Revista Será?
O futuro como construção
Nos dois artigos anteriores apresentamos de
forma breve, como este, duas das concepções de futuro do filósofo francês Edgar
Morin, falecido aos 104 anos no dia 29 de maio de 2026. A primeira, o futuro
inevitável – a morte, cuja recusa alimenta a criação do Homo
Sapiens-Demens. A segunda, o futuro como incerteza, que alimenta a obra
principal do autor em seis volumes (O Método) sobre o pensamento complexo. Este
aborda a concepção do futuro como construção social.
Cedo ainda, nos anos 1960, Morin tem clareza de que a humanidade vive uma crise ímpar, de múltiplas dimensões. Em 1965 (Introduction à une politique de l’homme) ele sinaliza a crise do progresso técnico, que produz evoluções e involuções com a fragmentação do saber, a alienação consumista e o risco de autoaniquilação.
A crise desde então é definida de diversas
maneiras – crise civilizacional, crise planetária, crise do desenvolvimento,
crise da modernidade, entre outras, mas a noção que mais chama a atenção é a de
policrise. Esta é a noção-chave do livro Vers l’abîme ? (2007), em que
Morin examina a trajetória provável do futuro da humanidade. Neste livro, o
autor questiona se a humanidade não está procedendo como uma sonâmbula em
direção a um abismo a partir de duas forças concorrentes: o avanço cego da
tecnociência hiper-racionalizada e a incapacidade política de governar a era
planetária.
Para melhor entender esse risco, é preciso
visitar outro livro, este de 1993, Terre-Patrie (escrito com Anne Brigitte
Kern). Nele, a noção de policrise já ocupa um lugar central: “Muitas dessas
crises podem ser consideradas como um conjunto policrísico em que se entrelaçam
e se sobrepõem crise do desenvolvimento, crise da modernidade, crise de todas
as sociedades…” (Terra-Pátria, p. 94).
Antes de definir a policrise, que não é um
somatório de crises, mas os seus entrelaçamentos, o autor fala da natureza da
crise:
…uma crise se manifesta pelo crescimento e
até a generalização das incertezas, por rupturas de regulações
ou feedbacks negativos (os quais anulam os desvios), por
desenvolvimento de feedbacks positivos (crescimentos descontrolados),
pelo crescimento dos perigos e das oportunidades (perigo de regressão ou de
morte, oportunidades de encontrar solução, salvação)” (ibidem, p. 93).
E, em seguida, define policrise:
…como um conjunto policrísico em que se
entrelaçam e se sobrepõem crise do desenvolvimento, crise da modernidade, crise
de todas as sociedades… movidas por uma dialética do desenvolvimento da
tecnociência e dos desencadeamentos dos delírios humanos” (ibidem, p. 94).
A noção de crise já fora abordada em várias
outras ocasiões inclusive em seu livro de 1984, Sociologie. No
capítulo Pour une théorie de la crise , o autor chama a
atenção para os significados nela contidos, entre os quais: agudização das
perturbações, crescimento da incerteza, bloqueio da reprodução dos sistemas;
mas também, nos alerta o autor, “as situações de crise permitem revelar
processos que normalmente estariam invisíveis” (p. 175): perturbações no
processo de reprodução do sistema, riscos de sua implosão e oportunidades de
inventar o novo.
Morin está certo de que o futuro é
indecifrável, mas não deixa de se perguntar sobre suas trajetórias: “Para onde
vai o desenvolvimento mundial?” (Terra-Pátria, p. 82); “Marchamos para a crise
mundial do desenvolvimento?” (idem, p. 83); a civilização “marcha para sua
autodestruição ou sua metamorfose?” (ibidem, p. 87) ou “Estamos
irremediavelmente comprometidos na corrida ao cataclismo generalizado?”
(ibidem, p. 98). O fundamental é ter presente que : “Quando um sistema é
incapaz de tratar seus problemas vitais, ele se desintegra ou é capaz de, na
sua desintegração, se metamorfosear em um metassistema mais rico, capaz de
resolver seus problemas” (Vers l‘abîme ?, p. 15).
