sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rediscutir diploma de jornalismo não tem cabimento

Por O Globo

Causa estranheza a questão ressurgir num momento em que Supremo está desgastado por notícias incômodas

A discussão sobre a obrigatoriedade de diploma para o exercício da profissão de jornalista é anacrônica. Está superada desde pelo menos 2009, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a exigência por 8 votos a 1. Na ocasião, o STF entendeu que ela era inconstitucional, por violar as liberdades de expressão e informação. A tentativa de ressuscitar a questão agora não tem nexo lógico, sentido jurídico ou pertinência histórica numa sociedade que tanto lutou para restabelecer a democracia.

Inexistente em democracias maduras, a obrigatoriedade do diploma foi imposta no Brasil por decreto de 1969, em plena ditadura militar, com o objetivo indisfarçável de controlar quem poderia exercer a profissão. Há mais de 40 anos, felizmente, sopram no país ventos democráticos. Por isso causa estranheza que o debate tenha ressurgido no mesmo Supremo que extinguiu a exigência, em meio ao desgaste provocado na Corte pelo caso do blogueiro maranhense Luís Pablo — alvo de operações da Polícia Federal (PF) determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, sob acusação de perseguição ao ministro Flávio Dino. Nas investigações, Moraes determinou a quebra do sigilo das fontes de Pablo, em violação flagrante ao que ordena a Constituição.

Diante da repercussão do caso, Moraes e Dino defenderam rever o entendimento sobre a obrigatoriedade do diploma, insinuando que um blogueiro como Pablo não deveria usufruir as mesmas garantias constitucionais que um jornalista profissional. O ministro Gilmar Mendes apoiou a ideia: “Podemos discutir sim, se de fato se entender que há aí algum comprometimento na qualidade da informação”. Paradoxalmente, o próprio Gilmar foi o relator do caso que acabou com a exigência do diploma. Na época, afirmou no voto vencedor que o diploma não funciona como “vacina contra mau jornalismo”.

Gilmar estava certo em 2009 e está errado agora. Exigir diploma não impediria eventuais práticas criminosas — longe de comprovadas no caso de Pablo, por sinal. As liberdades de informação e expressão não são prerrogativas exclusivas dos jornalistas. A Constituição as assegura a todos. Ainda que não fosse assim, qualquer influenciador ou blogueiro poderia facilmente obter um diploma. O noticiário do dia a dia está repleto de médicos, advogados, economistas ou juízes devidamente diplomados que cometem crimes. E os jornalistas, com ou sem diploma, não estão imunes aos rigores da lei. É preciso aperfeiçoar o combate ao crime, e não se meter na formação profissional desviando o foco da questão.

Nada justifica a quebra do sigilo da fonte, uma garantia para a sociedade de que os jornalistas terão proteção e liberdade para investigar e de que as fontes continuarão a procurá-los para denunciar os poderosos, sem medo de ser identificadas e perseguidas. É possível que Pablo tenha cometido crime, mas a PF tem condições de investigá-lo pelos meios regulares, sem avançar sobre direitos constitucionais. É uma afronta à liberdade de imprensa a apreensão de instrumentos de trabalho, como celulares e computador, para descobrir suas fontes. Tão grave quanto é insistir no erro, usando o caso do Maranhão como pretexto para ressuscitar um despropósito dos tempos da ditadura.

É verdade que as redes sociais, onde a maioria não segue os princípios do jornalismo profissional, estão inundadas de desinformação ou crimes. Mas há regras — algumas fixadas pelo próprio STF — para coibi-los. Exigir diplomas certamente não resolverá nada e criará outros problemas. É extremamente preocupante que ministros tentem criar obstáculos para o livre exercício do jornalismo num momento em que a imprensa tem revelado notícias incômodas para o Supremo sobre as quais alguns ainda devem explicações.

Fiscalização falha de ônibus fretados contribui para tragédias nas rodovias

Por O Globo

Acidente com dez mortes na Serra de Petrópolis expõe falta de coordenação entre órgãos públicos

O acidente com um ônibus fretado em Belo Horizonte que se aproximava de forma ilegal do Rio na manhã de domingo causou dez mortes, deixou 25 feridos e expôs falhas inaceitáveis de fiscalização, como resultado da falta de coordenação entre os órgãos públicos encarregados de manter a segurança do tráfego e dos passageiros. O acidente ocorreu na pista de descida da Serra de Petrópolis, no quilômetro 91. É um local onde veículos tendem a ganhar velocidade, exigindo prudência dos motoristas. Ainda havia por lá um trecho em obras. De acordo com depoimentos de sobreviventes, o motorista dirigia em alta velocidade e perdeu o controle do ônibus, que tombou na pista.

