sábado, 15 de agosto de 2026

O que devo a Ney Matogrosso, por Eduardo Affonso

O Globo

Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa

Foi há 53 anos, num agosto como este. Num tempo em que 53 anos levavam mais de meio século para passar. (Era cedo para o garoto de 14 anos, que amava Chico e Elton John, descobrir que há segundos que não acabam nunca e décadas que somem sem que se saiba aonde foram parar.)

Ele estava naquele estágio — depois do gibi e antes do jornal, já com o beijo e ainda sem o orgasmo — que, por falta de um CID apropriado, chamam de adolescência. E tudo à sua volta — casa, pai, desejo, Deus, escola, comida, paisagem — atendia pelo nome de “interior de Minas”, que era, a um tempo, geografia e metáfora.

Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa. Uma cabeça anônima, servida em prato de papel-alumínio, entre pão e vinho, feijão e cebolas. E lá no fundo azul, na noite mineira, uma voz lhe iluminou a mente e ali fez uma dança, uma festa.

Era um o que chegava do colégio das Irmãs Sacramentinas, de uma longínqua 8ª série do extinto Primeiro Grau; outro o que, fechado no quarto e diante do toca-discos, tomava a até então desconhecida mescalina de si mesmo e se abria a sinestesias de rock rondó vira toada balada folk blues.

“O patrão nosso de cada dia” lhe deu uma senha — a etimologia — para infinitas conexões: pai e patrão, frutos da mesma árvore. “As andorinhas” sinalizaram que a poesia estava por um fio — qualquer fio. A “Rosa de Hiroshima” ardia, ferida cálida. E, acima de tudo, de todos, leve, muito leve, aquele bicho indefinível — entre o saci e a fada, o homem e o lobisomem. Seco, molhado, fazendo cena, um treco assim. Não importava que letras e músicas fossem de outros: ali eram dele, eram ele. Pelo modo como cantava, como olhava, como se movia — envolto em tempestade, a primavera entre os dentes.

O menino não sabia de nada — ou quase nada. Não chegara a hora de falar — então escutava. Antecipava o instante de o vinho quente do coração lhe subir à cabeça. De ter consciência para ter coragem. De crescer, assumir pecados, romper tratados, trair os ritos. Com 14 anos e o peso de quatrocentas mortes, soltava o ar no fim de cada faixa: Eu só sei de mim, só sei de mim, só sei de mim.

Aquele disco, aquela voz — aquela ousadia — deram ao menino mudo, inexato, uma aérea esperança, uma clave de sol. Mas nada o faria imaginar-se, cinco décadas depois, num agosto como aquele, ainda ouvindo, com igual assombro, essas canções. Não mais girando em torno de si mesmas na vitrola; vindas de uma nuvem, num fluxo contínuo, a voz voando através de palavras ainda por inventar: wireless, streaming, bluetooth. Ventos de outro Norte, movendo novos moinhos.

O breve hiato que separa o garoto, em 1973, depositando a agulha no vinil e este homem de 2026 com fones sem fio é exatamente a mesma imensa distância que havia entre ele e seus avós, em 1920, a ouvir foxtrotes e maxixes no gramofone, em discos de goma-laca, 78 rotações.

Nesses 53 anos, perdeu pai, mãe, Minas; jurou mentiras, seguiu sozinho. No centro da própria engrenagem, inventou a contramola que resiste.

Enquanto escrevo, ele retorna à casa azul, no Rosário, à direita de quem atravessa a ponte. Fecha a porta do quarto. Abre o encarte. Leva o cabeçote até a penúltima faixa do lado A. E Ney — leve pluma, muito leve, leve — pousa. O Ney que lhe segredou, há meio século (ou há um segundo?) que o que importa é não estar vencido.

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