Folha de S. Paulo
Ministro quer impor responsabilidade jurídica
aos parlamentares no uso do Orçamento da União
Eleição atual pode ser a última chance do
manejo desses recursos como financiamento de campanhas
O ponto mais recente que Flávio Dino acrescentou
à escrita dele sobre a manipulação no uso das emendas parlamentares não mereceu
destaque no noticiário voltado às campanhas eleitorais. Conviria, porém,
prestar atenção aos movimentos do ministro.
Dino sinaliza introduzir na cena o conceito de responsabilidade jurídica de deputados e senadores no manejo daqueles recursos, hoje na ordem dos R$ 60 bilhões, em ação em curso no Supremo Tribunal Federal que os equipara a ordenadores de despesas do Orçamento da União.
Diz que o manejo das emendas ultrapassa as fronteiras da política e
se inscreve nos atos inerentes ao Poder Executivo, submetidos aos ditames
constitucionais. É quase como se dissesse que os legisladores precisam ter,
nesse nosso presidencialismo arrevesado, obrigações semelhantes às do
parlamentarismo.
O ministro pede que a Câmara se manifeste a
respeito. Não foi um ato isolado. Faz parte de um todo construído por ele desde
agosto de 2024, quando um encontro de representantes dos três Poderes
estabeleceu um acordo, não cumprido, pela transparência total no uso das
emendas.
De lá para cá, o Congresso recorreu a
diversas manobras às quais Flávio Dino reagiu com a abertura de sucessivas
frentes: contesta os critérios de rastreabilidade, questiona a
constitucionalidade das emendas impositivas e a legalidade daquelas sem
controle, as chamadas Pix.
O ministro não conseguiu interditar a farra
para esta eleição. Parlamentares ainda podem contar com essa espécie de
financiamento público paralelo, que distorce o princípio da igualdade de
condições e assegura vantagem aos atuais detentores de mandatos.
Talvez seja a última oportunidade da vigência
dessa distorção. Quando a obra do ministro Flávio Dino for concluída, o cerco
se fechar, as dezenas de ações em curso do Supremo se completarem e o efeito de
materializar em condenações, aí sim, será possível pensar na retomada do
equilíbrio, algo harmonioso e independente entre os entes da República.

Nenhum comentário:
Postar um comentário