Por O Globo
País é a tentação fundamental para todo
ocupante da Casa Branca desde que os barbudos de Fidel Castro tomaram o poder
Dias atrás, o secretário de Defesa dos
Estados Unidos, Pete Hegseth, mostrou-se satisfeito por ser inquirido sobre
Cuba. Era, finalmente, uma ocasião de ostentar musculatura fácil, mudar o foco
da desconcertante humilhação que vem sofrendo há seis meses com a exasperante guerra
sem heróis contra o Irã.
— Todas as opções estão na mesa, o que inclui
opções militares, e seria sensato por parte de Cuba prestar atenção às
declarações do presidente Trump sobre as prerrogativas estratégicas dos
americanos — respondeu. — Com certeza [Cuba] não é páreo para os Estados
Unidos... Estou animado com as muitas opções que temos.
Vestia uma camiseta verde-oliva que deixava à mostra o “We the People” da Constituição tatuado em letras garrafais no antebraço direito.
Imagem, para Hegseth, é crucial. Apesar de estar
no comando do Pentágono e rebatizá-lo de Departamento de Guerra, ele conta com
pouco mais do que sua estampa para sobreviver no cargo até o fim do mandato de
Trump, em 2028. A audácia do rapto e substituição de Nicolás Maduro na calada
da noite, na Venezuela, lhe rendeu bons louros graças à indiferença do mundo
diante de violação tão gritante da ordem internacional. Mas, de resto, nada
mais parece funcionar para Hegseth — nem no Irã, nem no Oriente Médio, nem com
seus éditos sobre o baixo nível de testosterona nas casernas. Até o presidente
Trump vem dando mostra de exasperação com seu protegido.
É nesse panorama que Cuba se apresenta de
forma tentadora também para Hegseth. O “também”, no caso, importa, pois tem
gente mais graúda de olho nesse troféu. Antes de tudo, Cuba é a tentação
fundamental para todo ocupante da Casa Branca desde que os barbudos de Fidel
Castro tomaram o poder na ilha em 1959. Já são 13 os presidentes americanos
consecutivos, de Dwight Eisenhower a Donald Trump (seis democratas e sete
republicanos), que tentaram remover, isolar ou mudar estruturalmente o regime
cubano. Alternaram-se apenas as abordagens táticas — de tentativas de
assassinato e operações clandestinas a décadas de asfixiamento econômico e
alguma diplomacia na era Barack Obama. Trump, que já prometeu acabar com duas
guerras em 24 horas e está atolado em três, deposita no almejado retorno de
Cuba à esfera de influência dos Estados Unidos a chance de conseguir o que a
História certamente lhe negará — ser chamado de estadista.
O secretário de Estado, Marco Rubio, tem
interesses mais terrenos: se conseguir colocar as mãos em Cuba em tempo hábil,
suas chances como presidenciável republicano em 2028 dão um salto de catapulta.
A ponto de empalidecer seu concorrente mais imediato, o atual vice-presidente
J.D. Vance, cuja esfera de poder passa ao largo do Hemisfério Ocidental
idealizado por Trump.
Com esse pano de fundo, merece atenção um
relatório divulgado duas semanas atrás pelo Departamento de Estado de Rubio.
“Cuba, a Capital Comunista do Século XXI”, diz o título. O preâmbulo não é
menos alarmado:
— O ataque de Cuba aos Estados Unidos nunca
foi, em sua essência, uma disputa sobre política econômica, soberania ou mesmo
posse de um determinado território. Foi uma revolução contra a própria
civilização ocidental — travada, em parte, pelo método inédito e insidioso de
persuadir os filhos do Ocidente a se voltar contra sua própria herança. Essa é
a campanha que Castro lançou em 1959, e é a campanha que seus herdeiros estão
travando.
Ao longo de 99 páginas, o relatório afirma
que “mesmo com sua economia à beira do colapso, o objetivo fundamental do
regime cubano permanece sendo a revolução marxista hemisférica capaz de apagar
os Estados Unidos da face da Terra”. Não fica muito claro como ela se daria.
Isso porque, “um dos maiores, mais sofisticados e perigosos vetores de influência
estrangeira hostil na História moderna americana” são, segundo o documento, as
ONGs, organizações ativistas, redes ideológicas e grupos de fachada cubanos.
Dos tumultos antirracistas decorrentes do assassinato a frio de George Floyd à
explosão do ativismo pró-Palestina nos campi universitários, tudo tem ligação
“de alguma forma, à influência cubana” e sua “revolução existencial contra os
Estados Unidos”. Caramba!
Philip Agee foi agente da CIA por nove anos
na década de 1960. Nascido na Flórida de Rubio (cujos pais cubanos emigraram
antes da revolução), morreu na Havana de Fidel Castro em 2008, execrado pela
agência por ter publicado um catatau autobiográfico de quase 700 páginas
narrando sua vida de espião. “Dentro da ‘Companhia’: Diário da CIA”, publicado
no Brasil pelo Círculo do Livro em 1974, tornou-se um clássico. A avaliação de
Agee dos motivos que levam os Estados Unidos a precisar estrangular Cuba foi
feita em entrevista ao programa de TV “Alternative View” e data dos anos 1970:
— Se Cuba, um país pobre, conseguisse
demonstrar que é capaz de oferecer cuidados de saúde melhores e outros avanços
sociais, isso representaria uma ameaça à narrativa dos Estados Unidos sobre a
superioridade de seu modelo. Muitos americanos poderiam olhar para Cuba e pensar:
“Se eles conseguem fazer isso com uma renda per capita de US$ 2.000/US$ 2.500,
enquanto a nossa é de US$ 22.500, que problemas existem em nosso próprio
sistema?
Continua valendo.

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