quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Mania da Bolsa do Brasil 'queridinho do mercado' murchou de novo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Brasileiros querem juros, estrangeiros querem IA e economia é precária e instável

Em abril, propaganda ingênua ou marqueteira era de Ibovespa além de 200 mil pontos

O Brasil era o "queridinho do mercado" em abril, expressão cafona que resumia o fato de que parte da finança do mundo pingava dinheiro por aqui. Era o que aparecia em relatórios de bancões e em falações de brasileiros mais deslumbrados ou interessados que passavam pela reunião de primavera do FMI, naquele mês. O Ibovespa chegava então ao pico de 198 mil pontos e uns quebrados.

A mania murchou em junho. Em agosto, o índice baixou à casa dos 167 mil pontos, queda de uns 15%. O clichê da vez é que "o mercado" entrou no "modo eleição".

Os "estrangeiros" estão tirando dinheiro das ações brasileiras, mas o saldo acumulado no ano ainda é positivo. A participação deles no valor da Bolsa ainda anda pela casa dos 60% a que chegou na virada para 2025, "recorde". Quem não acreditou na história do "queridinho" foram investidores institucionais e pessoas físicas daqui. Saem da Bolsa, se por mais não fosse porque têm opções e taxas rendosas na renda fixa. Difícil dar peso para ações em um país com juro real de um ano em torno de 9,5% —não dá para acreditar no país.

Em si mesma, essa baixa diz pouco sobre a economia brasileira. No médio prazo e no que diz respeito à importância econômica do mercado de ações, não dá para ficar animado. Por ora, vamos apenas lembrar que essas manias, "Ibovespa 240 mil", são marqueteiras ou ingênuas mesmo em economias organizadas. Nesta nossa desordem pobrezinha e muito dependente de humores internacionais, ainda mais.

A entrada do dinheiro "estrangeiro" em ações brasileiras, que vinha de 2025, seria "estrutural", dizia-se até maio. Donos do dinheiro grosso do mundo tiravam uma migalha do que tinham em ações de tecnologia nos EUA, em alta estrambótica, para diversificar. Era a hipótese.

Isso que era chamado de "rotação" talvez se devesse ainda ao fato de que havia pouco dinheiro aplicado em América Latina, longe de conflitos. A região seria favorecida por vender "commodities", com preço animado por causa da guerra contra o Irã. Também ganharia com um dólar mais fraco no mundo e por estar virando à direita. No Brasil, mesmo a eleição não abalaria esse cenário. A baixa das taxas de juros daria empurrãozinho adicional. O pessoal não ligava muito para a desaceleração da economia, para resultados ruins de empresas e para o endividamento excessivo, dada as taxas de juros mortíferas.

Os motivos domésticos de otimismo eram poucos e se quebraram, o que não deveria causar surpresa. Os donos do dinheiro grosso do mundo voltaram a comprar ações nos EUA, que vão a novas alturas, e emprestam centenas de bilhões de dólares para os negócios do mundo IA, o que suscita de novo alertas de bolha de crédito por lá.

O resumo de sempre da opereta é que juros nos EUA, preços de commodities e algumas manias externas nos dão empurrões ou nos quebram as pernas, mais ainda em situações de desarranjo macroeconômico ou na falta de perspectiva de crescimento regular, crise de mais de 40 anos.

Faz meia década que quase não há abertura de capital na Bolsa, o que não se via desde o final do século passado, quando o país tentava acreditar que se livrara da hiperinflação. Afora na finança, são de resto raras as empresas novas com potencial, que dirá setores novos. O crescimento do PIB costuma ser medíocre e instável como a política econômica e regras em geral. Variações da taxa de câmbio podem avariar investimentos. Etc. É uma rotina de sobrevivência na selva

 

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