sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Diferenças na campanha eleitoral, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

A mera consciência partidária dos eleitores bolsonaristas de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder

No domingo dia 16, os partidos políticos começaram suas campanhas eleitorais de 2026. Mais do que a eleição para a presidência, as eleições para as duas casas do Congresso decidirão o destino político do país. A direita há décadas optou por aumentar sua representação nas duas casas e governar o Brasil indiretamente por meio do Legislativo, emparedando a Presidência da República. O poder político foi desfigurado pela concepção de que o Brasil tem um partido só, o de uma família.

A mera consciência partidária dos eleitores que a seguem de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder. O PT, em particular, caiu na armadilha. O que não deixou para a esquerda senão fazer política fora dos marcos do que é propriamente democracia direta e eleitoral.

Nessa lógica, não é estranho que os evangélicos fundamentalistas estejam sendo aparelhados para declarar que o Brasil cristão ou diferente ou indiferente quanto à crença, mas não evangélico, não é o país deles, mas um país inimigo. Eles não votam pela representação política, mas pela intervenção religiosa nas instituições políticas.

O aspecto mais importante da vitória da direita no Legislativo e da vitória da esquerda no Executivo, em 2022, foi a libertação do centro da relação de subserviência ao bolsonarismo. As eleições serão um teste da hipótese.

A centro-direita chega a estas eleições de 2026 sem a necessidade de perfilhar e assumir os débitos políticos de Bolsonaro e sua família. Os do personalismo dos Bolsonaros e sua incompetência para lidar com questões como a pandemia e várias outras questões pendentes da desordem e das decisões erradas de seu governo (2019-2022).

Um indício nesse sentido foi a fala poderosa de Gilberto Kassab, do PSD, candidato a vice-presidente, na chapa de Caiado, aos empresários em São Paulo, incluídos os do agronegócio e seu poder na política do interior, quando declarou que a chance de Bolsonaro nesta eleição é zero. E que o centro está com Lula. Esclareça-se: com Lula para que derrote os Bolsonaros.

Os Bolsonaros são produto de uma “fabricação” política, com base sociologicamente imperfeita e incorreta naquilo que Erving Goffman caracteriza como manipulação de impressões.

É possível definir alguém a partir de impressões sociais que ela pode causar intencionalmente nos outros. Mas as impressões não existem a partir de suposições gratuitas e fake news. Elas dependem de atributos de personalidade de quem é objeto da intenção. Poderia haver, ainda, o outro lado sociológico da questão Bolsonaro.

Max Weber explica que o carisma não se transfere de uma pessoa a outra. Bolsonaro, aliás, não tem carisma. Tem popularidade manipulada, o que torna mais complicada a transferência do atributo de pai para filho.

Na manifestação de Copacabana, foi montada toda uma encenação em que imagens e falas do ex-presidente da República, agora em cumprimento de longa pena e, portanto, legalmente impedido dessas manifestações, atuou eleitoralmente em favor do filho. O candidato nessa inauguração de campanha mostrou que depende significativamente de que o eleitorado o considere cópia e expressão do pai. Não é improvável o efeito bumerangue dessa operação.

Nesta campanha os Bolsonaros terão maior visibilidade. E, portanto, também a terão seus erros e defeitos, com forte probabilidade que a unificação das identidades no nome “Bolsonaro” unifique também os atributos negativos dos membros da família. A campanha refabricará o chamado clã.

A que se deve acrescentar o agravamento decorrente de atributos falsos e frágeis, como a manipulação bolsonarista da religião e a superficialidade de suas demonstrações de fé. Um palavrão de baixíssimo calão, gritado por uma vereadora bolsonarista, contra Lula, no ato de Copacabana, tem nesses casos a função desconstrutiva da teatralidade precária do restante.

A manifestação do Rio foi diferente do aspecto não amadorístico da manifestação do PT em São Bernardo do Campo. Lula não se apresentou sozinho, mas acompanhado de candidatos a outras funções e de outros partidos. Foi pluralista. Em um lugar histórico da luta dos brasileiros contra a ditadura militar.

As esquerdas têm uma história de sofrimento pela pátria, de luta pela liberdade e muito concreta por um país soberano e livre, por benefícios sociais na área da saúde e da educação.

O PT e seu candidato têm uma história consolidada e propriamente de luta pela democracia no Brasil. Tem uma história propriamente política e brasileira. O que é bem diferente de ter suposta influência extralegal sobre governante de potência estrangeira. O que se confirma nos atos fiscais antipatrióticos contra o Brasil.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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