quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Suspeitas justificam investigar filho e ex-assessor de Lula

Por O Globo

Acusações contra Lulinha e ex-chefe de gabinete de presidente não podem ser atribuídas a motivação eleitoral

É preciso esclarecer a fundo as suspeitas de tráfico de influência e corrupção que rondam o Palácio do Planalto. Elas envolvem personagens como o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que deixou o governo para atuar na coordenação da campanha à reeleição de Lula, depois se viu constrangido a deixar a própria campanha diante das denúncias.

Lulinha é alvo de três inquéritos, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal para apurar se ele favoreceu empresários interessados em negócios com órgãos públicos e se atuou em benefício próprio. Marco Aurélio é investigado por ter recebido dinheiro de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e parceira de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como chefe do esquema bilionário de fraudes que lesou aposentados. Embora os acusados neguem as acusações e apontem motivação política nas denúncias, são suspeitas graves demais para ser desprezadas.

Por mais que Lula queira se distanciar dos escândalos, as novas revelações o constrangem às vésperas da campanha eleitoral. Por envolverem figuras extremamente próximas a ele, demandam explicações rápidas e convincentes. As acusações contra Marco Aurélio agravam a crise instalada pelas investigações contra Lulinha, alvo de dois inquéritos autorizados pelo ministro André Mendonça e de um terceiro avalizado pelo ministro Flávio Dino. Marco Aurélio confirmou ter recebido o dinheiro de Roberta, como revelou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO. Alega ter sido um empréstimo pessoal e afirma ter devolvido R$ 249 mil a ela por meio de transferência bancária. As transações de Roberta estão no radar de várias investigações da Polícia Federal (PF) decorrentes das fraudes no INSS.

As investigações tentam esclarecer se Lulinha se aproveitava da proximidade com o poder para abrir as portas do Ministério da Saúde, da Dataprev e de outros órgãos públicos a empresários e lobistas como Antunes, preso pelas fraudes no INSS. Ele é apontado como interessado em firmar contratos com o governo para fornecer Cannabis medicinal ao SUS. De acordo com a PF, pagou viagem de Lulinha a Portugal para visitar uma fábrica de medicamentos. Roberta reconheceu ter apresentado Lulinha a Antunes e foi diversas vezes ao Palácio do Planalto, por vezes para encontros que não ficaram registrados em nenhuma agenda.

Lula tem repetido que não protegerá o filho e que as investigações demonstram a autonomia da PF. Mas é indisfarçável o mal-estar no entorno do presidente. É natural que aliados acusem objetivos políticos nas investigações. Mas os petistas fazem o mesmo quando escândalos abalam seus oponentes. Apurações da PF e decisões da Justiça não podem ficar condicionadas ao calendário eleitoral, especialmente quando tratam de suspeitas graves de tráfico de influência e corrupção dentro do governo. É preciso investigar. Se ficar comprovado algum crime, os responsáveis terão de responder de acordo com a letra da lei, independentemente de sobrenome ou relação política.

Escalada diplomática entre Brasil e Estados Unidos é preocupante

Por O Globo

Trump tenta mais uma vez favorecer seus aliados ideológicos — e Lula não se esforça para baixar temperatura

O cancelamento do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, é o episódio mais recente na preocupante escalada diplomática entre Brasil e Estados Unidos. A justificativa alegada pela Casa Branca foi a demora do Itamaraty em aprovar o político republicano Daniel Perez, da Flórida, para o cargo de embaixador em Brasília, vago desde o início do atual governo Donald Trump. O nome de Perez foi submetido ao Senado americano sem que, como é praxe, o governo brasileiro tivesse dado seu aval — ou, no jargão diplomático, concedido agrément. É verdade que o Brasil poderia ter sido mais ágil para cumprir a formalidade, mas isso não justifica a reação americana. O próprio Departamento de Estado por vezes leva mais de dois meses para dar sinal positivo a um embaixador.

