Correio Braziliense
Flávio condicionou sua presença à participação
de Lula, porque perderia a oportunidade de confrontar diretamente o principal
adversário e seria alvo de Caiado, Zema e Renan
O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, marcado para hoje, às 20h,
na Band, terá dois protagonistas invisíveis: o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, candidato à reeleição pelo PT, e o senador Flávio Bolsonaro (RJ),
representante do PL. Os líderes das pesquisas decidiram não comparecer,
deixando o palco para Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos
(Missão) e Augusto Cury (Avante). A ausência expressa o cálculo político de
ambos: evitar desgastes, reduzir o risco de surpresas e manter a disputa
confinada à polarização que interessa aos dois.
Para Lula, preservar a liderança significa conservar a expectativa de poder,
que atrai alianças, financia mobilizações políticas, estimula apoiadores e
mantêm palanques estaduais organizados. Uma eventual ultrapassagem de Flávio,
ainda que estatisticamente limitada, pode ser desastrosa, maior do que os
próprios números, abrindo espaço para deserções, hesitações no centro e
mudanças na percepção de quem reúne condições reais de vencer.
Novas denúncias contra seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, deixaram
o petista na defensiva. Num debate com adversários à direita, seria o alvo
principal de questionamentos sobre denúncias relacionadas ao INSS,
investigações envolvendo pessoas do seu entorno político, dificuldades
econômicas e o desgaste natural do governo. Em termos práticos, sua ausência
evita exposição a vários ataques. Mas isso não significa que deixarão de
existir.
Congelamento
Flávio condicionou sua presença à participação de Lula, porque perderia a
oportunidade de confrontar diretamente seu principal adversário e seria alvo de
Caiado, Zema e Renan, candidatos que disputam o eleitorado conservador, com
objetivo de chegar ao segundo turno em seu lugar. Teria de responder a
questionamentos sobre seu histórico político, suas relações com personagens
investigados e o legado do bolsonarismo, enquanto seus concorrentes se
apresentariam como uma direita menos vulnerável e mais confiável.
Em eventual segundo turno, Flávio recebe votos de apenas parte do eleitorado
dos demais candidatos à direita: 60% dos apoiadores de Zema, 54% dos eleitores
de Caiado e 48% dos que preferem Renan. Confrontá-los diretamente poderia
dificultar a reunião dessas forças na etapa seguinte. Sua prioridade é se
apresentar como o único adversário viável contra Lula e esvaziar uma
alternativa de centro-direita ou antissistema.
Lula quer impedir que Flávio o ultrapasse e evitar que outro concorrente cresça
a ponto de reorganizar a disputa. Flávio pretende consolidar sua condição de
representante principal da oposição, bloqueando qualquer movimento de
substituição dentro do campo conservador. Formam, assim, uma espécie de muralha
na qual eles disputam a liderança na parte de dentro e os demais candidatos
ficam do lado de fora.
Mas essa tática pode resultar num cerco perigoso. Segundo o Datafolha, 72% dos
eleitores afirmam estar decididos, enquanto 27% admitem mudar de voto. Entre os
apoiadores de Lula, 82% se dizem convictos; entre os de Flávio, 78%. Há ainda
30% que declaram votar principalmente para impedir a vitória de outro
candidato, ou seja, são eleitores voláteis, suscetíveis a acontecimentos novos,
desempenho em debates e mudanças no ambiente político.
Portanto, a segmentação do eleitorado ajuda a explicar a cautela. Num eventual
segundo turno, Lula lidera entre as mulheres, por 51% a 38%; entre eleitores
com renda de até dois salários mínimos, por 55% a 35%; e no Nordeste, por 61% a
30%. Flávio predomina entre evangélicos, por 62% a 29%; e entre eleitores de
renda mais alta. No Sudeste, região decisiva pelo tamanho do eleitorado, há
empate técnico. O mau desempenho no debate poderia tornar-se uma armadilha,
capaz de alterar percepções nesses segmentos e modificar o equilíbrio da
disputa.

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