Correio Braziliense
Quando as decisões sobre as prioridades do
orçamento passam a dar mais peso às expectativas de quem empresta dinheiro ao
governo do que as necessidades de quem depende da aposentadoria, da saúde e dos
outros serviços públicos, a democracia perde seu equilíbrio
Toda vez que o tema volta à mesa, a receita
já vem pronta. Desindexar o salário mínimo do crescimento do PIB. Afrouxar os
pisos constitucionais de saúde e educação. A justificativa é sempre a mesma:
não há alternativa, o país precisa escolher entre o ajuste e o abismo. Há, de
fato, um problema real. As despesas obrigatórias crescem mais rápido que a
receita, e a trajetória da dívida pública preocupa quem acompanha o tema com
seriedade.
O que incomoda não é o diagnóstico. É a certeza com que se encerra o debate antes mesmo de ele começar, como se existisse apenas um caminho possível e ele passasse, inevitavelmente, pelo bolso de quem tem menos margem para reclamar. Setenta por cento dos benefícios do INSS seguem o salário mínimo. O SUS depende de seu piso constitucional para manter o atendimento onde ele é mais necessário. Quando a sustentabilidade fiscal escolhe justamente esses dois alvos como prioridade, cabe perguntar: por que o ajuste começa sempre por quem mais depende do Estado? E, afinal, quem deve pagar essa conta?
Porque existe outra estrutura no orçamento
brasileiro e ela raramente é submetida ao mesmo rigor crítico. Em 2026, o
Congresso reservou R$ 61 bilhões para emendas parlamentares, a maior parte de
execução obrigatória. É mais do que o país investe no PAC. As renúncias fiscais
concedidas a empresas e setores ultrapassam a meio trilhão de reais por ano,
mais de um quinto da arrecadação federal, crescendo continuamente há duas
décadas e concentradas, em sua maior parte, nas regiões mais ricas. O próprio
ministro da Fazenda classificou esse conjunto como uma caixa-preta do
orçamento.
A economia política chama esse fenômeno de
institucionalismo discursivo: certas ideias se tornam dominantes não
necessariamente porque venceram o debate, mas porque seus defensores ocupam
espaços privilegiados de influência. Não se trata de questionar a boa-fé de ninguém.
Trata-se de reconhecer que muitos dos economistas mais influentes trabalham em
bancos e gestoras de patrimônio, setores diretamente afetados pela remuneração
da dívida pública. Isso não invalida seus diagnósticos, mas ajuda a entender
por que, entre várias soluções possíveis, sempre a mesma chega primeiro às
manchetes.
Wolfgang Streeck descreveu esse deslocamento
ao distinguir o povo que vota do povo que financia o Estado. Quando as decisões
sobre as prioridades do orçamento passam a dar mais peso às expectativas de
quem empresta dinheiro ao governo do que as necessidades de quem depende da
aposentadoria, da saúde e dos outros serviços públicos, a democracia perde seu
equilíbrio. O interesse financeiro passa a influenciar mais do que o interesse
da maioria da população, dos que mais precisam do Estado. No Brasil, Leda
Paulani já alertava, há quase duas décadas, que a política econômica
frequentemente prioriza manter a confiança de quem financia a dívida pública,
mesmo quando isso limita o crescimento da economia e o bem-estar da população.
Reconhecer esse quadro não significa negar a
necessidade de ajuste. Significa que ele deve ser feito sem impor o maior
sacrifício justamente a quem depende do Estado para viver com dignidade. Não se
trata de privilégio, mas de justiça social. Existem alternativas que raramente
recebem igual atenção: revisar benefícios tributários com prazo efetivo de
validade; tributar dividendos, hoje isentos; reformar o sistema de emendas
parlamentares impositivas; e, caso a desindexação avance, fazê-la de forma
gradual, distinguindo benefícios previdenciários das políticas assistenciais,
como o Benefício de Prestação Continuada - BPC.
Há ainda um efeito pouco lembrado. Desde
2006, a valorização do salário mínimo tornou-se um dos principais motores do
consumo das famílias de menor renda, sobretudo nas pequenas e médias cidades.
Esse dinheiro movimenta o comércio local, sustenta prestadores de serviço e
alimenta a economia de milhares de pequenos empreendedores. Reduzir esse
mecanismo em troca de um benefício futuro e incerto significa impor uma perda
imediata justamente a quem dispõe de menos proteção. É também retirar recursos
da economia real. A renda das famílias mais pobres retorna rapidamente ao
consumo, movimentando o comércio, os serviços e os pequenos negócios das
comunidades. Já a renda dos mais ricos tende, em maior proporção, a permanecer
aplicada no sistema financeiro.
O Brasil não carece de conhecimento técnico
para enfrentar seu desafio fiscal. O que falta é abrir espaço para que
diferentes caminhos sejam discutidos com o mesmo respeito concedido à solução
de sempre. A pergunta central já não é se o ajuste é necessário. É como ele
será feito e sobre quem recairá seu custo. Enquanto essa discussão permanecer
restrita a um único roteiro, o ajuste continuará recaindo sobre quem sempre
paga a conta e poupando quem quase nunca participa dela. Afinal, a pergunta que
o Brasil ainda não fez é a mais importante de todas: quem deve pagar a conta do
ajuste?
*Giovanni Bevilaqua — doutor em economia

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