Folha de S. Paulo
Livro propõe uma explicação original para a
ascensão econômica e aumento do prestígio da China
Fazendo obras, tirou da pobreza milhões de
concidadãos e melhorou a vida nas grandes cidades
A China é hoje mais bem avaliada que os Estados Unidos pelos habitantes de 30 de 36 países incluídos na "Pesquisa Global de Atitudes", conduzida anualmente pelo respeitado instituto americano Pew Research Center. E o líder chinês Xi Jinping inspira mais confiança aos entrevistados do que Donald Trump. É um resultado inédito. Reflete o enorme desgaste da imagem internacional dos EUA, produto da truculência com que a Casa Branca vem conduzindo a política exterior do país. Mas também atesta o crescimento do prestígio internacional da China graças à sua pujante ascensão econômica e à capacidade de ocupar posições na fronteira da inovação produtiva.
Para aqueles que, como eu, pouco sabem dessa
nova potência, será de grande proveito a leitura de "A Todo Vapor:
Tecnologia e poder na China e a disputa com os Estados Unidos", de Dan Wang (Intrínseca). Chinês de nascimento, criado
no Canadá, formado em economia nos Estados Unidos, Wang trabalhou sete anos na
sua terra natal como analista de tecnologia.
Seu livro propõe uma explicação original para
o êxito econômico da China: não decorre do regime político autoritário de
Beijing nem de uma forma específica de sistema econômico, mas das capacidades
estatais desenvolvidas por uma liderança política formada por engenheiros. O
Estado-engenheiro tem vocação e meios para encontrar soluções técnicas para os problemas e apetite
aparentemente insaciável de fazer: ferrovias, pontes, metrôs, portos,
aeroportos, usinas, redes elétricas, fábricas e cadeias industriais, habitação
em larga escala, projetos de renovação urbana. Fazendo obras, tirou da pobreza milhões
de concidadãos e melhorou a vida nas grandes cidades.
Wang contrapõe o Estado-engenheiro chinês ao
Estado-advogado americano, habilitado a regular, limitar, contestar —e, em
última instância,— bloquear iniciativas, tornando mais confusas as decisões de
políticas públicas e muito mais lenta a sua implementação.
O livro não faz apologia do sistema chinês,
mesmo quando descreve com admiração seus logros materiais. Em dois capítulos
nos quais aborda o enfrentamento da pandemia
da Covid e a política do filho único, expõe os enormes custos humanos
envolvidos na gestão de questões sociais como se não passassem de um problema
de engenharia.
A implacável tentativa de controlar a
população e impor-lhe o confinamento, durante o surto epidêmico, fracassou,
depois de ganhos iniciais, e acabou atabalhoadamente abandonada. A política do
filho único —mediante controle coercitivo da natalidade— foi uma colossal
catástrofe que alterou até hoje o equilíbrio demográfico do país. Incluiu
abortos forçados; infanticídio de meninas; esterilização em massa de mulheres
—e, em menor medida, de homens—; entrega de bebês para adoção por estrangeiros.
Em suma, um crime contra a humanidade.
Wang julga possível compatibilizar a
agilidade do Estado-engenheiro com limites políticos ao poder dos governantes,
que só o Estado democrático de Direito consegue, mal e mal, prover. Algo mais
fácil de propor do que de obter na prática, mas sempre um desafio às
democracias diante do crescente prestígio da China dos engenheiros
autoritários.

É isto aí, Trump afundando os EUA... China e Rússia agradecem...
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