Não se trata, infelizmente, de episódio isolado. Embora o número de acidentes com ônibus nas rodovias federais tenha caído de 3.690 em 2016 para 2.128 em 2025 (42%), a queda nas mortes foi bem menor, de 440 para 377 (14%), de acordo com as estatísticas da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Esses números não discriminam, porém, se o ônibus envolvido operava legalmente, nem levam em conta as tragédias nas estradas municipais ou estaduais. E, mesmo assim, revelam mais de uma morte por dia.

É evidente que o transporte clandestino de passageiros traz mais riscos. Ainda que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) informe que, nos últimos 12 meses, 22.644 ônibus tenham sido abordados no Rio e em Minas, os mecanismos de inspeção têm sido insuficientes para coibir as ilegalidades. “A fiscalização é majoritariamente reativa e pontual, não é preventiva. Muitas vezes, a irregularidade só é identificada durante a viagem ou depois de um acidente”, diz Letícia Pineschi, diretora-geral da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros.

Cabe à ANTT a fiscalização das empresas de transporte. Toda empresa que faz fretamento de ônibus precisa de autorização da ANTT. Para cada viagem, é necessária uma licença específica, com a relação dos passageiros — algo que não havia no ônibus acidentado. Nenhuma das empresas a que ele estava associado tem autorização para transporte interestadual.

Não há, contudo, cooperação eficaz com os policiais rodoviários. Quando para um ônibus na estrada, a PRF apenas verifica se o veículo está em condições de trafegar, analisa os documentos, confere se o motorista respeita as regras de conduta no trânsito e inspeciona para ver se transporta armas ou drogas. Mas a PRF não impede a viagem de seguir se o veículo não cumpre as normas da ANTT — um estímulo às viagens clandestinas. Uma fiscalização mais rigorosa, com a cooperação da PRF, certamente contribuiria para poupar vidas.

Corrupção é tema inglório para Lula e Flávio

Por Folha de S. Paulo

Lulinha e Marcola esvaziam discurso petista da moralidade contra o rival, flagrado em diálogo com Vorcaro

Felizmente para ambos, a corrupção não parece ser tema central no pleito; infelizmente para o país, tal quadro empobrece o debate eleitoral

Em diferentes momentos antes do início pleno da disputa presidencial, tanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto Flávio Bolsonaro (PL) consideraram boa estratégia explorar o tema da corrupção para desgastar o outro. Nesta primeira semana de campanha oficial, porém, os dois principais candidatos ao Planalto têm mais a explicar do que a acusar nessa seara.

O constrangimento mais recente vem de novas informações vazadas da Polícia Federal a respeito das atividades de Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha —o filho do presidente é objeto de inquérito sobre a suspeita de ter tentado usar o nome para fazer avançar negócios no governo.

O caso envolve também o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro, de apelido Marcola. Ele e Lulinha mantinham ligações com uma lobista, Roberta Luchsinger, que, segundo a PF, servia de facilitadora para contatos de Antônio Carlos Camilo Antunes —conhecido como Careca do INSS— no governo federal.

Já Antunes foi indiciado no escândalo dos descontos fraudulentos em pagamentos de aposentadorias. Apurou-se que ele pagou R$ 1,5 milhão a Roberta, e Marcola recebeu dela R$ 249 mil, explicados como empréstimo.

Todos negam irregularidades. Até pela natureza opaca dos vazamentos, é prematuro atribuir culpas. Mas o tempo da política é diferente. Lula declarou publicamente que o filho deve ser investigado como qualquer cidadão e afastou Marcola da campanha.

Mas a necessidade de responder sobre um caso que atinge a família e a antessala presidencial tirou do PT a possibilidade, incerta desde o início, de usar o discurso de moralidade contra Flávio.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que falava com mais desenvoltura das condenações de Lula por corrupção, foi atropelado pela revelação de suas relações com Daniel Vorcaro, principal personagem do escândalo do Banco Master, que une cooptação de autoridades nos três Poderes e um desfalque recorde no sistema financeiro.

