domingo, 9 de agosto de 2026

Caracu na Jules Rimet, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A taça da Copa do Mundo era uma taça de verdade, para se tomar nela o champanha da vitória

Quando o Brasil a ganhou pela primeira vez, ela viajou pelo país e levou todo tipo de bebida

Na sexta-feira (7), falei de uma doce querela da Copa do Mundo da Suécia, em 1958: quem teria gritado para Bellini levantar a taça que o Brasil acabara de conquistar? E por que levantá-la? Porque Bellini estava num palanque e, quando a levou à altura do peito, os fotógrafos brasileiros, espremidos lá embaixo entre seus enormes colegas europeus, não a estavam vendo. Ao ouvir o grito, Bellini então a ergueu acima da cabeça e consagrou o gesto. Dois deles disputavam a autoria do grito: Luiz Carlos Barreto, de O Cruzeiro, e Jader Neves, da Manchete. Já apostei em Jader, mas é possível que todos tenham gritado ao mesmo tempo.

O que poucos sabem é o que aconteceu com a taça quando ela chegou aqui. O Brasil era campeão do mundo pela primeira vez e todo mundo queria vê-la. Convites de prefeituras para que a então CBD (hoje CBF) a levasse às suas cidades choviam todos os dias. A CBD aceitava, e quem melhor do que Bellini para ir junto com ela?

Assim, entre seus jogos pelo Vasco no campeonato carioca daquele ano, Bellini, acompanhado de um funcionário da CBD, embarcava com a taça para os mais remotos grotões. Nesses, ele e a taça eram recebidos pelas autoridades, desfilados em carro aberto sob papel picado e homenageados à noite num clube com um banquete oferecido pela sociedade local.

Até aí, tudo bem. Acontece que a taça (chamada Jules Rimet, em homenagem ao presidente da Fifa que a criara) era mesmo uma taça —a haste em forma de uma mulher dourada, de asas, encimada por um copo (daí a competição ser a Copa) para se beber o champanha da vitória. E, com isso, naqueles rega-bofes, ela era passada de mão em mão, reverenciada, lambida, beijada e, à falta de champanha, levantada para brindar com o que houvesse à mão —Brahma Chopp, Malzbier, Caracu, Licor de Ovos Dubar e, para as crianças, Guaraná Caçula e Crush. Um milagre que, numa dessas, a Jules Rimet não tivesse ficado para trás em alguma urbe.

A taça sobreviveu a todos esses perigos e, um dia, em 1983, sumiu, roubada da sede da CBF.

 

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