O Estado de S. Paulo
As regras criadas para controlar servidores fortalecem sua influência
Por que governos tão diferentes quanto os de
Bolsonaro e de Lula acabaram entrando em conflito com as mesmas burocracias do
Estado?
Bolsonaro acusou o Ibama de travar o
desenvolvimento, confrontou a Anvisa na pandemia e frequentemente atribuiu aos
servidores de carreira a resistência às suas políticas. Lula, por sua vez,
criticou o Banco Central pela condução da política monetária, contestou
pareceres técnicos da área econômica e também entrou em atrito com órgãos ambientais
e agências reguladoras em torno de projetos considerados prioritários pelo
governo.
A explicação mais comum é ideológica. Mas ela é insuficiente. Há uma razão institucional para que governos de orientações tão distintas esbarrem nos mesmos atores. Nas últimas décadas, democracias passaram a exigir que decisões públicas fossem justificadas por estudos técnicos, análises de impacto, consultas públicas e pareceres especializados. Ao exigir justificativas técnicas, o sistema fortaleceu justamente quem produz essas justificativas.
Quem elabora um parecer ou uma análise de impacto normalmente não toma a decisão final. Essa continua sendo prerrogativa dos políticos. Mas define quais alternativas serão examinadas, quais evidências serão relevantes e quais riscos precisarão ser enfrentados.
Uma pesquisa recente que desenvolvi com Érico
Santos, baseada em entrevistas e experimentos com servidores de carreira de
agências reguladoras, revela exatamente esse mecanismo. Quando percebem que uma
decisão ameaça a “missão institucional” da agência, esses profissionais tendem
a utilizar os próprios procedimentos administrativos para fortalecer seus
argumentos.
O curioso é que quase nunca recorrem a
vazamentos, denúncias ou confrontos públicos. Preferem atuar dentro das regras,
produzindo análises mais robustas, justificativas mais detalhadas e processos
mais difíceis de serem ignorados.
Isso ajuda a explicar por que tantos governos
demonstram desconforto com a burocracia. O poder desses servidores não decorre
do voto nem da autoridade formal para decidir. Surge da capacidade de produzir
o conhecimento que confere legitimidade às decisões públicas.
O paradoxo é evidente: as mesmas regras
criadas para controlar a burocracia aumentaram sua influência. Esse não é uma
distorção da democracia. É uma consequência natural de sociedades que exigem
decisões cada vez mais fundamentadas. No Estado moderno, quem produz as
justificativas técnicas talvez não governe. Mas ajuda a definir conflitos e
como os governos governam.

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