Desde o tarifaço de julho do ano passado, Trump não tem se furtado a usar armas diplomáticas para tentar influir na política interna brasileira e favorecer seus aliados ideológicos. Na ocasião, o pretexto para impor ao Brasil as maiores tarifas do planeta foi o processo em curso contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Menos de um mês depois, o governo americano decretou sanções duríssimas contra autoridades brasileiras com base na Lei Magnitsky e impôs restrições à comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da ONU.

Em seguida, depois de encontro na ONU, Trump e Lula ensaiaram um entendimento. A Casa Branca passou a ver no Brasil uma resposta para a dependência americana de terras-raras chinesas. As negociações, porém, não tiveram o fim esperado, porque o governo brasileiro se negou a dar o tratamento preferencial almejado pelos americanos. A relação com Lula azedou — e Trump voltou à carga. Recebeu o senador Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo no Salão Oval, o governo americano classificou como terroristas as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), e há poucas semanas baixou um segundo tarifaço sob pretextos descabidos. Até agora, não houve acordo nem recuo.

Ciente do benefício eleitoral do confronto com Trump, Lula não tem feito esforços para baixar a temperatura. Em março, cancelou o visto de Darren Beattie, conselheiro do Departamento de Estado para políticas relacionadas ao Brasil que planejava visitar Bolsonaro. Em julho, negou vistos a uma delegação americana que tinha intenção de visitar o Brasil, sob o argumento de que o objetivo era contestar a integridade do sistema eleitoral.

Sob Donald Trump, os Estados Unidos deixaram de lado os ritos da diplomacia e passaram a agir apenas com base em preferências ideológicas. O confronto não faz bem a ninguém. Não é do interesse nacional a escalada da crise entre os dois países. Brasil e Estados Unidos são democracias vibrantes, com laços históricos sólidos e enorme potencial para estreitar relações. Passada a eleição, o vencedor, seja quem for, terá de buscar a acomodação.

Interesse do Brasil sai derrotado na tensão diplomática

Por Folha de S. Paulo

Lula ganha pontos quando Trump e Milei o atacam e é incentivado a manter-se no jogo das provocações

Não faz sentido o Itamaraty negar visto a assessores do Departamento de Estado; se eles atacassem as urnas, bastaria refutá-los com fatos

Diz-se que na guerra a primeira vítima é a verdade. Na tensão diplomática com os governos dos Estados Unidos e da Argentina, sai perdendo o interesse do Brasil.

A agenda eleitoral incentiva o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a desafiar a Casa Branca e a Casa Rosada, pois ele tende a ser favorecido na disputa pelo quarto mandato ao explorar o tema da "soberania nacional" diante do assédio de aliados estrangeiros de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL).

A estultice e a péssima assessoria de Donald Trump o empurram na direção ansiada pelo mandatário brasileiro. A novidade é que um esbirro do trumpismo na América do Sul, Javier Milei, juntou-se à fanfarronice. Lula, que já tinha o cabo eleitoral mais poderoso do planeta atuando a seu favor, ganhou de bônus um ventríloquo apatetado argentino.

EUA e Argentina ocupam, respectivamente, o segundo e o terceiro lugares nas relações comerciais do Brasil. A soma de transações de compra e venda com esses dois países representa quase 20% da corrente de comércio. O intercâmbio com EUA e Argentina soma cerca de US$ 110 bilhões anuais, uma cadeia de valor e empregos importante demais para ser tratada com leviandade.

O interesse público brasileiro é preservar a relação comercial e diplomática secular e pacífica com as duas nações, para a qual Trump e Milei representam ruído episódico. O primeiro, a pouco mais de dois anos da porta da rua, não pode ser reeleito e não deixará herdeiros nem saudades na sociedade dos EUA, assolada pela inflação e pela insegurança causadas por suas histrionices de ditador de república de bananas.

Diante desse quadro, não faz sentido a atitude ginasiana do Itamaraty de negar visto a dois assessores do Departamento de Estado que viriam ao Brasil no fim de julho supostamente numa missão para detratar as urnas eletrônicas brasileiras. Qual seria o problema se os dois gringos baixassem aqui e repetissem as parvoíces do bolsonarismo sobre o sistema de votação? Seriam imediatamente rebatidos com fatos e ponto final.

