O Estado de S. Paulo
Ambição e esperteza, associadas uma à outra, subordinam e exploram as demais potencialidades que carregamos. As duas são os únicos traços humanos remunerados pelo capital
Um ser humano pode ser tudo nesta vida.
Alguém sozinho, quieto, pacato, um desses tipos que a gente mal nota, pode ter
virtudes imensas e defeitos medonhos, num arranjo singular e inconfundível.
Para começar a conversa, é bom lembrar que ninguém é puramente virtuoso,
ninguém é puro vício. “Não és bom, nem és mau: és triste e humano”, escreveu
Olavo Bilac, que, embora tristemente parnasiano, acertou. Qualquer pessoa,
mesmo sem ser parnasiana, é um oxímoro ambulante, ainda que não saiba que o
mundo lhe “foi contraditório”, na expressão de Carlos Pena Filho. Pode-se ser
“ou isto ou aquilo”, à la Cecília Meireles, pode-se ir para lá ou vir para cá,
pode-se perguntar sobre “ser ou não ser”, como Hamlet, pode-se até ser e não
ser de uma vez só, sem que ninguém perceba.
E que diferença isso faz? Nenhuma. Rigorosamente, nenhuma.
Em função desse fato inconteste, que está aí
há um tempão, mas todo mundo teima em ignorar, hoje eu não tratarei de nenhuma
notícia atordoante e nenhum descalabro momentoso da agenda nacional; vou falar
apenas dessa condição estranha de se poder ser tudo nesta vida sem que isso
faça a menor diferença. Um homem ou uma mulher podem ser tudo, e a chance de
encontrarem alguma gratificação, digamos, reputacional ou econômica, é próxima
de zero. Há uma exceção, aviso desde já, mas só vou revelá-la no final.
Atenção, improvável leitor: não vale pular parágrafos para ir direto à
conclusão. Se assim proceder, você perderá o fio.
Sigamos com o fio. Sugiro que você passe em
revista as pessoas que conhece, próximas ou distantes. Você verá que existem
aquelas que têm mais sabedoria, mesmo sem ter erudição. Também verá que existem
as eruditas em cinco idiomas, copiosamente opacas. Verá figuras corajosas, que
não se jactam, e outras exibicionistas de sua valentia postiça que não sabem
enfrentar nem a própria vaidade. Encontrará quem prime pelo equilíbrio, pela
mansidão de que falou Norberto Bobbio, aquela serenidade ativa, feita de
temperança, e encontrará também as que são dadas a arroubos tonitruantes e
ocos. Há de tudo nesta vida.
Há os avaros e há os pródigos, ambos tóxicos.
Em número reduzido, há os que sabem ser generosos sem esbanjar autoelogios –
cultivam a liberalidade sem chamar a atenção. Um ser humano pode ser magnânimo
sem botar banca, pode não abaixar a cabeça a ninguém e não querer fazer curvar
a coluna vertebral os outros. É raro, mas acontece de aparecer alguém assim de
vez em quando.
Existem pessoas engraçadas e espirituosas,
que nos despertam alegria. Existem aquelas que, inspiradas, tornam mais leves
os dias pesados e mais curtas as noites longas. Há quem seja amável com
naturalidade, quase com displicência, sem resvalar na falsidade. Há quem se
porte com uma nota de cortesia sem parecer artificial. Há quem diga a verdade
sem ser rude, há quem se paute pela justiça, sem nenhum moralismo. Há gente boa
por aí, e suas qualidades nos são dadas de presente, como o ar da atmosfera,
que ainda não virou mercadoria premium.
Há crianças miúdas que cantam com uma
afinação comovente, sem esforço nenhum. Outras sabem desenhar, e riscam a folha
de papel com espontânea precisão, sem precisar de ensaios. Existem as que fazem
peraltices com maestria, tornando a travessura uma forma de arte. Delas dizemos
que são arteiras. Também sei que existem os articulistas que anotam coisas
belas sem descambar na cafonice – o que não há de ser o meu caso (ponto pra
você). Há amores sublimes, Benjamin Péret mandou avisar. Há seres humanos
sublimes. E tudo isso para quê? À toa. Há escritores inteligentes, de prosa
cristalina. Há místicos que têm fé e permanecem em silêncio. Há artistas
revolucionários que são bons. Há os reacionários que são bons igualmente, ou
até melhores. Há artistas panfletários, e os homens do poder confraternizam com
eles – ou mandam prendêlos, o que é “triste e humano”, além de feio.
Há seres humanos bonitos, tanto mais que
Apolo, muito mais do que Dafne. Há beatas em êxtase gozoso, como Santa Teresa
de Ávila segundo o cinzel de Bernini. Há damas pedestres que, quando passam,
desincentivam os suicidas. Há os moços que não são de frete e que olham adiante
com uma quentura dos diabos e dos deuses. Essas personas sensuais também são
boas, com desprendimento e gratuidade. Evoé.
Um ser humano pode ser tudo nesta vida. Às
vezes, pode também ser ambicioso e esperto. Aí, e apenas aí, ganhará dinheiro e
regalias. Essa é a exceção que anunciei logo no início.
As conjunções históricas da nossa era, com
suas telas de luz pálida, fizeram decantar essa fórmula social indescritível em
que a ambição e a esperteza, acumpliciadas, sujeitam todas as outras aptidões,
faculdades, habilidades, vocações, afecções e virtudes, todos os outros vícios,
defeitos e talentos da humanidade. Uns olham para isso e balbuciam a palavra
meritocracia. Não importa. A ambição e a esperteza, associadas uma à outra,
subordinam e exploram as demais potencialidades que carregamos. As duas são os
únicos traços humanos remunerados pelo capital.

Somos " oxímoros ambulantes ". Gostei disso.
ResponderExcluirPrimor de coluna.