O Globo
Angela Davis comoveu ao situar a própria
experiência de vida como elemento que pautou tanto sua produção acadêmica
quanto seu ativismo
Certas conversas, encontros, palavras
reverberam em nós muito tempo depois de ocorridas, vividos, ouvidas. Foi assim
com o diálogo que mantive com Angela Davis, em mesa idealizada pelo Sesc-RJ na
edição 2026 da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. À filósofa,
professora e ativista apresentei perguntas a partir do pensamento de grandes
intelectuais negras e negros do Brasil, entre os quais Conceição Evaristo. A
grande escritora nacional cunhou o conceito de escrevivência, a produção
literária extraída da experiência, das cicatrizes, das histórias da própria
autora e de seu povo.
A ex-Pantera Negra abraçou a ideia para
demonstrar que a obra de autores brancos não é necessariamente universal. E que
a de autores negros pode ser.
— Toni Morrison provou isso — ela disse.
Mas Angela Davis comoveu ao situar a própria
experiência de vida como elemento que pautou tanto sua produção acadêmica
quanto seu ativismo. E falou da prisão. Autora de dezenas de livros, professora
na Universidade da Califórnia, ela foi presa por três vezes no início dos anos
1970. Classificada como terrorista pelo FBI por integrar os Panteras Negras,
enfrentou acusações, posteriormente anuladas, que resultariam em pena de morte.
De uma líder do movimento, Ericka Huggins, ouviu que a “prisão pode ser um presente”.
Tomou emprestada a frase:
— Quando fui presa pelo FBI, em 1970, não
tinha ideia de que estava prestes a embarcar em uma série de experiências
formativas. Por mais difícil que fosse enfrentar a pena de morte, a prisão,
quando olho para trás, para aquele período, percebo que o resto da minha vida
foi moldado pelo que aconteceu.
Das conversas com outras mulheres
encarceradas, nasceu a abolicionista penal e a intelectual antiencarceramento
em massa. Referência no tema no Brasil e no mundo, Angela é autora de “A
democracia da abolição” e “Estarão as prisões obsoletas?”. Está escrevendo o
segundo volume de “Abolition: politics, practices, promises”, em que aprofunda
a reflexão sobre quanto a própria prisão se relaciona com seu trabalho. Da mobilização
fora dos Estados Unidos por sua vida e libertação, brotou a convicção de que,
em aliança, a sociedade civil pode muito. Até derrotar os poderosos
(supostamente) invencíveis.
Angela Davis, décadas depois, foi uma das
vozes globais que se ergueram para, com ativistas de todo o Brasil, mulheres
negras à frente, exigir justiça por Marielle Franco, vereadora carioca
executada no exercício do mandato, e Anderson Gomes, seu motorista. Desde o
crime, em março de 2018, quase oito anos se passaram, até que autores e
mandantes fossem condenados.
Lembrei da conversa com Angela Davis ao
revisitar a luta de Inês Etienne Romeu, brasileira que viveu para contar,
denunciar, cobrar a punição dos criminosos que a torturaram, humilharam e
estupraram no centro clandestino de repressão da ditadura militar, em
Petrópolis (RJ). Inês foi a única sobrevivente da Casa da Morte, cenário de
morte e desaparecimento de 22 pessoas. Fez da vida luta por memória, verdade e
justiça.
Nesta semana, 55 anos depois das brutalidades
e 11 depois da morte, em abril de 2015, a Justiça Federal condenou em segunda
instância o ex-sargento do Exército Antonio Waneir Pinheiro Lima, vulgo Camarão,
pelos crimes de sequestro qualificado e dois estupros. A juíza federal Maria
Isadora Frazão fixou a pena de 12 anos, 11 meses e 25 dias de reclusão pelos
atos contra Inês. Por serem crimes contra a humanidade, não foram passíveis nem
de prescrição nem de aplicação da Lei da Anistia.
A estudante ficou presa por 96 dias na Casa
da Morte. Em outubro de 1971, ela denunciou as violências numa carta. Escreveu
que o documento ajudaria a esclarecer os fatos obscuros “em nome da honra do
país” onde nasceu. Em 2014, apontou seus torturadores à Comissão Nacional da
Verdade (CNV), o que viabilizou a ação do Ministério Público Federal. Mesmo com
meio século de atraso, a condenação inédita do sequestrador, torturador e
estuprador pago pelo Estado foi alento, não só para a família de Inês, mas para
todas as mulheres vítimas dos Anos de Chumbo da História do Brasil.
— A gente viveu para ver essa decisão justa,
histórica, necessária. É a remissão de todas as mulheres que foram estupradas
na tortura. Todos os corpos aviltados na tortura estão sendo resgatados na sua
dignidade — desabafou Denise Assis, jornalista, escritora e pesquisadora na
CNV.
Quem também viveu para ver foi Maria da Penha
Maia Fernandes, hoje com 81 anos. Ela não desistiu de buscar justiça por
agressões e tentativa de feminicídio pelas mãos do ex-companheiro. Uma luta que
começou em 1983 deu na denuncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Em 2001, o órgão condenou o Brasil a elaborar o arcabouço legal de proteção à
mulher. Ontem, a Lei Maria da Penha completou 20 anos. É o texto que ensinou às
brasileiras o que é violência física, sexual, psicológica, moral e patrimonial;
estimula denúncias; viabiliza punições.
Duas mulheres, uma jovem estudante e uma servidora do Judiciário, viverão para contar que, pela coragem que tiveram, um ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Marco Buzzi, perderá o cargo, sinônimo de poder e prestígio. Ele foi condenado à pena máxima por seus pares pelas acusações de assédio e importunação sexual. Apenas em 2025, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 9.031 daquele e 41.425 deste crime. Que a justiça se faça.

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