Como disse o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, a urna eletrônica é um patrimônio da democracia brasileira, e o melhor modo de defendê-lo é expor à luz do sol todas as suas características técnicas e responder com transparência às indagações que surjam. Calar emissários das teorias da conspiração só fará disseminar a farsa de que o TSE tem algo a esconder sobre o tema.

A negativa aos enviados de Trump, porém, encaixa-se muito bem na lógica eleitoral do candidato petista à reeleição. Ela provocou o departamento comandado por Marco Rubio, o boçal que posa de vice-rei da América Latina, a reagir duas oitavas acima e cancelar o visto da embaixadora brasileira em Washington.

Ganha o candidato Lula, mas perde a Presidência da República do Brasil.

Greve sem boa causa chega ao fim

Por Folha de S. Paulo

Reivindicações descabidas na paralisação que atingiu três linhas da CPTM incluíram até reestatização

Privatizações e concessões são necessárias, num país cheio de carências e com governos sob pressão orçamentária que dificulta investimentos

Nesta quarta (5), os ferroviários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) encerraram a greve nas linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade, que passaram a ser administradas pela empresa Trivia Trens no final de julho.

Por interferir em outros direitos, como o de ir e vir, a prerrogativa à greve deveria ser bem justificada. Mas as reivindicações da categoria refletem corporativismo e tentativa de interferir em competências do Executivo.

A principal exigência era a manutenção dos empregos de todos os trabalhadores, mesmo com a concessão à iniciativa privada.

Os funcionários da CPTM são empregados públicos, mas com contratos regidos pela CLT. Assim, não possuem a estabilidade dos estatutários —que, a propósito, é exagerada no Brasil.

Ademais, empresas privadas têm liberdade para seguir necessidades administrativas, o que pode envolver corte de gastos ou remanejamento de profissionais.

Mesmo assim, o contrato de concessão prevê a utilização de empregados da CPTM nas linhas durante pelo menos os primeiros 18 meses da transição.

Os trabalhadores também podem ser absorvidos em outros órgãos e áreas da CPTM.

Segundo o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), há uma realocação de profissionais em curso e a gestão estadual já havia garantido a manutenção dos empregos durante negociações com a categoria.

Ao encerrar a greve, o sindicato acatou a proposta do governo paulista —apresentada em reunião de conciliação mediada pela Justiça do Trabalho— de enviar à Assembleia Legislativa um projeto de lei que prevê a permanência dos postos dos trabalhadores nas três vias paralisadas e na linha 10-turquesa.

No início da paralisação, o sindicato não cumpriu a liminar do Tribunal Regional do Trabalho que determinou que os grevistas mantivessem 80% do efetivo nos horários de pico e 60% nos demais períodos. A Justiça aceitou cancelar multas de R$ 400 mil aplicadas pelos dois dias de greve caso a proposta fosse aprovada.

Os ferroviários também chegaram a reivindicar reestatização.

Mas privatizações e concessões, assim como parcerias público-privadas, são medidas do Executivo necessárias, num país cheio de carências e com governos sob pressão orçamentária que dificulta investimento.

Se há questões em relação aos contratos ou à fiscalização, elas devem ser tratadas por meio dos órgãos competentes, não como artifício que perturba o transporte público paulistano.

Antidiplomacia de Trump requer pragmatismo

Por O Estado de S. Paulo

Ação contra embaixadora do Brasil despreza manuais diplomáticos, razão pela qual cabe ao Itamaraty atuar com inteligência – sem se contaminar pela campanha eleitoral de Lula

A antidiplomacia do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação ao Brasil atingiu um dos seus pontos mais baixos com a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Foi uma gravíssima afronta, resultado da alegada demora do Brasil em conceder o consentimento (agrément) para a nomeação do novo embaixador dos EUA no País, Daniel Perez. Ressalte-se que, a despeito dessa demora, foram os EUA que, em primeiro lugar, haviam atropelado os ritos ao anunciar o nome de Perez sem antes consultar formalmente o Brasil. Nenhuma surpresa: há muito tempo se sabe que o governo americano, sob Trump, rasgou os manuais de relações internacionais. Por isso mesmo, cabe ao Itamaraty atuar pragmaticamente conforme essa realidade – e não segundo os interesses eleitorais e as taras ideológicas do governo de Lula.

