sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Flávio Bolsonaro quer entregar Brasil a Cristo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Candidato ameaça editar decreto que violaria princípio constitucional da laicidade do Estado

Com uma única declaração, ele revela várias facetas de sua inadequação para a Presidência

Num desafio à lógica, às instituições e à própria higidez das religiões, Flávio Bolsonaro ameaçou: "Eu quero debater com quem não acredita em Deus, porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo".

O primeiro problema com o período flaviano é que ele carrega um imenso "non sequitur". Se você convida alguém para um debate, o pressuposto é o de que pretende persuadi-lo pela força dos seus argumentos, o que entra em contradição com o recurso à canetada, que impõe o dogma sem se importar em obter o consentimento dos que estariam sujeitos à medida.

O segundo problema é que o tal decreto, que já tem algo de etéreo, pois não deixa claro o que significaria para o país "ser" de Cristo, carregaria vício constitucional insanávelAndré Mendonça até poderia concordar com Flávio, mas quero crer que o hipotético diploma seria rapidamente anulado pelo STF. O artigo 19 da Carta veda ao poder público "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Flávio é advogado. Imagina-se que foi aprovado em direito constitucional.

O terceiro problema é que a tentativa de Flávio de aproximar-se dos evangélicos revela abissal ignorância sobre a história das religiões. O princípio da laicidade estatal que ele se propõe a subverter surgiu para proteger as religiões, não enfraquecê-las. Determinar que o Estado permanecesse neutro em matéria religiosa e assegurasse a liberdade de culto a todos foi a solução que a Europa encontrou para conter as guerras entre católicos e protestantes, dos quais os evangélicos são herdeiros. Ateus, que por definição não cultuamos nenhum deus, não temos maior interesse na liberdade de culto. Basta-nos não ser obrigados a seguir uma religião.

Louve-se em Flávio sua capacidade de, com uma única declaração, escancarar tantas camadas de seu despreparo para o cargo de presidente da República.

 

 

 

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