Em um áudio também vazado, Flávio chama o ex-banqueiro de "meu irmão" e cobra dinheiro para o filme hagiográfico sobre seu pai, hoje preso por tentativa de golpe de Estado. Como se não bastasse, o candidato do PL também tem um histórico nebuloso de suspeitas de apropriação de recursos de seu gabinete parlamentar e ligações com milicianos no Rio de Janeiro.

Felizmente para ele e para Lula, a corrupção não parece ser um tema tão central neste pleito quanto já foi. Segundo o Datafolha, não mais que 9% dos brasileiros a consideram o principal problema do país. Com o acirramento da polarização política, a rejeição a um dos principais postulantes parece ser o motivo mais forte para o voto no outro.

Infelizmente para o país, tal quadro tanto empobrece o debate eleitoral quanto favorece uma apatia institucional diante dos desmandos que se sucedem à esquerda e à direita.

El Niño muito forte e precoce

Por Folha de S. Paulo

Agência americana eleva projeção de alta intensidade, e partes do planeta já sofrem efeitos do fenômeno

No Brasil, é preciso articulação entre as três esferas de governo para conter incêndios e reforçar infraestrutura e sistema de saúde

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa), agência federal dos Estados Unidos, atualizou —para pior— suas projeções para o El Niño.

Em junho, quando se confirmou o início do fenômeno, a probabilidade de que ele atingisse a categoria muito forte era de 63% entre novembro e janeiro; em julho, a cifra passou a 81% entre outubro e dezembro. Já na última semana, a estimativa foi a 93% de setembro a novembro, com 90% de risco de que a condição extrema perdure até janeiro.

O El Niño, caracterizado pelo aquecimento da superfície do oceano Pacífico equatorial, é considerado muito forte quando a temperatura supera 2ºC em relação à média histórica.

Desde o início da série, em 1950, tal patamar foi superado em cinco episódios. O último foi em 2023-24, e o mais intenso, em 2015-16 (2,6ºC). Atualmente, a alta da temperatura está em 1,4º.

Há ainda calor elevado abaixo da superfície, com áreas até 10°C mais quentes, número muito acima do que já foi registrado anteriormente —em 2015-16, essa zona ficou 6ºC acima da média.

Assim, a Noaa projeta que o fenômeno deste ano pode ser um dos mais fortes desde 1950.

Os efeitos de um "El Niño de início precoce", como descreve Chris Funk, diretor do Centro de Riscos Climáticos da Universidade da Califórnia, já se fazem sentir.

Partes do Panamá, país com grandes precipitações, não registram chuvas intensas desde o início de maio. A Etiópia enfrenta um dos verões mais secos em quatro décadas. A seca chega a partes do Sudeste Asiático, atrasando a semeadura de arroz e de outras culturas agrícolas.

No Brasil também há risco de comprometimento de safras, impactando a inflação. Aqui, os efeitos do El Niño são estiagens no Norte e Nordeste e chuvas fortes no Sul; o Sudeste pode apresentar as duas condições.

Urge a mobilização do poder público. Na quarta (19), o Ministério do Meio Ambiente se reuniu com secretários estaduais da área para definir atuação coordenada.

Além de medidas para conter incêndios e reforçar infraestrutura, é preciso atenção redobrada no sistema de saúde.

Em julho, a Organização Pan-Americana da Saúde lançou um alerta regional de risco elevado de estresse térmico, desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e de arboviroses, como a dengue.

Em 2024, no último El Niño, o Brasil não tratou com seriedade alertas similares da OMS, e mais pessoas morreram por dengue no país (5.873) do que a soma dos oito anos anteriores (4.992).

Para nunca esquecer

Por O Estado de S. Paulo

Ex-chefe da Aeronáutica presta relevante serviço ao lembrar que Jair Bolsonaro pretendia mesmo dar um golpe. Não esqueçamos isso, considerando que o nome Bolsonaro estará nas urnas

O tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica, prestou um relevante serviço ao País ao lembrar que Jair Bolsonaro pretendia mesmo dar um golpe de Estado nos estertores de seu governo, a fim de impedir a posse do então presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Quatro anos depois, as memórias de Baptista Junior sobre aqueles fatídicos dias, reunidas no livro Eu disse não! – Uma trincheira antigolpista, servem como uma espécie de vacina contra o esquecimento coletivo de um fato gravíssimo – ainda mais considerando que o sobrenome Bolsonaro está de novo nas urnas.