O caso do agrément não explica, sozinho, tamanha escalada. Perez pertence ao círculo político do chefe do Departamento de Estado americano, Marco Rubio, que vem tratando o Brasil por uma lente ideológica, próxima do bolsonarismo e coerente com a tentativa de reafirmar a primazia americana no hemisfério. A eleição brasileira integra esse ambiente. Seria simplista, porém, imaginar uma política americana inteiramente coordenada. O Tesouro, o Representante de Comércio, o Pentágono e a Casa Branca obedecem a lógicas distintas. A atual ofensiva nasce sobretudo do braço mais politizado do governo Trump.

O Brasil tinha razões legítimas para resistir. Ter razão, contudo, não produz uma estratégia. Brasília deixou vazar que manteria o agrément de Perez congelado até depois das eleições, transformando um procedimento reservado em gesto político. A retaliação era previsível.

A ofensiva de Trump oferece a Lula uma vantagem eleitoral evidente. Permite associar a família Bolsonaro às punições externas e reorganizar o debate eleitoral sob a narrativa de um Brasil sitiado pela direita continental. Esse dividendo ajuda a explicar por que o governo tem pouco incentivo para desarmar rapidamente o impasse.

Lula, porém, continua sendo presidente da República. A diplomacia não pertence à campanha eleitoral. A resposta ao gesto americano, no entanto, saiu da Secretaria de Comunicação da Presidência, e não do Itamaraty, um detalhe que revela a inversão em curso: a diplomacia profissional se subordina à narrativa política e ideológica do Planalto. Sob governos petistas, essa tendência é conhecida. Diante da antidiplomacia trumpista, seus custos são maiores.

A função da política externa é administrar relações difíceis. Países não precisam confiar uns nos outros para manter canais; precisam deles justamente quando a confiança desaparece. O Brasil deveria retirar o agrément do calendário eleitoral, reabrir conversas reservadas com o Departamento de Estado dos EUA e devolver ao Itamaraty a condução do impasse. Isso não exige aceitar Daniel Perez sob ultimato. Exige negociar condições e construir uma saída capaz de preservar a soberania brasileira sem transformar o congelamento da relação em símbolo de “resistência”.

Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington, resumiu o déficit atual: “O que está faltando hoje são canais de comunicação, apesar das diferenças ideológicas”. A observação vale também para os americanos. Trump e Rubio converteram instrumentos diplomáticos em armas políticas, e Lula, em ativos eleitorais. Mas ao Brasil cabe evitar que a resposta copie o método que condena.

A crise provavelmente arrefecerá depois das eleições de outubro. Mesmo que Lula seja reeleito, ele e Donald Trump já alternaram hostilidade e cordialidade, e os interesses comerciais, militares, científicos e estratégicos entre os dois países são maiores que seus governos. Ainda assim, relações duradouras também acumulam cicatrizes. Confiança perdida e oportunidades deslocadas a outros parceiros não retornam por decreto. Campanhas eleitorais duram meses. A responsabilidade de um chefe de Estado deve alcançar as décadas seguintes.

Energia barata e conta cara

Por O Estado de S. Paulo

Estudo do CLP mostra que a conta de luz dos brasileiros poderia ficar até 32% mais barata se o País promovesse uma reforma estrutural do setor elétrico, limando subsídios e jabutis

A conta de luz dos brasileiros poderia ficar até 32% mais barata se o País promovesse uma reforma estrutural do setor elétrico. A estimativa do Centro de Liderança Pública (CLP), que calculou o peso de itens que não apenas encarecem as tarifas do consumidor, mas, sobretudo, reduzem a atratividade dos investimentos e a produtividade da economia, como os subsídios e os jabutis – emendas estranhas que deputados e senadores penduram em projetos de lei e medidas provisórias.

O tema é bastante atual, haja vista que a Comissão de Serviços de Infraestrutura aprovou, há menos de um mês, uma proposta que resgatou jabutis que já haviam sido rejeitados em ocasiões anteriores para construção de termoelétricas em locais onde não há reservas de gás, gasodutos ou necessidade de consumo. A medida, por óbvio, visa a favorecer grupos de interesse, e, se avançar, terá seu custo repassado pelos parlamentares a todos os consumidores do País, uma legítima cortesia com o chapéu alheio que simplesmente ignora critérios de eficiência econômica e competição.

Antes fosse um caso raro. Basta acompanhar as propostas em tramitação na Câmara e no Senado para perceber que essa prática perniciosa – emendas que surgem de última hora em meio a votações-relâmpago, sem que seus impactos sejam considerados – se tornou padrão nos últimos anos. Repassar os custos dessas medidas à conta de luz virou a alternativa para driblar as restrições do Orçamento, cujos recursos estão sujeitos a bloqueios e, bem ou mal, são mais transparentes e rastreáveis que os da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), fundo setorial que repassa o dinheiro arrecadado por meio das tarifas aos beneficiários – somente neste ano estão previstos R$ 52,7 bilhões.

“Em outras palavras: a lei virou veículo para empilhar decisões de planejamento que, em tese, deveriam ser tomadas pela combinação de Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Ministério de Minas e Energia (MME), Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e leilões competitivos”, diz o estudo do CLP, que também cita, como exemplo dessas iniciativas que atropelam os órgãos do setor elétrico, a lei que permitiu a privatização da Eletrobras e a que criou o marco das eólicas em alto-mar (offshore).

O governo Lula, por sua vez, não fica atrás do Congresso. O leilão de reserva de capacidade realizado em março talvez tenha atingido o estado da arte desse tipo de conduta, mas há muitos outros exemplos a comprovar o uso deliberado da conta de luz como um instrumento de política pública para fins questionáveis, quando não indefensáveis. O consumidor não deve ter dúvidas: não há um único subsídio ou um desconto tarifário que não encareça as contas de luz dos demais.

O resultado é uma legislação e uma regulação completamente disfuncionais, que, juntamente com problemas como logística cara, tributação complexa e baixa produtividade, explicam como o País conseguiu a façanha de ter uma geração de energia relativamente barata e uma conta de luz tão cara. No ranking de 138 países elencados pelo CLP, há 77 com tarifas residenciais mais baixas que a brasileira, entre eles economias em desenvolvimento como México e Índia, e nações como a Coreia do Sul. “O efeito não se limita à conta doméstica: a tarifa torna-se uma variável de política industrial às avessas”, diz o estudo.

Para o Ministério de Minas e Energia, a reforma tributária sobre o consumo e o teto para o crescimento das despesas dos subsídios, aprovado por lei e válido a partir de 2027, ajudarão a atenuar as contas de luz. Ora, um alívio não basta: o País precisa de uma reforma estrutural que reveja todos esses privilégios.

O Brasil, diferentemente da maioria dos países, tem uma matriz energética majoritariamente limpa, uma vantagem competitiva que deveria aproveitar para conquistar investimentos e mercados e promover sua reindustrialização, e não para sustentar grupos de interesse cujo único atributo é manter uma relação de lucrativa proximidade com integrantes do Congresso e membros do Executivo.

Uma greve irresponsável

Por O Estado de S. Paulo

Paralisação oportunista mostra que trens devem seguir seu caminho: o da privatização

Os ferroviários de São Paulo acabaram de deflagrar uma greve eminentemente política. A principal reivindicação da categoria não é a melhoria de suas condições de trabalho nem da qualidade do serviço público prestado à população paulista, mas sim a reestatização da operação das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade.

Não faz muito tempo, o governo Tarcísio de Freitas, acertadamente, concedeu as linhas à iniciativa privada. Mas os primeiros dias de gestão da Trivia Trens foram marcados por uma série de problemas, como atrasos, falhas na circulação e até mesmo um incêndio num trem lotado no horário de pico da manhã, o que causou pânico nos usuários.

Com os incidentes, as linhas que atendem a quase 800 mil passageiros por dia na zona leste da capital paulista e em municípios como Guarulhos, Suzano e Mogi das Cruzes foram devolvidas temporariamente à Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O que era para ser uma solução provisória a fim de garantir o transporte público a trabalhadores e estudantes virou um problema ainda maior.

