Revista Veja
Operador da extrema direita preso na Bolívia foi acusado de conspirar no golpe de Bolsonaro
Três tiros a menos de dois metros de
distância. Disfarçados com capacetes e parecendo entregadores de comida,
atirador e cúmplice logo desapareceram. Um vídeo mostra a mulher jovem, em saia
branca e blusa bege, cambaleando na entrada do hotel plantado à beira da
reserva florestal de Santa Cruz de La Sierra, principal cidade boliviana. Não
havia sangue visível, mas, diz a polícia, balas calibre 9 milímetros foram
extraídas do pescoço, tórax e braço direito da vítima.
Nadia Beller é uma ativista do Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governou a Bolívia por duas décadas até o ano passado. Ela ainda estava no hospital quando seu namorado foi preso no aeroporto, em aparente fuga. O argentino Fernando Cerimedo, 45 anos, foi acusado de contratar a dupla de pistoleiros para matá-la. Seria mais um caso na epidemia de violência contra mulheres, não fossem os vínculos políticos do protagonista dessa história de crime sob encomenda.
Cerimedo é um dos personagens das sombras da
política latino-americana, reconhecido prestador de serviços para grupos de
extrema direita no Brasil, Argentina, Chile, Bolívia e Honduras, entre outros
países. Ganha dinheiro na montagem e operação de tramas de desinformação em
massa nas temporadas eleitorais. São enredos com difusão integrada a
plataformas de empresas nos Estados Unidos e na Europa que prometem “amplificar
narrativas” manipulando os “ecossistemas de influencers” nas redes sociais. Ele
também atua na conexão com o movimento de apoio a Donald Trump conhecido como
MAGA (sigla em inglês para o slogan “Make America Great Again”, que significa
tornar a América grande novamente).
Cerimedo é procurado pela polícia brasileira
por ter participado na frustrada tentativa de golpe de Estado liderada por Jair
Bolsonaro na primavera de 2022. Na sexta-feira 4 de novembro, dias depois de
confirmada a derrota do candidato à reeleição na Presidência, ele realizou uma
transmissão ao vivo em redes sociais para exibir um “estudo” sobre como “o Brasil
foi roubado”.
“Operador da extrema direita preso na Bolívia
foi acusado de conspirar no golpe de Bolsonaro”
Apoiado numa rede de audiência turbinada a
partir do exterior, com registros de até 415 000 “espectadores”
simultâneos, devaneou sobre a manipulação de modelos antigos de
urnas eletrônicas para desidratar Bolsonaro de votos em benefício do
adversário Lula:
“As pessoas que votaram com uma máquina (de
fabricação) anterior a 2020 tiveram, em alguns casos, entre 5 e 80
vezes mais probabilidade de votar em Lula do que em Bolsonaro, uma diferença
estatisticamente impossível de justificar”.
Ecoava Jair Bolsonaro, que, dois anos antes,
iniciara uma campanha de descrédito do sistema eleitoral, sem mostrar uma única
prova de fraude no voto eletrônico do qual foi beneficiário — sem uma só queixa
— durante um quarto de século de eleições.
Cerimedo se integrou ao grupo de
conspiradores na temporada eleitoral de 2022 por iniciativa do então
deputado Eduardo
Bolsonaro. Sua apresentação ao vivo sobre o “roubo” nas eleições foi
elaborada por pessoas vinculadas a um certo Instituto Voto Legal — “nosso
pessoal”, na definição do coronel Mauro Cid, ajudante de ordens da Presidência
da República. O conteúdo passou pelo crivo do candidato a vice-presidente
Walter Braga Netto e do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.
Dez dias depois, Bolsonaro chamou o chefe da
Aeronáutica, Carlos Baptista. Bolsonaro entregou ao brigadeiro Baptista uma
cópia do relatório com a “auditoria” do Instituto Voto Legal, divulgada por
Cerimedo e financiada pelo caixa do Partido Liberal. O chefe da FAB contou em
depoimento ter folheado o papelório, criticado erros de redação e, sobretudo, o
ardil usado no texto para enganar o leitor na conclusão sobre fraude.
“Sofisma”, nas suas palavras.
Bolsonaro disse ao presidente do PL, Valdemar
Costa Neto, para seguir com o enredo. E, assim, o Partido Liberal reivindicou à
Justiça uma recontagem de votos estritamente limitada ao segundo turno da
disputa presidencial. O recurso foi rejeitado e o PL acabou multado em 22,9
milhões de reais por “litigância de má fé” — o partido usou dinheiro público
para sustentar a tese de fraude na votação, foi multado e pagou com dinheiro
público. Bolsonaro acabou condenado à cadeia pelos próximos 27 anos.
As suspeitas sobre o sistema de votação
continuam sendo difundidas. O porta-voz agora é o candidato Flávio
Bolsonaro, do Partido Liberal. Mas, desta vez, o argentino Cerimedo
não vai poder ajudar. O homem das sombras está num presídio boliviano.
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009

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