O Globo
Teremos a primeira eleição desde a
redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor.
O desânimo com a eleição presidencial deve-se
a que ela é a primeira desde a redemocratização que não traz nenhum traço de
esperança ao eleitor. A primeira eleição direta depois da redemocratização, em
1989, trouxe a novidade do “caçador de Marajás”, o então governador de Alagoas
Fernando Collor, contra os ícones da esquerda brasileira, Leonel Brizola de
volta do exílio, e o líder operário Lula, que enfrentara a ditadura militar com
as greves operárias de São Bernardo. Tudo era novidade, e os eleitores
motivaram-se, cheios de esperanças.
Deu tudo errado, com Collor cassado por corrupção. Não foi preso na ocasião, mas está em prisão domiciliar atualmente, após reincidir no erro, eleito senador depois de passar anos inelegível. A eleição de 1994 teve a grande novidade até hoje no país, o Plano Real, que levou o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso ao Palácio do Planalto no primeiro turno. Acabar com a hiperinflação foi o passo mais importante já dado no país, deixando de legado um tripé macroeconômico que resiste até hoje como modelo de boa governança: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário.
Reeleito também no primeiro turno em 1998,
FHC deu um passo que marcou negativamente seu segundo mandato: a desvalorização
do Real, que se tornara necessária. As diversas crises econômicas no mundo e no
Brasil levaram a que o candidato governista, o tucano José Serra não usasse a
continuidade do Plano Real como base para seu futuro governo. Lula, o líder do
PT, que já perdera três eleições presidenciais, surgiu como a esperança de
mudanças, e venceu a eleição e a desconfiança dos empresários escrevendo a
“Carta aos Brasileiros”.
Assessorado por Antônio Palocci no ministério
da Fazenda, que coordenou sua campanha e o plano de governo, Lula tomou medidas
corajosas. Chamou para dirigir o Banco Central o banqueiro Henrique Meirelles,
que acabara de se eleger deputado federal pelo PSDB de Goiás. Manteve as
diretrizes econômicas do governo anterior e teve êxito ao unir os programas
sociais do governo tucano em um só programa, o Bolsa Família, de sucesso
indiscutível até hoje. Os problemas com a corrupção surgiram a partir de metade
de seu governo, com o escândalo do mensalão.
Lula pela primeira vez declarou-se traído,
pediu desculpas na televisão, e viu seus principais aliados sendo presos,
inclusive José Dirceu, o homem forte do Planalto na ocasião. Os escândalos
seguidos não impediram que ele, extremamente popular, fosse reeleito e depois
elegesse a ministra Dilma Rousseff para sucedê-lo. Mas, diante dos escândalos
que se seguiram, como o petrolão desvendado pela Operação Lava-Jato, Lula
estourou o orçamento para eleger sua sucessora, que governou com uma situação
econômica deteriorada acentuada por sua própria visão de que “gasto é vida”.
Dilma quase perdeu para Aécio Neves, do PSDB,
na reeleição, devido à crise econômica, mas acabou impedida pelo Congresso
devido à própria incapacidade de negociação parlamentar e a uma política
econômica desastrada. O PMDB preparou-se para assumir o governo com um programa
chamado “Ponte para o Futuro”, lançado quando Dilma ainda governava. O vice
Michel Temer assumiu o governo com esse plano, que agradava aos empresários e a
grande parte da classe média, farta da crise econômica e da corrupção petista.
Mas foi abatido pelo escândalo da gravação de
uma conversa quase clandestina com o empresário Joesley Batista, em que
trataram aos sussurros de uma operação para manter o ex-presidente da Câmara
Eduardo Cunha calado na prisão. O deputado federal do baixo clero Jair
Bolsonaro surgiu em meio a esse caos, com Lula na cadeia por corrupção. Vendeu
a imagem de um líder antissistemas e de combate à corrupção, e a maioria
comprou. Governou planejando um golpe de Estado que lhe desse poderes
ditatoriais, e fez com que Lula, que a esta altura já estava fora da cadeia,
por uma decisão do STF considerada por muitos teratológica, ou no mínimo
excêntrica, se tornasse o grande salvador da democracia brasileira. Hoje, não
há auspícios a serem esperados.

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