Os sindicalistas resolveram aproveitar a oportunidade e transformar a retomada da operação pela empresa estatal num instrumento de chantagem. Fazendo os passageiros de reféns de seus objetivos políticos, os líderes paredistas colocaram uma faca no pescoço do poder público e dos cidadãos. Convocaram uma assembleia para dar início a uma paralisação com o objetivo de pressionar o governo a rever sua decisão política de desestatizar as linhas de trem – decisão esta que o eleitor paulista chancelou nas urnas, ao eleger como governador o candidato que prometera a privatização.

Tarcísio de Freitas afirmou que sempre esteve aberto ao diálogo e lembrou que houve negociações e foram dadas garantias de manutenção de emprego, mas declarou que “a aposta na baderna e na paralisia dos serviços não vai intimidar o governo”. É o que se esperava.

Já os grevistas fizeram o que se espera de gente irresponsável: além de explorarem o sofrimento dos passageiros para emparedar o Executivo, eles também desrespeitaram uma ordem do Tribunal Regional do Trabalho da 2.ª Região (TRT-2) que determinava o funcionamento de 80% da frota nos horários de pico e de 60% no restante do dia. A greve, portanto, foi abusiva.

E os abusos foram muitos. Como pretendiam os ferroviários, a greve provocou o caos. O que se viu na terça e na quarta-feira foram filas intermináveis no metrô e nos pontos de ônibus, cidadãos desnorteados em busca de uma alternativa para poder exercer seu direito de ir e vir e vias travadas com congestionamento acima de 700 quilômetros.

O caso todo só reforça a importância das privatizações. No curto espaço de tempo em que a administração das linhas de trem voltou para o Estado, em razão de problemas com a concessionária, o serviço ficou à mercê do oportunismo dos sindicalistas. A questão toda é muito simples: se o desempenho da concessionária é ruim, basta trocar de concessionária; se o desempenho do Estado é ruim, não há o que fazer.

BC reduz juro a 14% e não sinaliza próximos passos

Por Valor Econômico

Os analistas privados preveem ao menos mais um corte de juros até o fim do ano, com a taxa Selic estacionando em 13,75%

Houve progresso importante na frente inflacionária, e o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu ontem reduzir os juros básicos em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Não houve sinalização dos próximos passos, se continuidade ou pausa no ciclo de redução das taxas. A janela para o corte da Selic foi propiciada pela “moderação gradual da atividade econômica”, ante sua “aceleração” anterior; a “inflação cheia desacelerou”, sem ainda deixar de superar o teto da meta; e as “medidas subjacentes desaceleraram” para um nível ligeiramente abaixo dos 4,5%.

O Copom voltou a pregar cautela na condução da política monetária, pois as expectativas do mercado expressas no boletim Focus ainda mostram inflação se distanciando da meta em 2027 e 2028. O BC ratificou sua projeção de que, no horizonte relevante da política monetária, o primeiro trimestre de 2028, o IPCA será de 3,2%. Ao mesmo tempo em que registra que “os indicadores correntes de atividade mantêm-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026”, aponta que “monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos”.

A economia deu sinais de esfriamento depois da reunião do Copom de junho. As altas taxas de juros estão desacelerando as atividades em câmera lenta, com uma força muito menor do que deveriam, pois a economia está sendo refreada por fartos estímulos fiscais e parafiscais, a maior parte deles com finalidades eleitorais. E, assim, as pessoas e empresas continuam sofrendo com os juros altíssimos por longo período.

A economia deve reduzir mais seu ritmo no segundo semestre e no ano que vem, como mostram as previsões constantes do Focus. Enquanto as previsões para o PIB de 2026 subiram ao longo do primeiro semestre para estacionar há quatro semanas em 1,99%, as de 2027 recuaram no período de 1,69% para 1,57%. Até o fim do ano, o crescimento deixará de ultrapassar seu potencial, o que dificulta o declínio da inflação, e começará a trabalhar com alguma ociosidade.

