sábado, 8 de agosto de 2026

Mulheres que contaram suas histórias como forma de lutar, por Flávia Oliveira

O Globo

Angela Davis comoveu ao situar a própria experiência de vida como elemento que pautou tanto sua produção acadêmica quanto seu ativismo

Certas conversas, encontros, palavras reverberam em nós muito tempo depois de ocorridas, vividos, ouvidas. Foi assim com o diálogo que mantive com Angela Davis, em mesa idealizada pelo Sesc-RJ na edição 2026 da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. À filósofa, professora e ativista apresentei perguntas a partir do pensamento de grandes intelectuais negras e negros do Brasil, entre os quais Conceição Evaristo. A grande escritora nacional cunhou o conceito de escrevivência, a produção literária extraída da experiência, das cicatrizes, das histórias da própria autora e de seu povo.

A ex-Pantera Negra abraçou a ideia para demonstrar que a obra de autores brancos não é necessariamente universal. E que a de autores negros pode ser.

— Toni Morrison provou isso — ela disse.

Mas Angela Davis comoveu ao situar a própria experiência de vida como elemento que pautou tanto sua produção acadêmica quanto seu ativismo. E falou da prisão. Autora de dezenas de livros, professora na Universidade da Califórnia, ela foi presa por três vezes no início dos anos 1970. Classificada como terrorista pelo FBI por integrar os Panteras Negras, enfrentou acusações, posteriormente anuladas, que resultariam em pena de morte. De uma líder do movimento, Ericka Huggins, ouviu que a “prisão pode ser um presente”. Tomou emprestada a frase:

— Quando fui presa pelo FBI, em 1970, não tinha ideia de que estava prestes a embarcar em uma série de experiências formativas. Por mais difícil que fosse enfrentar a pena de morte, a prisão, quando olho para trás, para aquele período, percebo que o resto da minha vida foi moldado pelo que aconteceu.

Das conversas com outras mulheres encarceradas, nasceu a abolicionista penal e a intelectual antiencarceramento em massa. Referência no tema no Brasil e no mundo, Angela é autora de “A democracia da abolição” e “Estarão as prisões obsoletas?”. Está escrevendo o segundo volume de “Abolition: politics, practices, promises”, em que aprofunda a reflexão sobre quanto a própria prisão se relaciona com seu trabalho. Da mobilização fora dos Estados Unidos por sua vida e libertação, brotou a convicção de que, em aliança, a sociedade civil pode muito. Até derrotar os poderosos (supostamente) invencíveis.

Angela Davis, décadas depois, foi uma das vozes globais que se ergueram para, com ativistas de todo o Brasil, mulheres negras à frente, exigir justiça por Marielle Franco, vereadora carioca executada no exercício do mandato, e Anderson Gomes, seu motorista. Desde o crime, em março de 2018, quase oito anos se passaram, até que autores e mandantes fossem condenados.

Lembrei da conversa com Angela Davis ao revisitar a luta de Inês Etienne Romeu, brasileira que viveu para contar, denunciar, cobrar a punição dos criminosos que a torturaram, humilharam e estupraram no centro clandestino de repressão da ditadura militar, em Petrópolis (RJ). Inês foi a única sobrevivente da Casa da Morte, cenário de morte e desaparecimento de 22 pessoas. Fez da vida luta por memória, verdade e justiça.

Nesta semana, 55 anos depois das brutalidades e 11 depois da morte, em abril de 2015, a Justiça Federal condenou em segunda instância o ex-sargento do Exército Antonio Waneir Pinheiro Lima, vulgo Camarão, pelos crimes de sequestro qualificado e dois estupros. A juíza federal Maria Isadora Frazão fixou a pena de 12 anos, 11 meses e 25 dias de reclusão pelos atos contra Inês. Por serem crimes contra a humanidade, não foram passíveis nem de prescrição nem de aplicação da Lei da Anistia.

A estudante ficou presa por 96 dias na Casa da Morte. Em outubro de 1971, ela denunciou as violências numa carta. Escreveu que o documento ajudaria a esclarecer os fatos obscuros “em nome da honra do país” onde nasceu. Em 2014, apontou seus torturadores à Comissão Nacional da Verdade (CNV), o que viabilizou a ação do Ministério Público Federal. Mesmo com meio século de atraso, a condenação inédita do sequestrador, torturador e estuprador pago pelo Estado foi alento, não só para a família de Inês, mas para todas as mulheres vítimas dos Anos de Chumbo da História do Brasil.

— A gente viveu para ver essa decisão justa, histórica, necessária. É a remissão de todas as mulheres que foram estupradas na tortura. Todos os corpos aviltados na tortura estão sendo resgatados na sua dignidade — desabafou Denise Assis, jornalista, escritora e pesquisadora na CNV.

Quem também viveu para ver foi Maria da Penha Maia Fernandes, hoje com 81 anos. Ela não desistiu de buscar justiça por agressões e tentativa de feminicídio pelas mãos do ex-companheiro. Uma luta que começou em 1983 deu na denuncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Em 2001, o órgão condenou o Brasil a elaborar o arcabouço legal de proteção à mulher. Ontem, a Lei Maria da Penha completou 20 anos. É o texto que ensinou às brasileiras o que é violência física, sexual, psicológica, moral e patrimonial; estimula denúncias; viabiliza punições.

Duas mulheres, uma jovem estudante e uma servidora do Judiciário, viverão para contar que, pela coragem que tiveram, um ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Marco Buzzi, perderá o cargo, sinônimo de poder e prestígio. Ele foi condenado à pena máxima por seus pares pelas acusações de assédio e importunação sexual. Apenas em 2025, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 9.031 daquele e 41.425 deste crime. Que a justiça se faça.

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