Correio Braziliense
O petista enfrenta problemas internos que não
conseguiu superar no atual mandato, agravados pela mudança geopolítica na
América do Sul e pela interferência direta de Trump
“Enquanto eu viver, a extrema direita não
voltará a governar este país. Se quiser vir o Trump, que venha. Se quiser vir o
Milei, que venha. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro para
manter a democracia”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num misto
de voluntarismo e soberba, às vésperas da convenção do PT, em São Bernardo do
Campo, neste domingo.
Não se poderia esperar algo muito diferente de quem precisa mobilizar os militantes e aliados para uma eleição difícil. A declaração revela a estratégia de formar um movimento democrático e nacionalista capaz de garantir sua reeleição. O desafio, porém, não se limita a reunir a esquerda: Lula precisa conquistar os eleitores de centro e atrair setores das elites comprometidos com a democracia.
Lula enfrenta problemas internos que não
conseguiu superar no atual mandato, agravados pela mudança geopolítica ocorrida
na América do Sul e pela interferência direta de Donald Trump na política
brasileira. Entre eles estão um Congresso cada vez mais poderoso e hostil, a
persistente crise fiscal, as sobretaxas impostas às exportações brasileiras e
uma extrema direita integrada à onda reacionária mundial.
Lula lidera as pesquisas, mas não dispõe de
vantagem confortável. No Datafolha de julho, aparece com 40% das intenções de
voto no primeiro turno, contra 32% de Flávio Bolsonaro. No segundo, venceria
por 48% a 43%. Considerada a margem de erro de dois pontos, a disputa permanece
competitiva. Pequenos deslocamentos do eleitorado de centro podem alterar seu
desfecho. A fragmentação da oposição, porém, beneficia Lula no primeiro turno.
Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos
disputam os mesmos eleitores antipetistas de Flávio. Essa divisão não elimina o
risco de unificação do voto oposicionista no segundo turno. O sobrenome
Bolsonaro garante a Flávio um piso eleitoral elevado, sustentado pela
fidelidade da base do pai e pela rejeição ao PT.
O discurso necessário para mobilizar os
petistas nem sempre é adequado para conquistar o centro. Ao afirmar que o
Senado “tem metade apodrecida”, Lula transforma uma crítica legítima numa
generalização que pode dificultar ainda mais sua relação com o Congresso. Há
razões objetivas para criticar o Legislativo, entre as quais as irregularidades
nas emendas: falta de transparência, pagamentos sem comprovação, fraudes em
licitações, superfaturamento e obras incompletas.
Segundo o Departamento Intersindical de
Assessoria Parlamentar, entretanto, 451 dos 513 deputados federais, ou 88% da
Câmara, tentarão a reeleição. O número recorde está associado às vantagens de
quem já exerce o mandato em relação aos demais candidatos, como estrutura de
gabinete, exposição pública, prioridade na distribuição dos recursos eleitorais
e, principalmente, controle sobre as emendas parlamentares, acima de 60 milhões
para cada parlamentar.
Fator externo
Em 2022, Lula chamou o orçamento secreto de
excrescência. Depois de eleito, submeteu-se à correlação de forças no
Legislativo. Agora convive com um Parlamento que controla parcelas dos
investimentos públicos e utiliza esses recursos para fortalecer eleitoralmente
seus integrantes. Diante desse quadro, o PT adotou uma estratégia pragmática.
Lançará candidatos aos governos de 12 estados e apoiará aliados em outros 14. A
lógica é assegurar palanques estaduais para a campanha de Lula.
No plano externo, o desafio é inédito. A
participação de Javier Milei na convenção do PL, com ataques a Lula e ao
ministro Alexandre de Moraes, ultrapassou os limites da solidariedade
ideológica e provocou uma crise diplomática. O apoio de Milei e Benjamin
Netanyahu a Flávio procura apresentar a candidatura do PL como parte de uma
articulação internacional da extrema direita.
O maior problema chama-se Donald Trump. Os
Estados Unidos prorrogaram a declaração de emergência que classifica o Brasil
como ameaça à segurança, à política externa e à economia norte-americanas.
Embora a medida não restabeleça a tarifa de 50% derrubada pela Suprema Corte,
permanecem uma sobretaxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros e outra de
até 12,5%, relacionada à alegação de trabalho forçado. O Brasil acionou a
Organização Mundial do Comércio, potr´rm. não se reverterão as sanções a curto
prazo. O órgão está desfalcadop e paralisado.
As tarifas reduzem a competitividade dos
produtos brasileiros, prejudicam setores dependentes do mercado norte-americano
e criam custos econômicos destinados a influenciar o ambiente eleit/oral.
Somam-se às críticas de Washington ao Supremo, à defesa de Jair Bolsonaro e aos
questionamentos sobre a regulamentação das plataformas digitais e o Pix. Mais
do que divergência comercial, trata-se de pressão explícita sobre decisões
soberanas do Brasil e tentativa de prejudicar a candidatura de Lula.
De fato, Lula tem como bandeira poderosa:a defesa simultânea da democracia e da soberania nacional. Mas não poderá confiar somente na retórica da resistência. Para vencer e governar, precisa ter respostas para controlar as contas públicas; responder às demandas concretas da população na segurança, na saúde, na educação, na mobilidade urbana, na habita; reconstruir a relação com o Congresso e evitar que a reação às ingerências externas seja confundida com antiamericanismo. É uma certa soberba a promessa de que a extrema direita não voltará ao poder “enquanto eu viver”. Numa democracia, quem decide isso é o eleitor.

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