A rigor, os relatos do militar confirmam o que já se sabia, ainda que Baptista Junior os registre com os detalhes de quem foi personagem da história. Lembremos que toda a trama golpista foi passada a limpo durante o julgamento da Ação Penal 2.668, no Supremo Tribunal Federal (STF), ao final da qual Bolsonaro foi condenado a mais de 27 anos de prisão em regime fechado. Esse registro, porém, tem o peso de ter sido feito não apenas por um oficial de alta patente, mas por um comandante militar que jamais foi hostil a Bolsonaro – muito pelo contrário. Baptista Junior é uma testemunha insuspeita daquela sedição.

Como relata o militar, houve, sim, uma articulação liderada por Bolsonaro para impedir a posse de Lula, legitimamente eleito em 2022. Houve, sim, pressão do então presidente da República para que os comandantes das Forças Armadas aderissem à sua aventura golpista, sob o disfarce de estado de defesa ou Garantia da Lei e da Ordem. Houve, sim, a tentativa de Bolsonaro de isolar a Aeronáutica das deliberações insurgentes. Para Bolsonaro, afirma Baptista Junior, bastava cooptar a Marinha – de resto submissa pela adesão do almirante Almir Garnier, outro criminoso condenado na Ação Penal 2.668 – e o Exército, evidentemente, para consumar o golpe.

O pior só não aconteceu porque, quando Bolsonaro comunicou aos chefes militares que pretendia cancelar o resultado da eleição na qual foi derrotado, o então comandante do Exército, general Freire Gomes, ameaçou prendê-lo. Foi essa a linha vermelha que, segundo Baptista Junior, poupou o Brasil de uma ruptura institucional.

Talvez jamais saibamos se Exército e Aeronáutica se opuseram ao golpismo de Bolsonaro por convicção democrática de seus comandantes ou porque estes avaliaram que não havia as chamadas condições objetivas para um golpe de Estado. Mas, para o País, isso importa menos do que analisar os fatos relatados por Baptista Junior como o retrato do espírito golpista que animava desde sempre o presidente Jair Bolsonaro, em flagrante contraste com seu discurso em defesa da “liberdade” e da “democracia”.

Que não haja ilusões: toda palavra que sair da boca de um Bolsonaro em favor da democracia será falsa. O clã Bolsonaro, forjado na política sob o signo da irresignação com as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988, está indelevelmente associado a golpismo. Ainda que sem uma nesga do carisma de Jair, Flávio Bolsonaro regurgita as mesmas mentiras do patriarca sobre as urnas eletrônicas. Recorde-se, também, que, em junho do ano passado, em entrevista à Folha de S.Paulo, Flávio ameaçou usar a força contra o STF caso a Corte julgue inconstitucional a concessão de eventual indulto ou anistia para seu pai e outros golpistas do 8 de Janeiro. Livrar Jair Bolsonaro da prisão e encabrestar o Supremo – ou seja, duas pautas autoritárias – é a única agenda que importa para Flávio nesta campanha.

Por mais que preocupe, nada disso surpreende. Jair Bolsonaro já defendeu o assassinato de Fernando Henrique Cardoso. Já pugnou pelo fechamento do Congresso. Já afirmou que a ditadura militar “matou pouco” no Brasil. Na campanha de 2018, prometeu “fuzilar a petralhada”. A violência é, sim, um ativo eleitoral para essa família. Mas é, antes de tudo, um desvio de caráter. Flávio, nesse sentido, teve a quem puxar.

A sociedade brasileira, amadurecida por décadas de vida democrática, já deu mostras suficientes de que não aceita o golpismo. Mas isso não significa que não haja risco envolvendo um candidato que só existe na vida pública em razão do sobrenome que ostenta – e que está indelevelmente ligado ao inconformismo com o fim do regime militar e com a democracia.

Lula ameaça retomar o Ciência sem Fronteiras

Por O Estado de S. Paulo

Em campanha, Lula promete ressuscitar o programa. Se for para estimular o turismo de estudantes despreparados em vez de construir capacidades, melhor que fique na promessa

Em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu que, se reeleito, recriará o programa Ciência sem Fronteiras, agora com foco em inteligência artificial, matemática e engenharia. Como candidato, Lula não tem poupado saliva em veículos festivos ou sabujos, enquanto foge de debates e sabatinas. Jornalistas independentes dificilmente deixariam de confrontá-lo com uma questão elementar: o que o Brasil recebeu em troca da primeira edição?