A partir de maio, praticamente todos os indicadores econômicos apontaram para baixo, ainda que não com muita intensidade. O desempenho da indústria em junho foi o pior desde 2014, com queda de 1,8%. Dezesseis dos 25 setores reduziram produção, com a pior performance cabendo aos bens duráveis, com recuo de 3,2%, e de 1,1% nos bens intermediários, que compõem metade da atividade manufatureira. No segundo trimestre, a indústria geral avançou apenas 0,3%, ante alta de 1,5% nos três primeiros meses do ano.

As vendas do varejo desaceleraram a partir de abril. O comércio restrito em maio (exclui veículos e material de construção) evoluiu apenas 0,1%, com hipermercados e supermercados exibindo na variação mensal (-1,5%) o pior resultado em quase dois anos.

O setor de serviços, fonte de pressão inflacionária constante e resistente, recuou em maio (0,4%), mas ainda apresenta boa taxa de expansão acumulada no ano (1,9%) e em 12 meses encerrados em maio (2,6%). Serviços representam pouco mais de dois terços na composição da oferta do PIB e têm sido impulsionados pelo comportamento aquecido do mercado de trabalho, pela redução do desemprego e pelos avanços da renda mensal, que vinha superando a inflação.

Ainda que a taxa de desemprego no trimestre encerrado em junho tenha atingido 5,4%, o segundo menor nível da série iniciada em 2012, a tendência é de queda nas contratações e aumento de demissões. Um indício do futuro está na evolução dos salários, que declinaram pelo segundo mês consecutivo em junho. No mês, caíram 1,5% em relação a maio, e 0,8% em maio em relação a abril. A evolução real dos salários e da massa de rendimentos real sustenta a robusta inflação dos serviços, que nos 12 meses terminados em junho variou 5,9% (pelo IPCA).

A gradual perda de ritmo dos ganhos salariais deve dar decisiva contribuição para derrubar a inflação. No trimestre móvel encerrado em abril, na comparação com o mesmo período de 2025, o rendimento médio real (descontada a inflação) crescera 5,3%. Em maio, na mesma comparação, o ganho foi de 4%, e na última leitura, do trimestre findo em junho, foi de 2,8%. Os aumentos da massa de rendimentos real mostram trajetória semelhante, um pouco mais acentuada. Em abril, houve ganhos de 6,5%, em maio, de 4,8% e em junho, de 3,6%.

Mas há no horizonte incertezas suficientes, externas e domésticas, que poderão pausar a distensão da política monetária. Os analistas privados preveem ao menos mais um corte de juros até o fim do ano, com a taxa Selic estacionando em 13,75%. Os múltiplos estímulos de crédito a uma gama enorme de setores da economia deverão mostrar efeitos no período eleitoral, o que obrigará o BC a jogar na retranca por algum tempo. A política do Planalto para reeleger o presidente Lula piora sobremaneira as contas públicas e cobra uma salgada conta de juros: R$ 1,16 trilhão nos 12 meses até junho. Com a atual política restritiva e nenhum superávit primário, a situação fiscal vai se deteriorar ainda mais rapidamente.

Crise para o palanque e o gabinete

Por Correio Braziliense

Para o Planalto e o Itamaraty, a incógnita está em encontrar o tom exato da resposta a ambos os desafios: a crise com EUA e com a Argentina

A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti coloca para o governo brasileiro o desafio de orientar a diplomacia no momento mais baixo em dois séculos de relações com os Estados Unidos — primeiro país a reconhecer a nossa independência, já em 1824. A crise coincide com a rápida deterioração dos laços com outro parceiro de primeira ordem, a Argentina de Javier Milei. Em resposta a seguidas ofensas dirigidas ao presidente Lula e à reiterada recusa a apresentar desculpas, o Itamaraty comunicou formalmente a decisão de "rebaixar as relações": o embaixador brasileiro não retornará a Buenos Aires até que esse comportamento mude, e a chancelaria argentina foi convidada a chamar de volta seu representante em Brasília.

