terça-feira, 4 de agosto de 2026

Minas e o Brasil choram, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao chorar, encerrar uma novela enfadonha e dizer, finalmente, que não vai disputar o governo do Estado, o senador Cleitinho produziu uma imagem bastante adequada ao desmantelamento da política em Minas Gerais, que, além de ser uma síntese do Brasil e do eleitorado nacional, passou a ser também o retrato da balbúrdia da disputa presidencial de 2026.

Assim como Cleitinho, campeão de votos, passou a campanha no vai não vai e chorou ao deixar Flávio Bolsonaro na mão, acontece de tudo nesta eleição pelo País afora. O distinto público, massacrado por escândalos de todo lado e pelas versões das redes sociais, não sabe se é para rir, chorar – ou votar.

Alguém já viu candidata ao Senado faltar à própria convenção? Foi o que Michelle Bolsonaro fez. E um candidato que confronta a Justiça Eleitoral com vídeos do pai, que está preso, feitos por IA? É o que Flávio faz. E um presidente arrebentando as contas públicas, à luz do dia, para mais um mandato? É o que Lula faz, e isso nem é novidade.

Não vamos esquecer o presidente dos EUA interferindo na eleição com tarifaços e o da Argentina xingando o presidente brasileiro dentro e fora do Brasil. É o que Trump e Milei fazem, achando que ajudam Flávio. Há controvérsias. Provavelmente, não ajudam Flávio nem a eles próprios.

Se nem o ex-governador Romeu Zema conseguiu fechar uma chapa robusta no seu Estado, não será fácil para Flávio substituir Cleitinho como puxador de votos. Mas Lula teve de se contentar com o ex-ministro Patrus Ananias, um craque fora de forma.

A dois meses das urnas, essa confusão no Estado reflete a disputa presidencial, com Flávio sem vice até agora e amargando a “neutralidade” do Centrão, Zema também sem vice e mudando para São Paulo (para quê?) e Lula engolindo um inquérito da PF atrás do outro contra Lulinha.

Ronaldo Caiado, com campanha azeitada e o discurso da segurança pública, até escapa da confusão, mas patina nas pesquisas e só tem chance de avançar se convencer que pode vencer Lula no segundo turno. E Renan Santos? O do “roubou, matou”? Sem comentários.

Minas é o segundo lugar em três quesitos – economia, população e eleitorado –, com bolsões que se identificam com a indústria paulista e outros que refletem a força do agronegócio no Sul e no Centro-Oeste, reproduzem as desigualdades do Nordeste ou o vanguardismo do Rio de Janeiro. Essa diversidade replica no Estado as divisões ideológicas do País.

Isso pesa para a regra de que “quem ganha em Minas ganha no Brasil”. O último presidente eleito que perdeu no Estado foi Getúlio Vargas, em 1950, por dois pontos porcentuais. Mas Minas não é mais a mesma. É apenas a síntese da descrença, desencanto e incertezas que afligem a política no Brasil. Ou no mundo? •

 

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