A motivação do projeto criado por Dilma Rousseff era pertinente. As universidades brasileiras são provincianas, com poucos alunos e professores estrangeiros, domínio precário de idiomas e baixa participação nas redes globais de pesquisa. O governo petista, porém, saltou dessa constatação genérica para uma meta de 100 mil bolsas, sem definir com rigor que competências deveriam ser adquiridas ou como serviriam às necessidades nacionais.

O número vistoso passou a governar o programa. Como era preciso encontrar dezenas de milhares de beneficiários em poucos anos, o intercâmbio de graduação concentrou 80% das bolsas, embora muitos estudantes não tivessem maturidade acadêmica ou fluência para acompanhar cursos exigentes. Daí a alcunha de “Turismo sem Fronteiras”. À medida que o prazo se aproximava, o governo reduziu exigências linguísticas. Quase 45 mil bolsas de graduação foram desaguadas somente em 2014, quando Dilma disputava a reeleição. Em vez de ajustar a meta às capacidades disponíveis, o governo flexibilizou critérios e improvisou concessões para fazer o programa caber na promessa.

As bolsas rendiam manchetes e uma cifra para propaganda. Já a qualidade dos destinos, o reconhecimento de créditos e o aproveitamento dos egressos cobravam trabalho institucional que só produziria resultados anos depois. O governo escolheu o marketing, enquanto remendava falhas de idioma, seleção e gestão de um programa que já nascera invertido.

Sem vínculos duradouros entre departamentos, projetos conjuntos e uma estratégia para atrair pesquisadores, a mobilidade em massa pouco fez para internacionalizar o sistema universitário. A obrigação de voltar ao Brasil não vinha acompanhada de laboratório, carreira ou empresa onde aplicar o conhecimento adquirido. Decerto houve bolsistas que ganharam fluência e repertório. Ganhos pessoais, contudo, não demonstram que uma política de R$ 13 bilhões tenha entregado ciência, inovação e competitividade em proporção ao investimento.

Um estudo de impacto de pesquisadores da FGV baseado em mais de 19 mil candidatos não encontrou os avanços esperados no ingresso na pós-graduação, no emprego formal ou no empreendedorismo – em alguns períodos, os efeitos foram negativos. O governo mediu partidas, mas embarcar estudantes sempre foi a parte mais fácil.

Uma reedição responsável teria de percorrer o caminho inverso. A formação internacional dos quadros da Embrapa, por exemplo, deu resultado porque sua missão e as carreiras já existiam antes do embarque. Os pesquisadores foram buscar conhecimentos que aplicariam em projetos e carreiras ao regressar. A lição não prescreve uma estatal de inteligência artificial, mas obriga o governo a dizer quem necessita desses especialistas e como serão aproveitados.

Primeiro devem vir a missão, as instituições brasileiras, os projetos, as carreiras e a avaliação. Depois se escolhem as modalidades, os bolsistas, os parceiros estrangeiros e a quantidade. Um novo programa deveria começar pequeno, concentrado em formação avançada, e só crescer depois de demonstrar resultados. Em um país com imensas carências na educação básica, bolsa não preenchida custa menos que bolsa concedida para satisfazer metas eleitorais.

Até agora, Lula ofereceu áreas da moda e uma promessa de palanque. Nada disse sobre a estrutura do novo programa nem respondeu pelos malogros do anterior. Cabe a ele demonstrar que pretende construir capacidades, em vez de reciclar uma vitrine. Sem essa inversão, a inteligência artificial fornecerá apenas um rótulo moderno aos velhos vícios do Ciência sem Fronteiras.

Lei sob medida

Por O Estado de S. Paulo

‘Jabuti’ beneficia apenas três candidatos, um deles filho de Arthur Lira

A Constituição exige idade mínima de 21 anos para o exercício do mandato de deputado. Alvinho Lira (PP-AL), candidato a deputado federal e filho do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), só completará essa idade 44 dias depois da posse da próxima legislatura. Em vez de esperar pelo aniversário, o Congresso resolveu mexer no calendário.

Mas, claro, fez isso com a discrição que a ocasião recomendava. Pendurou um “jabuti” – como são chamadas emendas sem relação com o tema original – numa proposta apresentada em 2015 que garantia a oferta de panfletos eleitorais em braile.

