O Globo
É sempre melhor quando a Justiça
redemocratizada se alia à História, claro. Mesmo que tardiamente
Três gerações depois do sombrio 18 de agosto de 1936, ainda é proibido esquecer. Passaram 90 anos desde o fuzilamento do poeta Federico García Lorca por falangistas de Granada. Seu corpo nunca foi encontrado. Segunda-feira passada, dia 17, a homenagem mais vibrante e desempoeirada ocorreu nas ruas de Madri, quando uma ruidosa centena de jovens artistas emergiu do Palácio de Velázquez carregando (com autorização do Ministério da Igualdade) uma pequena estátua de Lorca sorridente. Num misto de “procissão laica” com flashmob a que foram se juntando cidadãos comuns, o cortejo seguiu até a Plaza de Santa Ana, no Barrio de las Letras. Ali, cantaram, declamaram e dançaram aos pés da estátua oficial, em bronze e tamanho natural, do cultuado dramaturgo de “La Casa de Bernarda Alba”.
Uma imensa faixa com a conhecida estrofe de
um poema de Lorca fez parte do cortejo: Quiero
dormir un rato,/Um rato, un minuto, un siglo;/pero que todos sepan que no he
muerto.
Recapitulando. Ao arrepio da ascensão do
nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália, o ano de 1936 começara na Espanha
com a vitória eleitoral de uma Frente Popular que reuniu socialistas,
comunistas, anarquistas e organizações operárias. Ficaram no poder por pouco
tempo — menos de quatro meses. Em julho daquele ano, a efêmera República foi
derrubada. A Guerra Civil de três anos que se seguiu, cujo horror foi
imortalizado por Picasso em “Guernica”, causou a morte direta de cerca de 500
mil pessoas. A ditadura de Franco durou 36 anos, sua teia de cicatrizes ainda
lateja, e a Espanha até hoje não conseguiu enterrar boa parte daqueles mortos.
Lorca foi preso e assassinado logo no
primeiro mês, apesar de não ser filiado a nenhum partido de esquerda. As
acusações contra ele, extraídas dos arquivos públicos, dizem o essencial:
— Se ignora sua filiação política, mas sua
ideologia é francamente esquerdista [...] publicou várias poesias negando a
existência de Deus [...] Conceitualização de sua vida privada: un invertido (homossexual).
Foi esse o pecado capital do cultuado poeta
nacional que, à época do fuzilamento, tinha 38 anos e se preparava para assumir
uma relação com um jovem de 19. O paradeiro exato de seu corpo continua
desconhecido, apesar das periódicas escavações nas montanhas entre Viznar e
Alfacar, salpicadas de valas comuns do horror falangista. Mesmo decorrido quase
um século, é proibido esquecer. À falta de justiça, cabe à memória atravessar o
tempo para alcançar novas gerações.
É sempre melhor quando a Justiça
redemocratizada se alia à História, claro. Mesmo que tardiamente. Semanas atrás
foi noticiada a captura do coronel reformado Nelson Haase Mazzei, um dos oito
militares chilenos responsáveis pela morte sob tortura do cantor Victor Jara,
53 anos atrás. Haase integrava a notória Brigada Tejas Verdes quando os
militares derrubaram o governo socialista de Salvador Allende, em 1973,
inaugurando uma das ditaduras mais hediondas do hemisfério. Logo nos primeiros
dias do golpe, o músico-ícone de 40 anos foi preso e submetido a torturas no
Estádio de Chile (hoje rebatizado de Estádio Victor Jara). Seu corpo foi
encontrado perto do principal cemitério de Santiago, com 44 perfurações de
balas. Tinha as duas mãos quebradas e o crânio esmagado.
A bailarina britânica e ativista Joan Jara,
viúva do cantor, morreu aos 96 anos, em 2023, sem ter podido presenciar esse
ato final de justiça. Haase Mazzei, de 80 anos, havia conseguido fugir para o
sul do país após ser condenado a 25 anos de prisão em 2023 com os demais
implicados. Um deles, Hernán Chacón, suicidou-se aos 86 anos quando a polícia
foi prendê-lo em sua residência. Outro, Pedro Barrientos, havia fugido para os
Estados Unidos, onde viveu por 34 anos até ser extraditado e preso três anos
atrás. Sua sentença será proferida em dezembro de acordo com o Código Penal
chileno específico para os 17 anos de crimes da ditadura militar.
E o brasileiro Honestino? O estudante de
geologia da UnB, militante da Ação Popular e líder da União Nacional dos
Estudantes do Distrito Federal, tinha 26 anos em 1973 quando foi assassinado e
“desaparecido” pelos órgãos da repressão militar brasileira. Foi “sumido” há 53
anos, portanto, com graus de crueldade não incomuns numa ditadura. No segundo
mês sem notícias do filho, a mãe ouviu de militares que ele estava preso no
Pelotão de Investigações Criminais da capital, ela poderia visitá-lo no dia de
Natal. Família e amigos prepararam bolos, guloseimas. A mãe esperou seis horas
em vão. Segundo depoimento do sobrinho de Honestino à Agência Brasil,
“levaram-na para uma cela que estava cheia de sangue e disseram que o preso não
estava mais lá”.
Por que falar de Honestino agora? Porque é
preciso. Porque no Brasil, ao contrário do Chile e da Argentina, os crimes da
repressão militar foram anistiados. Porque a cinebiografia “Honestino” está em
cartaz nos cinemas do país, e é desalentador ver apenas três cidadãs idosas
numa das sessões. Porque o filme e o caso dos desaparecidos deveriam estar nas
televisões e em sessões grátis nas universidades. Porque já são duas as
gerações de brasileiros que podem ter esquecido. Porque dependemos da memória
dos ainda vivos.
Entre o poeta, o músico e o estudante, o
denominador comum foi a barbárie.

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