A menos de dois meses do primeiro turno da disputa pelo Planalto, as turbulências simultâneas em dois pontos focais da frente externa, antes de tudo, não se afiguram como coincidência. Um dos pivôs, Milei, é o principal expoente da atual onda de extrema-direita na vizinhança imediata do país. O outro, Donald Trump, é o seu padrinho político. Os laços de ambos com o bolsonarismo produzem impacto eleitoral incontornável, impossível de ser subestimado: como nunca antes, a política externa fará sentir sua presença no debate de campanha.

Fazem parte do jogo as esperadas manifestações não apenas dos desafiantes de Lula, mas de diferentes personagens e instituições que se alinham a eles, como os Clubes Militares. Expor as próprias opiniões — assim como absorver os contraditórios — é da essência do debate democrático. Mas não exatamente simétricas as posições: a oposição pode permitir-se apenas opinar; o candidato à reeleição é também o presidente. A ele cabe também decidir e, sobretudo, agir.

Para o Planalto e o Itamaraty, a incógnita está em encontrar o tom exato da resposta a ambos os desafios. Na pendência com Washington, a sanção imposta à embaixadora — uma diplomata de credenciais sólidas que já representou o Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU) — coloca limites à diplomacia brasileira no trato profissional e técnico de impasses como o das tarifas comerciais. São questões que impactam importantes setores econômicos e demandam soluções o quanto antes. No caso da Argentina, o afastamento dificulta ainda mais os esforços, no âmbito do Mercosul, para ampliar mercados externos e compensar perdas nas trocas com os Estados Unidos — evitando a armadilha de apostar todas as fichas na China. 

Lula terá também seus momentos de palanque. Neles, poderá rebater os adversários internos e mesmo contestar os desafetos externos. Mas, de volta ao gabinete, terá de despir a pele de candidato para agir e decidir como chefe de Estado. Lá, o que deve prevalecer é o interesse do país.

IA e as tendências do futuro

Por O Povo (CE)

O uso da inteligência artificial (IA) já é uma realidade em todo o mundo, provocando mudanças profundas em todos os ramos da atividade humana, incluindo os negócios. Além disso, trata-se de uma ferramenta à disposição de qualquer pessoa que disponha de um smartphone ou notebook.

Constatar essa realidade implica também em reconhecer que nenhum exercício de futurologia conseguirá prever todas as consequências dessas mudanças. Porém, essas possibilidades têm de ser estudadas de modo a identificar tendências e preparar governos e empresas para conviver com a revolução tecnológica.

Relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de maio de 2025, anota o seguinte: "A obtenção de taxas mais elevadas de adoção de IA pode aumentar a produtividade do trabalho e gerar outros resultados desejáveis, como menores taxas de defeitos na produção, reduzindo a necessidade de insumos materiais. As informações para políticas públicas provenientes deste e de outros estudos comparáveis provavelmente se tornarão mais importantes à medida que mais empresas buscarem se tornar usuárias ativas de IA".

Esses temas serão debatidos no Futura Trends, evento que se realiza hoje em Fortaleza, com a presença de especialistas em inovação tecnológica do Brasil e de vários países do mundo. Estarão no encontro pesquisadores dos Estados Unidos, China, Coreia do Sul e Inglaterra. Na pauta, o processo acelerado de transformação digital e os impactos da inteligência artificial generativa na reconfiguração da sociedade, na educação e na economia.

Em destaque estará a Ásia, região de onde surgem boas experiências, especialmente em educação e mercado de trabalho. Quanto a esse tema, a OCDE alerta que "os dados e as tecnologias digitais, como a inteligência artificial, são poderosos impulsionadores da inovação na educação, oferecendo oportunidades transformadoras para a gestão de sistemas e escolas, bem como para o ensino e a aprendizagem". O evento é uma realização do Grupo de Comunicação O POVO.

Segundo o coordenador do seminário, Nazareno Albuquerque, no encontro serão debatidas de forma aprofundada a questão do letramento digital e da educação, a partir da primeira infância, para o acesso à tecnologia. Para ele, superar esse problema evitará mais uma geração de excluídos da era digital, como aconteceu nos anos 1990 e início do ano 2000.

O seminário, portanto, está inserido no grande debate que hoje mobiliza países de todo o mundo para estudar as tendências que regularão a sociedade permeada pela
inteligência artificial.

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