O texto original passou uma década sem dizer uma palavra sobre a idade dos candidatos. Até que, em setembro do ano passado, o senador Eduardo Braga (MDB-AM) assumiu a relatoria na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e criou a providencial figura da “posse presumida”. Pela nova regra, deputados eleitos passaram a poder completar os 21 anos dentro de uma janela de até 90 dias contados da eleição da Mesa Diretora. O Senado aprovou a mudança em 1.º de outubro. No dia seguinte, a Câmara fez o mesmo. E a lei foi sancionada a tempo de valer nas eleições deste ano.

A coincidência era tão discreta que os próprios parlamentares apelidaram a mudança de “Lei Alvinho”. Seus defensores, naturalmente, apresentaram razões mais elevadas. Era preciso uniformizar os diferentes prazos existentes nas Casas Legislativas. O filho de Lira apenas teve a sorte de nascer na data certa para ser alcançado pela solução encontrada para tão relevante problema nacional.

Faltava saber apenas o tamanho do problema. Agora sabemos. Levantamento de O Globo feito a partir das candidaturas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que apenas três candidatos serão beneficiados pela nova lei. Alvinho, óbvio, é um deles. Os outros são Vitória Souza (PP-SP) e Manu Bim (Avante-MG). A multidão de brasileiros que justificava tamanha intervenção na legislação eleitoral, portanto, cabe no banco traseiro de um Fusca.

Lira nega que a lei tenha sido feita para beneficiar o filho. Afirma que não foi autor do projeto nem da emenda e lembra que já não presidia a Câmara quando a mudança foi aprovada.

Ora, se havia uma distorção a corrigir, o Congresso poderia ter apresentado um projeto sobre o assunto, discutido e permitido que a sociedade soubesse exatamente qual regra estava sendo alterada. Preferiu esconder a mudança e só depois da eleição o alcance extraordinariamente particular daquela solução geral seria revelado.

É assim que interesses muito específicos encontram abrigo em leis feitas para 200 milhões de brasileiros. Para enxergar o problema não é preciso provar que a “Lei Alvinho” foi escrita para Alvinho. Basta constatar que o Congresso criou uma regra que beneficia três candidatos, um deles filho de um de seus políticos mais poderosos, e fez isso por meio de um jabuti que nada tinha a ver com o projeto original. Há brasileiros que precisam se adaptar à lei. Outros parecem ter o privilégio de ver a lei adaptar-se a eles.

Inflação de alimentos deve subir com choques de oferta

Por Valor Econômico

Ao lado da gastança do governo federal, a inflação dos alimentos poderá interromper a queda de juros ou forçar a interrupção temporária da distensão monetária

As condições de fornecimento global de alimentos estão se deteriorando, e a redução da oferta se tornará bem mais evidente nos preços até o fim do ano. O El Niño, que deverá ser um dos mais fortes desde 1950, piora uma situação já adversa criada por duas guerras que reduziram muito o suprimento de insumos básicos - petróleo, gás natural, ureia e enxofre, no caso do bloqueio do Estreito de Ormuz - e a produção de trigo e fertilizantes, no caso da guerra entre Rússia e Ucrânia. Há vários choques simultâneos de oferta, e o índice de preços dos alimentos da FAO, órgão da ONU para alimentação e agricultura, atingiu no mês passado o seu maior nível desde janeiro de 2023.

A guerra entre Estados Unidos e Irã completa na próxima semana seis meses, uma duração inesperada quando os conflitos começaram. O fornecimento de insumos para fertilizantes, já afetados pelos combates entre Rússia e Ucrânia, dois dos maiores produtores, continua precário, e o plantio nos EUA, o segundo maior exportador mundial de alimentos, foi afetado pelos preços em alta e menor disponibilidade. Os transportes de todas as safras vão encarecer de novo, depois da brevíssima trégua entre o presidente Donald Trump e o regime dos aiatolás que reduziu os preços dos combustíveis. Não há acordo à vista. O resultado é que os preços do petróleo começaram a subir aos poucos e ontem tinham ultrapassado os US$ 93 o barril do tipo Brent.

Outra guerra prolongada, de mais de quatro anos, provocada pela invasão russa na Ucrânia, acrescentou agora novos problemas ao abastecimento de alimentos. Os conflitos recrudesceram nas últimas semanas, e ambos os países resolveram alvejar os portos no Mar Negro que escoam o grosso da produção de trigo - a Rússia é o maior produtor mundial e a Ucrânia, o quinto maior. A produção dos dois países corresponde a 30% da oferta mundial. Há cálculos que indicam que 17% das exportações globais do produto serão afetadas (FT, 19-8). As cotações do trigo são as mais altas em três anos.

