Folha de S. Paulo
Na convenção do PT, presidente de 80 anos
surge como político buscando manter relevância e inovação
Petista sugere Haddad como herdeiro, mas cita
condicionantes difíceis de serem cumpridas pelo aliado
Naquele que deve
ser seu último discurso aceitando uma candidatura à Presidência, Luiz
Inácio Lula da
Silva expôs sua condição de líder da esquerda brasileira que busca manter
relevância enquanto lida com a noção de legado e a falta de uma sucessão
organizada.
Na convenção do PT neste
domingo (2) em São Paulo estava o narcisista usual dos palanques. A primeira
metade de sua fala, de improviso, abusou do tom íntimo e autocentrado do "Lulinha
da dona Lindu", que tudo venceu.
A hagiografia acompanha a carreira do petista, de resto única. Até uma foto sua como criança foi parar na camiseta de Janja, primeira-dama resgatada pelo marido do papel de acessório de palco —uma escorregada da organização, admoestada pelo próprio presidente.
A digressão de Lula, falando bem de si mesmo,
foi longe, com citações a episódios históricos que não interessavam a ninguém
na plateia. O controle, porém, foi retomado quando passou a ler o roteiro
inicial.
Aí houve alguma coisa de substância, ainda
que no fundo tudo fosse sobre Lula: o "presidente
do Bolsa Família" quer a defesa de seus programas, mas não mais
ser conhecido pela alcunha.
É normal que governantes atrás da reeleição
tentem vender algo diferente e exaltar os feitos, mas a construção ficou
contraditória. Pode ser o peso dos anos de poder e de idade expondo o drama de
lidar com seu legado, mas isso é especulativo.
Como nunca permitiu que lideranças à sua
sombra ganhassem destaque por si, voltou a sugerir Fernando
Haddad como o sucessor.
O nome do ex-ministro sempre foi o mais óbvio
no entorno lulista, mas talvez não por acaso o próprio presidente apresentou as
condicionantes ao dizer que o aliado poderia buscar o Planalto após
"governar São Paulo por oito anos". Para isso, precisa chegar lá,
e há
um Everest à frente para tal.
Voltou
a prometer ser "Lulinha porreta", e não mais a versão paz e
amor. Isso pode funcionar com a militância, assim como a convenção banhada por
iluminação vermelha como há muito não se via. Já para chegar aos indecisos
prioritários, é duvidoso.
Nota lateral, Lula apostou no branco do
vestuário, deixando o vermelho em maior destaque no palco para Lu Alckmin,
insuspeita de petismos.
Houve acertos eleitorais no discurso com
roteiro. O foco nas mulheres e na violência contra elas é tema central desta
campanha, assim como a já decantada disputa
sobre soberania, evidenciada no bandeirão do Brasil e no trecho mais
longo sobre defesa nacional.
É a terceira vez em poucas semanas que Lula
dedica tempo ao tema, de resto incontornável mas sempre objeto de rejeição à
esquerda, como ele mesmo admitiu. Quase nenhum general votará nele, mas o tom
está em sintonia com a caserna.
Tudo isso, claro, é cortesia de Donald Trump
e seu intervencionismo. Espertamente, não houve ataques diretos ao americano, e
na mesma linha, ao rival Flávio
Bolsonaro (PL).
O filho de Jair, chamado apenas de
"traste" pelo presidente, foi basicamente ignorado. O show
de horrores da convenção do rival foi objeto de piada do vice Geraldo
Alckmin, mas só.
Outro foco do discurso, esse novidadeiro, foi
nos idosos. Novamente, Lula acerta: 24% da amostra populacional do mais
recente levantamento do Datafolha é
composta por pessoas com 60 anos ou mais, o maior grupo ao lado de quem tem de
45 a 59. Nele, a vantagem do petista sobre Flávio já é maior do que na média.
O resto é promessa de campanha ou
anacronismo, como a defesa de sindicatos fortes num mundo em franca
transformação trabalhista. Lula prometeu revolução na educação como se não
tivesse tido três mandatos para tê-la feito.
Disse que irá bater de frente com o Congresso devido à ditadura
das emendas parlamentares, algo que terceirizou para seu amigo Flávio Dino
no Supremo até aqui. A ver.
A economia e a dívida pública em nível
recorde ficaram para outro dia. Por evidente, nada sobre o
Lulinha filho ou as relações do
amigo Jaques Wagner com o Banco Master. Sobrou assim no palco um
político de 80 anos buscando manter-se sob os holofotes.

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