Folha de S. Paulo
A taça da Copa do Mundo era uma taça de
verdade, para se tomar nela o champanha da vitória
Quando o Brasil a ganhou pela primeira vez,
ela viajou pelo país e levou todo tipo de bebida
Na sexta-feira (7), falei de uma doce querela da Copa do Mundo da Suécia, em 1958: quem teria gritado para Bellini levantar a taça que o Brasil acabara de conquistar? E por que levantá-la? Porque Bellini estava num palanque e, quando a levou à altura do peito, os fotógrafos brasileiros, espremidos lá embaixo entre seus enormes colegas europeus, não a estavam vendo. Ao ouvir o grito, Bellini então a ergueu acima da cabeça e consagrou o gesto. Dois deles disputavam a autoria do grito: Luiz Carlos Barreto, de O Cruzeiro, e Jader Neves, da Manchete. Já apostei em Jader, mas é possível que todos tenham gritado ao mesmo tempo.
O que poucos sabem é o que aconteceu com a
taça quando ela chegou aqui. O Brasil era campeão do mundo pela primeira vez e
todo mundo queria vê-la. Convites de prefeituras para que a então CBD (hoje
CBF) a levasse às suas cidades choviam todos os dias. A CBD aceitava, e quem
melhor do que Bellini para ir junto com ela?
Assim, entre seus jogos pelo Vasco no
campeonato carioca daquele ano, Bellini, acompanhado de um funcionário da CBD,
embarcava com a taça para os mais remotos grotões. Nesses, ele e a taça eram
recebidos pelas autoridades, desfilados em carro aberto sob papel picado e
homenageados à noite num clube com um banquete oferecido pela sociedade local.
Até aí, tudo bem. Acontece que a taça
(chamada Jules Rimet, em homenagem ao presidente da Fifa que
a criara) era mesmo uma taça —a haste em forma de uma mulher dourada, de asas,
encimada por um copo (daí a competição ser a Copa) para se beber o champanha da
vitória. E, com isso, naqueles rega-bofes, ela era passada de mão em mão,
reverenciada, lambida, beijada e, à falta de champanha, levantada para brindar
com o que houvesse à mão —Brahma Chopp, Malzbier, Caracu, Licor de Ovos Dubar
e, para as crianças, Guaraná Caçula e Crush. Um milagre que, numa dessas, a
Jules Rimet não tivesse ficado para trás em alguma urbe.
A taça sobreviveu a todos esses perigos e, um
dia, em 1983, sumiu, roubada da sede da CBF.

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