Folha de S. Paulo
Mês e pouco antes da eleição, dados do IBGE
ainda mostram melhora surpreendente
Mau humor indica que povo pensa de outra
maneira o que seja bem-estar material
Mês e pouco antes da eleição somos
informados outra vez pelos dados do IBGE de que a situação do
trabalho é a melhor em quase meio século. Mas, como se sabe, a avaliação
de Lula 3 está no vermelho desde o início de 2025. Parte dessa
incongruência parece ter explicações razoáveis. Mas o mistério ainda é grande.
Primeiro. Desde a ascensão da extrema direita, parte importante das opiniões sobre "economia" é determinada pelo que se pensa da política, não o contrário. Acontece nos EUA também. Até os tradicionais índices de confiança de consumidor estão entortados por isso que se chama de "polarização".
Segundo. O alto nível
de preços, em especial de alimentos, cria problemas, maiores para
quem ganha até três salários mínimos. A taxa de inflação pode
até aumentar menos, mas "as coisas ficaram caras", como se escreve
aqui faz anos. Essa carestia deu um pulo desde a epidemia. Exemplo: o preço da
comida que se leva para casa ("alimentação no domicílio") aumentou
64% desde fevereiro de 2020. O salário médio
(nominal) aumentou 60%. Sob Lula 3, o preço da comida aumentou em média 13,6%;
o salário médio, 34,6%. Não refrescou. Para os mais pobres, mesmo o aumento da
despesa com benefícios sociais per capita não parece ter aliviado a situação.
Terceiro, a despesa média das famílias com o
pagamento de dívidas bancárias (há outras) deu um pulo desde a epidemia. Foi de
22,6% da renda em
fins de 2019 para 27,6% em fins de 2022. Baixou então um pouco. Voltou a
aumentar em fins de 2023. Está agora em 28,5%. Aumento do crédito e juros medonhos
fizeram estrago. Crédito desregulado e incentivado além da conta
pelos setores privado e público deu problema. A política macroeconômica ruim de
Lula 3 (crescimento excessivo da despesa, pouca mudança institucional etc.)
contribuiu em parte grande para a alta de juros.
Quarto, mais recente, o gasto em
"bets" faz a desgraça social e econômica conhecida. Na especulação,
se diz também que despesas novas (celular, "streaming", similares e
outras) não estariam bem contadas na cesta de consumo que baseia a medição de
inflação.
A taxa de desemprego é
a menor desde o início da nova série do IBGE, em 2012. A comparação com anos
anteriores não é possível sem mais. Contas preliminares indicam que a situação
é a melhor desde o fim da ditadura. O salário médio ainda cresce ao ano mais de
3% acima da inflação, muito além do PIB, quase infinitamente mais do que a
produtividade. O crescimento anual do número de empregados caiu para menos de
1% faz três meses, em parte porque falta mão de obra. De janeiro de 2024 a
julho de 2025, crescia a mais de 2%, com picos de 3%.
Talvez o trabalho cada vez mais precário,
instável e sem sentido cause mais angústia, assim como a baixa expectativa de
mobilidade social. Pessoas pobres que foram para o ensino superior expandido
(em geral muito ruim) talvez estejam frustradas de não ganhar tanto mais quanto
imaginariam "com a faculdade". A renda dos 10% mais pobres cresceu
menos do que a dos 10% mais ricos em 2025. Talvez benefícios sociais façam
parte da paisagem, não animem mais. Talvez achem que Lula não diga mais nada
sobre o futuro.
Fatos e especulações dão o que pensar sobre
política econômica feita na marra e sobre insuficiências da vida material além
de renda. Deixam uma dúvida mais imediata: se o humor social não é bom com a
presente situação do trabalho, o que será quando a coisa piorar?
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