O Globo
A questão democrática segue em jogo nesta
eleição, com candidatos minimizando o 8 de janeiro e defendendo governos
autoritários
Dos cinco entrevistados no Jornal Nacional,
até sexta, a apenas um não foi preciso fazer perguntas sobre democracia. Dois
subestimaram o ataque aos Três Poderes de 8 de janeiro, um apresentou uma
proposta de extremismo autoritário e o quarto é filho de ex-presidente que
tentou o golpe.
Romeu Zema disse que houve apenas “vandalismo”. Ronaldo Caiado prometeu anistia, e não condenou em momento algum os graves atos de conspiração de Jair Bolsonaro. Renan Santos quer um “banho de sangue”, regime de exceção em favelas e descumprimento de ordem judicial. Flávio Bolsonaro nega todos os fatos, prometeu indulto, e ameaçou enquadrar o Supremo Tribunal Federal. O presidente Lula ficou como o defensor solitário do regime que o Brasil conquistou com tantas lutas e dores.
A questão democrática permanece presente. Era
para os líderes políticos terem entendido a história recente do país, se unido
no essencial, a defesa do regime democrático, e divergido apenas nos projetos
de governo. Porque assim se pode fazer bons debates eleitorais e uma boa
escolha.
Todos eles se disseram democratas, e depois
vieram os senões. O ex-governador de Minas Romeu Zema, além de negar a
conspiração da qual se tem farta comprovação, alimentou a dúvida sobre a urna
eletrônica, o ponto do qual partiu Jair Bolsonaro. Segundo Zema, ele confia na
urna, “mas ela pode ser melhorada se tiver o voto impresso”. A mesma
lenga-lenga do governo anterior na sua tentativa de minar a confiança no
sistema eleitoral brasileiro.
Zema disse que “não existe na história da
humanidade, uma tentativa de golpe ou um golpe de Estado que tenha sido um
movimento de vandalismo e depredação”. O ex-governador demonstra não ter
entendido que aquele atentado de 8 de janeiro foi parte de uma conspiração
ampla que teve envolvimento de militares de alta patente, plano impresso no
Planalto para matar o presidente e o vice, ameaça de atentado a bomba em
aeroporto. Defendeu a estranha teoria de que “quem fez, idealizou, mas não
levou adiante, não cometeu crime”. Ou seja, os criminosos não cometeram crime
porque o golpe fracassou. Não custa lembrar que Zema em 2023 definiu a
Conjuração Mineira como “um golpe à coroa portuguesa”. Ah, Minas, que já teve
fama de ter políticos argutos.
Ronaldo Caiado prometeu dar anistia “ampla,
geral e irrestrita” para os golpistas sob o argumento de que assim vai
pacificar o país. Mas em nenhum momento sequer reconhece que eles cometeram
crime. Perguntado, o candidato fugiu da pergunta como tem feito em todas as
entrevistas dessa campanha. Nunca condenou os gravíssimos casos que a ação
penal trouxe aos autos. Portanto, Caiado não apenas defende a anistia, ele
nunca reconheceu que houve os crimes que o país viu.
Renan Santos usou sua eloquência e treino em
defesa do presidente Nayib Bukele de El Salvador. Aliás, nesta eleição a meca
da direita parece ser o pequeno país da América Central onde direitos humanos
têm sido desrespeitados e regras democráticas foram arquivadas em nome do
combate ao crime. Suas ideias esquisitas, como a de ter a bomba atômica para
ser respeitado pelos vizinhos e pelo mundo, ou a de impor um estado de exceção
apenas nas favelas, são apresentadas como se fossem criativas e inteligentes.
Flávio Bolsonaro foi, claro, o maior defensor
da ideia de que não houve golpe, e sim “uma farsa armada para tirar Jair
Bolsonaro da vida pública”. Acusou o STF de perseguição ao seu pai. “Não queira
ser julgado pelo seu inimigo”, disse ele, falando de Alexandre de Moraes, mas
ele foi condenado pelos votos dos ministros da primeira turma. Moraes foi
apenas o relator. E tanto os fatos trazidos pela investigação da Polícia
Federal quanto a denúncia da Procuradoria Geral são eloquentes. Entre as muitas
mentiras de Flávio, uma foi acusar o brigadeiro Baptista Jr de ser lulista. O
militar foi nomeado por Jair Bolsonaro, exatamente quando o então presidente
demitiu toda a cúpula das Forças Armadas. Ou seja, era então pessoa de
confiança de Bolsonaro.
As mentiras, as falsificações sobre eventos recentes, as tentativas de subestimar o que ocorreu, a defesa aberta de governantes autoritários: tudo isso foi o que se viu durante essa semana de entrevistas de quatro em cinco entrevistados. Pode-se criticar Lula por outras declarações, ou por falta de uma proposta crível de ajuste fiscal, mas ele não precisou ser perguntado sobre democracia.

Plano de matar o presidente,o vice e o Alexandre também.
ResponderExcluirExcelente coluna! Os principais candidatos, exceto Lula, são uma ameaça à Democracia, ou no mínimo se interessam pouco em defendê-la.
ResponderExcluir