O bom enfrentamento do risco produzido pela
policrise é o caminho para preparar a metamorfose, desenvolvido no livro
seguinte: La voie. Pour l’avenir de l’humanité (2011). O livro
funciona como um manifesto político-civilizatório no qual o autor propõe
caminhos concretos para uma reforma geral da sociedade, da economia, da
educação e da própria vida. A Via é a continuidade, de forma
distinta, de uma reflexão que tem início, conforme supracitado, nos anos 1960 e
foi aprofundada nas décadas seguintes com Le paradigme perdu: la nature
humaine (1973) e, Pour sortir du XXe siècle (1981), nos quais se desenha
uma política de civilização, com os seguintes imperativos:
A solidariedade: reduzir o
individualismo, eliminar a degradação das solidariedades tradicionais e recriar
novos laços sociais para uma vida sã.
A convivialidade: promover a qualidade
de vida, o compartilhamento e as relações de gratuidade, o que significa
reduzir a onipresença da lógica mercantil e assegurar o comedimento e, assim,
reencantar a vida.
A autonomia individual
positiva: permitir que cada um desenvolva suas qualidades, sua liberdade,
sua responsabilidade sem esmagar as estruturas coletivas e os interesses dos
outros.
A integração com a natureza: adotar uma
política conectada à natureza, em interconexão com a Terra-Pátria, articulando
o destino da humanidade à preservação da biosfera.
Na trajetória atual da humanidade “O provável
é a desintegração”, diz Morin (La Voie, p. 31), porém, em consonância com
seu pensamento complexo: “O improvável, mas possível, é a metamorfose” (idem,
p. 31). Dessa forma, a paralisia não é uma opção, pois escolhas, transformadas
em ações, podem permitir um outro rumo civilizatório. Este é o desafio do
livro: traçar proposições que poderão fazer com que a tendência de
desintegração seja anulada e a trajetória do futuro nos leve a um patamar
civilizacional superior. E a primeira delas é a reforma da educação,
compreendida como uma reforma do pensamento abordada em vários livros. Sem
mudar a forma como concebemos as coisas, não teremos condições de dar outro
rumo ao futuro da humanidade. É preciso mais do que multiplicar as escolas, é
preciso mudar sua base conceitual, sua lógica e seus fundamentos filosóficos.
Morin nos convida a superar as noções de
progresso e desenvolvimento, apenas compreensíveis em sua relação inseparável
com a noção de crescimento. Essa ideia fixa de crescimento deve ser substituída
por um complexo de crescimentos diversos, decrescimentos distintos e
estabilidades diferenciadas. Por isso, ele não adota a proposição do
desenvolvimento sustentável nem a do decrescimento em sua plenitude. Ele propõe
articular o crescimento e, simultaneamente, o decrescimento:
A orientação crescimento/decrescimento
significa que é preciso fazer crescer os serviços, as energias limpas, os
transportes públicos, a economia plural… mas fazer ao mesmo tempo decrescer as
intoxicações consumistas, os alimentos ultraprocessados, a produção de objetos
de uso único e não reparáveis, a dominação dos intermediários… o transporte
individual de passageiros, o longo percurso das mercadorias” (La Voie, p.
36).
É preciso crescer decrescendo e decrescer
crescendo, com vistas ao balanço final de descarbonização, equidade e harmonia
com a natureza (idem, p. 36). Nos convida igualmente, o filósofo francês, a
pensar que as metamorfoses são possíveis, pois “a história da humanidade
frequentemente mudou de via” (La Voie, p. 33). E essas mudanças normalmente
surgiram de pequenas iniciativas, “uma inovação, uma nova mensagem de caráter
desviante, normalmente invisíveis aos contemporâneos” (idem, p. 33). Entre
outros exemplos, cita o surgimento do capitalismo que se desenvolveu como um
parasita nas sociedades feudais.
A urgência da ação é peremptória. “Não é mais
suficiente denunciar. É preciso desde já anunciar. Não é suficiente lembrar a
urgência. É preciso saber começar” (La Voie, p. 37). E, nos lembrando Martin
Heidegger, que dizia que a origem está adiante, Morin conclui: “A metamorfose
seria, de fato, uma nova origem” (Idem, p. 37), um novo começo.
O dilema é saber se a humanidade aproveitará
esta chance.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor
associado II da Universidade de Brasília, ex-diretor do Centro de
Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

Nenhum comentário:
Postar um comentário