sábado, 8 de agosto de 2026

Os políticos e as mulheres, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

As mulheres estão mudando, as conservadoras ou não. Estão amadurecendo sua consciência política, a percepção dos direitos e do preço de sua autonomia. Estão compreendendo que têm um capital próprio, e muito valioso. As mulheres estão, por isso, mais obstinadas

O voto das mulheres é o centro da eleição de 2026. É preciso convencer o eleitorado feminino, conquistá-lo. Eu diria mais: pela primeira vez, os candidatos tradicionais precisam se esforçar para dialogar com as mulheres, olhando-as nos olhos. Cada um usará o repertório de que dispõe. Avaliar seus movimentos será uma aula sobre como nossa sociedade divide os papéis de gênero.

Na convenção do PT, Lula se queixou da falta de representatividade no palanque do partido. Flávio Bolsonaro ressaltou que filhas são cuidadoras em potencial, porque esse é seu papel familiar. Romeu Zema disse que homens precisam trabalhar, e que as mulheres têm seus assuntos domésticos. Ciro Gomes criticou as "mulheres agressivas do PT", defensoras, segundo ele, de um "feminismo vazio".

Quando colocamos sobre a mesa as múltiplas declarações, vemos as mulheres oscilando entre dois estereótipos muito claros: o da mulher submissa, boa esposa e filha, obediente ao líder familiar, e o da feminista militante, raivosa e agressiva, destruidora de pontes.

Nenhum dos dois contempla o eleitorado feminino. A mulher conservadora não é uma ovelha obediente que votará em quem lhe mandar: as pesquisas de intenção de voto mostram isso. A mulher de esquerda, feminista convicta, tem feito mais pelo combate à desigualdade social do que o mais ortodoxo dos quadros partidários da esquerda histórica.

O que essas mulheres têm em comum? Por que é possível falar em eleitorado feminino, em comportamento desse eleitorado e em intenções de voto desse estrato? Há algo que nos perpasse como grupo, uma espécie de identidade como sujeitos políticos? Eu diria que sim, e a explicação exige de quem observa a política a capacidade de entender os efeitos fragmentados, muitas vezes contraditórios, de mudanças estruturais de longo prazo.

As mulheres estão mudando, as conservadoras ou não. Estão amadurecendo sua consciência política, a percepção dos direitos e do preço de sua autonomia. Estão compreendendo que têm um capital próprio, e muito valioso.

As mulheres estão, por isso, mais obstinadas, para usar a expressão de Sara Ahmed. Ser obstinada é ter vontade própria, é tornar-se audível, exercer voz, querer estar presente. É desagradar, mesmo que isso renda a alcunha de "agressiva". "Ser obstinada é ter uma vontade que descontenta", escreve a autora.

Tenho a impressão de que nenhum dos nossos políticos nos enxerga assim, como pessoas autônomas, cidadãs plenas. Enquanto não houver diálogo de igual para igual, as mulheres continuarão a ser, nos discursos dos políticos, apenas uma caricatura atemorizante, distante. Pergunto: quando eles começarão a falar efetivamente com as mulheres reais em vez de falar das mulheres imaginárias?

*Doutora em Direito (USP) e professora na Universidade Federal do Ceará

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