terça-feira, 4 de agosto de 2026

Na era da IA, MG opta pela degradação natural, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Nem a inteligência artificial seria capaz de reproduzir o capítulo final da novela da candidatura Cleitinho

A inteligência artificial tem sido a geni desta reta final de campanha, com peças como o avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro na convenção do PL, mas não se pode atribuir aos seus predicados o capítulo final da novela da candidatura ao governo de Minas do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). O vídeo divulgado na tarde desta segunda-feira pelo presidente do Republicanos e deputado federal Marcos Pereira (SP), ao lado do senador e do presidente estadual do partido, Euclydes Pettersen, é fruto da degeneração natural da política brasileira.

Favorito à disputa estadual, o senador, que foi eleito em 2022 nas asas do bolsonarismo, manteve suspense até a semana passada. Faltou à convenção de 25 de julho, mas publicou um vídeo de inteligência artificial em que aparecia com dois parentes já falecidos, o pai e o irmão. Recebia, do primeiro, um incentivo e, do outro, a bandeira de Minas.

Na cronologia dos fatos exposta por Marcos Pereira, o partido esperou uma decisão de Cleitinho até a noite de terça-feira. Como esta decisão não aconteceu, o Republicanos divulgou, em nota, que ele não seria candidato. Na quarta-feira, Cleitinho deu uma entrevista em que, exaltado, diz ter 40% nas pesquisas e reitera a candidatura: “a voz do povo é a voz de Deus”.

O picadeiro ficou armado até o fim de semana quando Marcos Pereira disse que, por pressão da chapa de deputados estaduais e federais, reabriria a discussão com Cleitinho. Desta reunião, realizada em Brasilia nesta segunda, resultou o vídeo imune a imitações. Nele, o presidente do Republicanos, um ex-pastor da Igreja Universal em quem Cleitinho, numa entrevista a O Globo no início de junho, professou sua desconfiança, relatou, ao seu lado, suas idas e vindas na disputa e pediu que o senador, um “homem sentimental”, confirmasse sua desistência.

Cleitinho desatou a chorar, pediu perdão, mas disse que não conseguia cuidar nem de si mesmo, dirá do povo mineiro. Em seguida, Pereira se dirigiu a Pettersen, ex-deputado federal indiciado em inquérito da Polícia Federal por suspeita de ser o “agente mais bem remunerado” do esquema de fraudes em descontos associativos do INSS, disse que era preciso acatar a “vontade de Deus”.

Ao embargar a voz para falar do próprio pai falecido, o dirigente estadual do Republicanos passou o microfone para Pereira que relatou sua origem de filho adotado e, em novo dueto com Cleitinho, concluiu que o senador não estava bem mas contava com suas orações. A pressão da bancada de deputados estaduais e federais desapareceu tão rapidamente quanto surgiu e o líder das pesquisas ficou de fora da disputa.

No meio desse puxa-encolhe, Marcelo Aro (PP), ex-Casa Civil de Romeu Zema, integrante do núcleo mais próximo do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e ex-diretor de ética e transparência da CBF na gestão Marco Polo Del Nero, banido do futebol pela Fifa por corrupção, suborno e propina, entrou em negociação com Republicanos, União e PP para disputar o governo.

O governador Mateus Simões (PSD), candidato à reeleição com apoio de Zema e Gilberto Kassab, definiu Aro, com quem vivia às turras no governo, como “oportunista de plantão” apoiado pelo “presidiário cassado” Eduardo Cunha. Zema completou: “É ave de rapina”. Aro avisou que, oportunamente, se pronunciará e nesta segunda, foi confirmado candidato.

Em convenção fechada nesta terça, o Republicanos deve firmar neutralidade na disputa nacional, negando a legenda para a ex-presidente da Caixa, Daniela Marques, ser a vice de Flávio Bolsonaro. O PL acende duas velas. Uma vai para o Centrão, que pode colocar em pé a candidatura da tríplice aliança Ciro Nogueira, Antonio Rueda e Eduardo Cunha no Estado cujas licenças ambientais, alvo de operações da PF, serão alvo de cobiça a partir da aprovação do marco regulatório de exploração dos minerais de terras raras.

A outra vai para Lula, por levar a disputa ao 2º com um provável palanque reunindo dois ex-prefeitos de BH, Alexandre Kalil (PDT), cuja iconoclastia pode lhe levar a herdar o voto antissistema de Cleitinho, e Patrus Ananias (PT), contra Simões ou Aro, provável palanque de Flávio Bolsonaro.

Um 2º turno, porém, como deixou claro na convenção, é tudo que o presidente não quer, mas a fatura de 1º turno também tem na disputa nacional por Minas, segundo maior colégio do país, com mais de 10% do eleitorado, um de seus principais obstáculos. Primeiro candidato mineiro à Presidência desde que Aécio Neves chegou, competitivo, contra Dilma Rousseff, ao 2º turno de 2014, Zema não repetirá o feito, mas atravanca a vida de Lula.

Na Genial/Quaest da semana passada, enquanto, nacionalmente, Lula aparecia com 13 pontos percentuais acima de Flávio entre as mulheres, registrava, em Minas, empate técnico (26% x 24%) nesta fatia do eleitorado. Quem lhe tira o voto das mineiras é Zema que, segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, é popular entre as eleitoras (14%), principalmente do Norte de Minas, onde fica o Vale do Jequitinhonha, outrora reduto petista.

Se o Estado não falhar no papel de espelho do país, o que se vê são disputas dramáticas em que o Centrão deixou de apostar no histriônico e se vale de um profissional de suas hostes para o Palácio da Liberdade, mas joga para se manter como fiel da balança para quem quer que esteja no Palácio do Planalto.

 

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