Valor Econômico
Aumento acentuado da incerteza pode se tornar um “novo normal” globalmente
A incerteza econômica torna-se, cada vez
mais, uma característica marcante do ambiente macroeconômico. Ainda mais
quando, por exemplo, os “choques de incerteza” fazem parte da prática de Donald
Trump e amplificam os temores globalmente de mais contração econômica.
Para compreender o papel e o impacto
econômico desse fenômeno particularmente importante no atual ambiente
geopolítico, o Banco Central Europeu (BCE) encarregou os economistas Malin
Andersson, Alina Bobasu, Lorena Saiz e Stefania Scrofani de preparar uma
análise, publicada em seu recente boletim econômico.
Em termos práticos, como notam os autores, a incerteza reflete a falta de clareza sobre variáveis como crescimento futuro, inflação, taxas de juros, emprego, lucros, preços de ativos ou decisões de política pública. Ela pode ter diversas origens e é distinta tanto do risco quanto da confiança.
Em termos econômicos, a incerteza surge em
situações nas quais o conjunto de resultados possíveis e suas probabilidades
não são claros ou são difíceis de avaliar. O risco, por sua vez, aparece quando
a distribuição dos resultados é conhecida ou pode ser razoavelmente estimada.
Já a confiança está relacionada às expectativas sobre o resultado mais provável
- ou seja, reflete para onde famílias e empresas acreditam que a economia está
se dirigindo.
O estudo destaca alguns canais de transmissão
pelos quais os choques de incerteza deprimem a atividade econômica real. O
primeiro é o das “opções reais”: as empresas são levadas a “esperar para ver”
até que haja maior clareza, provocando uma desaceleração cíclica dos gastos de
capital.
Um segundo canal bem estabelecido envolve a
poupança preventiva. Níveis elevados de incerteza levam as famílias a reduzir o
consumo e acumular poupança, resultando em demanda adiada e persistentemente
fraca. Esse efeito pode ser particularmente forte nas compras de bens duráveis
de grande valor, como imóveis e automóveis, cujos gastos são elevados e
difíceis de reverter.
O terceiro canal, que amplifica o efeito
inicial das opções reais, são as fricções financeiras. Elas implicam aumento
dos spreads de crédito e redução da capacidade dos credores, como os bancos, de
assumir riscos. Com isso, agrava-se o efeito direto da estratégia de “esperar
para ver” sobre o investimento.
Ao examinar evidências empíricas sobre os
efeitos da incerteza na atividade econômica real da zona do euro, os autores
confirmam que o impacto adverso de diversos choques sobre o crescimento do PIB
real é impulsionado principalmente por redução do investimento empresarial e,
em menor grau, consumo privado.
Um choque no índice de incerteza de política
econômica (EPU), correspondente, por exemplo, a um desvio-padrão, faz com que o
PIB real caia cerca de 1% em seu ponto mais baixo, antes de se recuperar
gradualmente ao longo de sete trimestres. O consumo privado diminui cerca de
0,7% em seu ponto mais baixo, refletindo a cautela das famílias. O investimento
empresarial se contrai de forma bem mais acentuada, em cerca de 2%. Embora haja
uma recuperação após seis trimestres, ela não é estatisticamente significativa.
Uma avaliação mais detalhada dos componentes
do consumo e do investimento aponta para reações divergentes. O investimento em
ativos intangíveis - pesquisa e desenvolvimento (P&D), software,
propriedade intelectual, capital organizacional e similares - demonstra maior
resiliência do que o investimento em ativos tangíveis - máquinas, equipamentos
e infraestrutura - durante episódios recentes de elevada instabilidade.
Isso ocorre, primeiro, porque os
investimentos em ativos intangíveis são tipicamente de longo prazo, destinados
a melhorar a eficiência, reduzir custos ou construir vantagens competitivas que
gerem retornos em uma variedade de cenários futuros. Segundo, há o canal de
financiamento: o investimento em ativos intangíveis depende mais de recursos
internos e de capital próprio, o que o torna menos vulnerável a um aperto nas
condições de crédito.
Quanto ao consumo privado, as famílias
reduzem os gastos tanto em bens quanto em serviços, mas o efeito inicial é
particularmente grande sobre os bens duráveis. Assim que o ambiente melhora, o
adiamento dessas compras gera uma demanda reprimida que é rapidamente liberada.
Esses gastos são frequentemente financiados por meio de crédito ao consumidor,
e a flexibilização das condições financeiras que muitas vezes acompanha o fim
de um choque proporciona um impulso adicional à rápida retomada do consumo.
Em contrapartida, as despesas não realizadas
com serviços - especialmente com atividades de lazer - geralmente não são
recuperadas uma vez que a oportunidade tenha passado. Assim, a recuperação do
setor de serviços é mais lenta e se estende por muitos trimestres.
Diante dos efeitos persistentes de choques e
dos níveis atualmente elevados de imprevisibilidade em relação à política
econômica, agravados pela guerra no Oriente Médio, o BCE considera provável que
as incertezas continuem a ter um efeito restritivo sobre a atividade econômica
real ao longo de 2026.
O aumento acentuado da incerteza pode se
tornar um “novo normal” globalmente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário