O Globo
Trump saiu à frente com postagens alarmadas
afirmando que os EUA serão Ceuta se os democratas vencerem em 2028
Foi um surto humano que durou 24 horas. Na
sexta-feira, quando o primeiro-ministro espanhol, Pedro
Sánchez, desembarcou em Ceuta, epicentro do rompante migratório vindo do
Marrocos, o número de cadáveres recolhidos chegara a 57 — ontem já eram 67.
Eles vêm somar-se aos milhares de corpos que não aguentam travessias muitas
vezes mais longas pelo mesmo Mediterrâneo: 31.800 só na última década, segundo
o Missing Migrants Project.
Ceuta é um exclave, designação para a parte de um país que fica separada de seu território principal. No caso de Ceuta, trata-se de um exclave espanhol fincado na costa mediterrânea do Marrocos, a pouco mais de 60 quilômetros de Gibraltar — ou da Europa continental. Com Melilla, outra cidade autônoma espanhola encravada na costa norte do Marrocos, forma as únicas fronteiras terrestres legitimadas da União Europeia com a África.
Tudo começou às primeiras horas de
quinta-feira, quando uma massa humana de migrantes marroquinos se pôs em movimento.
Pela fartura de imagens disponíveis, a massa era eufórica, celebrante de uma
espécie de segunda Copa do Mundo. Avançou pelo mar, escalou pedras, atropelou
barreiras e obstáculos até se aplastar, exausta, pelas ruas de Ceuta. Estima-se
que mais de 60 mil tenham desembocado no exclave de meros 84 mil habitantes,
quando a média costuma ser de mil entradas irregulares por ano.
Foram recebidos com pavor, os postos de
acolhimento transbordaram, e Ceuta se fechou. Nenhum pedaço de pão, nenhuma
farmácia, nada ficou aberto. A primeira noite de liberdade foi um pesadelo —
sem comida, sem teto, sem água, sem chão. Logo nas primeiras horas da madrugada
seguinte, o fluxo inverteu-se. Cabisbaixos, em silêncio e em formação quase
ordeira, um total de 48.200 errantes haviam abandonado o cobiçado solo europeu
já no final da sexta-feira.
Deixaram para trás uma nova onda de xenofobia
europeia, um cipoal de encrencas para o socialista Sánchez e uma oportunidade
não desperdiçada pelo presidente americano, Donald Trump,
de se fazer ouvir. No fundo, a massa humana que pensou ser agente de seu
destino não passou de figurante da geopolítica em curso.
Dez dias atrás, Sánchez havia feito uma
visita oficial à Argélia, vizinha e nem sempre alinhada ao Marrocos. Regressara
da viagem com um cobiçado acordo bilateral na mala: um aumento substancial nas
importações de gás argelino. A notícia deve ter desagradado ao rei marroquino,
Mohammed VI. Compreende-se: até 2021, o gás extraído da Argélia atravessava 540
quilômetros de território de seu país até chegar à Espanha. Durante todo esse
tempo, a monarquia marroquina cobrava pedágio e ficava com parte do
fornecimento para si — de graça. Desde a existência do gasoduto Medgaz, que
liga a Argélia diretamente à cidade espanhola de Almeria, isso acabou, e
Sánchez ganhou em tempo e dinheiro. Não é de todo fantasioso citar esse fato
para explicar a súbita facilidade com que a massa de emigrados conseguiu forçar
a fronteira com Ceuta.
Há quem atribua a culpa pela invasão à
própria Suprema Corte espanhola, que havia proibido, a partir deste mês, a
deportação de migrantes irregulares antes de exauridos todos os recursos
judiciais a que têm direito na Espanha, criando assim um incentivo indireto à
pressão na fronteira.
Seja como for, a reação das lideranças
mundiais espelha o que está em curso. Trump saiu à frente com postagens
alarmadas afirmando que os Estados Unidos serão
uma Ceuta se os democratas vencerem as eleições em 2028. Vice-presidente,
Departamento de Segurança Interna e integrantes do gabinete fizeram coro: “Se a
Espanha tivesse um presidente como Donald Trump, isso não ocorreria”, “Se os
espanhóis não encontrarem logo um novo Franco, se extinguirão”, “Lembrem-se
dessas imagens — podemos ser nós em dois anos”.
As lideranças europeias de extrema direita
estudam medidas para conter a “ameaça real à segurança das fronteiras
continentais”. A França reforçou
em cinco vezes a estrutura de suas fronteiras, e a Itália de
Giorgia Meloni já deu entrada no pedido de suspensão da Espanha do espaço
Schengen de livre circulação. É como se os hunos estivessem às portas da
Europa.
Um mundo turbinado pelo medo é fácil de
domar. É a arma mais barata e poderosa à disposição de líderes medíocres. E a
mais fácil de desarmar: pelo voto.
Em tempo: Por falar em voto,
na semana passada o influenciador Paulo Figueiredo, bolsonarista raivoso de
terceira geração, achou interessante divulgar uma de suas taras contra
jornalistas profissionais do Brasil. Denunciado na Justiça por vários crimes
contra o Estado Democrático de Direito, Paulo toca sua vida cívica rastejante
nos Estados Unidos. Considera-se jornalista. Do jornalismo profissional, merece
repulsa. Dos alvos de sua covardia verbal, nem sequer desdém merece — um
polpudo corretivo processual basta.

Nenhum comentário:
Postar um comentário