domingo, 30 de agosto de 2026

Desesperança, por Merval Pereira

O Globo

Teremos a primeira eleição desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor.

O desânimo com a eleição presidencial deve-se a que ela é a primeira desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor. A primeira eleição direta depois da redemocratização, em 1989, trouxe a novidade do “caçador de Marajás”, o então governador de Alagoas Fernando Collor, contra os ícones da esquerda brasileira, Leonel Brizola de volta do exílio, e o líder operário Lula, que enfrentara a ditadura militar com as greves operárias de São Bernardo. Tudo era novidade, e os eleitores motivaram-se, cheios de esperanças.

Deu tudo errado, com Collor cassado por corrupção. Não foi preso na ocasião, mas está em prisão domiciliar atualmente, após reincidir no erro, eleito senador depois de passar anos inelegível. A eleição de 1994 teve a grande novidade até hoje no país, o Plano Real, que levou o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso ao Palácio do Planalto no primeiro turno. Acabar com a hiperinflação foi o passo mais importante já dado no país, deixando de legado um tripé macroeconômico que resiste até hoje como modelo de boa governança: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário.

Reeleito também no primeiro turno em 1998, FHC deu um passo que marcou negativamente seu segundo mandato: a desvalorização do Real, que se tornara necessária. As diversas crises econômicas no mundo e no Brasil levaram a que o candidato governista, o tucano José Serra não usasse a continuidade do Plano Real como base para seu futuro governo. Lula, o líder do PT, que já perdera três eleições presidenciais, surgiu como a esperança de mudanças, e venceu a eleição e a desconfiança dos empresários escrevendo a “Carta aos Brasileiros”.

Assessorado por Antônio Palocci no ministério da Fazenda, que coordenou sua campanha e o plano de governo, Lula tomou medidas corajosas. Chamou para dirigir o Banco Central o banqueiro Henrique Meirelles, que acabara de se eleger deputado federal pelo PSDB de Goiás. Manteve as diretrizes econômicas do governo anterior e teve êxito ao unir os programas sociais do governo tucano em um só programa, o Bolsa Família, de sucesso indiscutível até hoje. Os problemas com a corrupção surgiram a partir de metade de seu governo, com o escândalo do mensalão.

Lula pela primeira vez declarou-se traído, pediu desculpas na televisão, e viu seus principais aliados sendo presos, inclusive José Dirceu, o homem forte do Planalto na ocasião. Os escândalos seguidos não impediram que ele, extremamente popular, fosse reeleito e depois elegesse a ministra Dilma Rousseff para sucedê-lo. Mas, diante dos escândalos que se seguiram, como o petrolão desvendado pela Operação Lava-Jato, Lula estourou o orçamento para eleger sua sucessora, que governou com uma situação econômica deteriorada acentuada por sua própria visão de que “gasto é vida”.

Dilma quase perdeu para Aécio Neves, do PSDB, na reeleição, devido à crise econômica, mas acabou impedida pelo Congresso devido à própria incapacidade de negociação parlamentar e a uma política econômica desastrada. O PMDB preparou-se para assumir o governo com um programa chamado “Ponte para o Futuro”, lançado quando Dilma ainda governava. O vice Michel Temer assumiu o governo com esse plano, que agradava aos empresários e a grande parte da classe média, farta da crise econômica e da corrupção petista.

Mas foi abatido pelo escândalo da gravação de uma conversa quase clandestina com o empresário Joesley Batista, em que trataram aos sussurros de uma operação para manter o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha calado na prisão. O deputado federal do baixo clero Jair Bolsonaro surgiu em meio a esse caos, com Lula na cadeia por corrupção. Vendeu a imagem de um líder antissistemas e de combate à corrupção, e a maioria comprou. Governou planejando um golpe de Estado que lhe desse poderes ditatoriais, e fez com que Lula, que a esta altura já estava fora da cadeia, por uma decisão do STF considerada por muitos teratológica, ou no mínimo excêntrica, se tornasse o grande salvador da democracia brasileira. Hoje, não há auspícios a serem esperados.

 

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