monk e as entrevistas dos candidatos, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

As sabatinas não definirão o resultado da eleição, apesar da enorme repercussão. Foram apenas os primeiros compassos de uma campanha sujeita a denúncias, erros, improvisações e mudanças de andamento

A frase “não existem notas erradas; algumas são apenas mais certas do que outras — tudo depende da que vem depois”, também atribuída ao trompetista Miles Davis, traduz com precisão a estética de Thelonious Monk, um dos grandes gênios do jazz e autor de Round Midnight, Straight, No Chaser, Epistrophy, Blue Monk e Misterioso, entre outros clássicos do gênero.

Em termos musicais, significa que uma nota não pode ser julgada isoladamente. Uma dissonância aparentemente equivocada pode adquirir sentido conforme a frase prossegue. A nota seguinte pode resolvê-la, reafirmá-la ou transformar o choque inicial numa tensão deliberada. No jazz, sobretudo na improvisação, o valor de cada som depende de sua relação com o acorde, o ritmo, o silêncio e as notas que vêm antes e depois.

Monk tocava assim. À primeira audição, podia parecer irregular, áspero e até “errado”. Usava acordes dissonantes, intervalos inesperados, notas percussivas, acentos deslocados e pausas abruptas. Às vezes, levantava as mãos do teclado e deixava que o silêncio completasse a frase. Um dos fundadores do bebop, Monk nunca se acomodou às fórmulas do movimento. Enquanto outros pianistas exibiam velocidade e longas improvisações, ele preferia poucas notas, escolhidas com precisão.

Tocava o essencial e fazia do silêncio parte da música. Até os chapéus, os óculos escuros, as pausas e as danças ao redor do piano reforçavam a imagem de alguém que seguia uma lógica própria. Sua máxima é carregada de filosofia sobre criação, política e vida: um erro não precisa determinar o resultado. O gesto seguinte pode agravá-lo, corrigi-lo ou incorporá-lo a uma sequência coerente. Foi a capacidade de administrar erros, próprios ou atribuídos, que esteve em julgamento na rodada de entrevistas dos candidatos à Presidência realizada pela TV Globo, logo após o Jornal Nacional.

Sem embargo das críticas ao formato adotado pela emissora, as sabatinas confirmaram que não existe eleição ganha de véspera nem candidato blindado. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), hoje, disputam diretamente o Palácio do Planalto. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) tentam sair da orpopria bolha, romper essa polarização e chegar ao segundo turno.

Dissonâncias

As entrevistas mostraram que escândalos, segurança e crise institucional ocupam mais espaço no debate eleitoral do que os programas de governo. Cada candidato precisou lidar com suas notas dissonantes e tentar resolvê-las. Lula foi confrontado com o escândalo do INSS, as suspeitas envolvendo o filho Fábio Luís e as relações do governo com o Congresso. Negou conhecer Roberta Luchsinger, embora fotografias indiquem contatos anteriores.

Na economia, minimizou a dívida pública e apostou no crescimento do PIB. Descartou privatizar os Correios e prometeu zerar a fila do INSS. Mostrou experiência e o domínio sobre governo e políticas sociais. A fraqueza surgiu ao explicar suspeitas que alcançam seu círculo familiar e político. Demonstrou irritação com o pouco espaço para proposta e esteve muito perto de um desastre, porém sua experiência evitou o pior.

Flávio Bolsonaro enfrentou uma sabatina igualmente defensiva. O ponto mais delicado foi o financiamento do filme Dark Horse, sobre o pai, pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Tratou o financiamento como negócio privado, negou contrapartidas e recusou-se a apresentar contratos, gastos e investidores. A falta de transparência manteve aberta uma vulnerabilidade importante. Também foi questionado sobre rachadinhas, milícias, urnas e tentativa de golpe.

Prometeu buscar a anistia de Jair Bolsonaro caso seja eleito. Na economia, ajuste fiscal sem reduzir aposentadorias nem alterar a valorização do salário-mínimo. Falou em cortar ministérios, cargos, desperdícios e fraudes, além de renegociar as dívidas das famílias. Ao indicar Claudio Lottenberg para a Saúde, tentou se afastar dos erros do pai durante a pandemia. Flávio foi disciplinado e saiu-se melhor do que Lula no confronto com os entrevistadores. Evitou explosões e respostas agressivas, mas não apresentou um projeto próprio convincente.

O formato da Globo acabou favorecendo os demais concorrentes, menos pressionados por escândalos de grande repercussão. Ronaldo Caiado procurou ocupar o espaço da direita institucional, experiente e comprometida com a ordem. Romeu Zema reiterou o discurso liberal de redução do Estado, combate aos privilégios e endurecimento contra o crime.

Renan Santos foi o mais contundente e, também, o mais temerário. Ao defender a fabricação de armas nucleares, apesar das restrições constitucionais e dos compromissos internacionais do Brasil, transformou a busca por visibilidade numa dissonância difícil de resolver. Escrevo antes da entrevista de Augusto Cury, que vem mantendo o discurso moderado em defesa do moderno e procura se apresentar como alternativa à polarização e ao radicalismo, ao contrário de Renan.

Essas sabatinas não definirão o resultado da eleição, apesar da enorme repercussão. Foram apenas os primeiros compassos de uma campanha sujeita a denúncias, erros, improvisações e mudanças de andamento. Na política, como no piano de Monk, uma declaração infeliz ou ação errada pode até ser fatal, mas depende do que ainda virá depois. Numa campanha eleitoral, a diferença entre o erro fatal e a improvisação bem-sucedida está na capacidade de reconhecer a dissonância, administrar suas consequências e mesmo assim convencer o eleitor de que, apesar de tudo, se é o melhor.

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