A Ucrânia tentou desviar parte do escoamento da produção para o rio Danúbio, mas não está tendo sucesso devido a outro fator que derruba o suprimento: o aquecimento global. Uma violenta seca reduziu muito o nível dos rios europeus, diminuindo a capacidade de transporte e elevando preços dos fretes. Em paralelo, a estiagem, que facilitou a disseminação de incêndios de grandes proporções na França, na Espanha e na Grécia, deve ter eliminado 9 milhões de toneladas de trigo, cevada, milho e outros grãos, com prejuízos estimados em € 2 bilhões.

O clima adverso deve piorar com a eclosão do El Niño. Estudo do Banco Central Europeu (BCE) avalia que um cenário extremo de secas e calor pode subtrair até 4,5 pontos percentuais do crescimento do valor agregado per capita na agricultura, com maior impacto no leste da Europa. E fenômenos climáticos adversos estão se espalhando por vários pontos do planeta. O aquecimento das águas do Pacífico levou o Peru a suspender a pesca de anchovas desde maio. O forte calor, coadjuvado pelo menor uso de fertilizantes pela redução da disponibilidade, prejudicou a safra de trigo da Austrália e afetou as de arroz da Índia, que já havia interrompido suas exportações de açúcar.

Tudo somado, as cotações das commodities estão com tendência de alta. Ontem, os preços de açúcar, algodão, soja e trigo estavam perto das máximas atingidas em um ano. Segundo os cálculos da consultoria Oxfam, os preços dos alimentos subirão 11,8% neste ano e 4,8% no próximo, mas o El Niño, que se estende até meados do primeiro semestre do próximo ano, pode tornar modestas essas previsões. Ainda assim, altas de cotações e menor disponibilidade de produtos colocarão mais 49 milhões de pessoas em um ambiente de insegurança alimentar, segundo a FAO.

O encarecimento dos insumos vai afetar a rentabilidade dos produtores brasileiros e possivelmente a produtividade, refletindo-se nos preços. Os fertilizantes, dos quais o Brasil é um dos cinco maiores consumidores mundiais, subiram cerca de 25% em um ano, e as importações caíram, um sinal de que o insumo será racionado no plantio. Isso ocorrerá justamente quando as plantações poderão estar sob estresse hídrico com a chegada do El Niño.

É justamente o bom comportamento dos preços de alimentos que tem permitido que a inflação recue nos últimos meses. Com grande peso no IPCA, tiveram deflação em julho e, em 12 meses, avançaram 3,4%, ante o índice de 4,46% no mesmo período. Em reais, no ano até agora, houve queda de 1,43%, segundo o IC-Br, do Banco Central. Mas como boa parte dessas commodities é cotada nos mercados mundiais, a posição do câmbio afeta diretamente os preços domésticos. O dólar tem se valorizado um pouco recentemente, com a aproximação das eleições e a retirada massiva de recursos por parte dos investidores externos em ações.

Com pressões de preços em várias frentes, e um El Niño a caminho, os alimentos deixarão o papel de freio para se tornar um acelerador da inflação. Ao lado da gastança do governo federal, poderão interromper a queda de juros ou forçar a interrupção temporária da distensão monetária.

A reação dos livros tem nome e números

Por Correio Braziliense

O livro continua sendo o veículo preferencial para a transmissão de ideias complexas, narrativas longas e conhecimento acumulado

Um pedido inusitado revelou a força dos livros. A escritora e navegadora Tamara Klink, de 29 anos, publicou um vídeo nas redes sociais há cerca de duas semanas pedindo que as pessoas parassem de comprar seu livro Bom dia, inverno. O livro, que narra os oito meses que ela passou sozinha em um veleiro no Ártico, já frequentava as listas de mais vendidos havia semanas. Preocupada com o impacto ambiental da impressão de novos exemplares, Tamara defendeu que os livros já existentes deveriam circular entre leitores em vez de novas cópias serem produzidas.

A repercussão foi imediata — e negativa. Em apenas quatro dias após o vídeo, o livro vendeu 2.061 exemplares, quase o dobro do esperado para o período, segundo levantamento da BookInfo, realizado a pedido do jornal Folha de S.Paulo. Só no sábado em que influenciadores começaram a comentar o episódio, foram 964 exemplares vendidos, contra cerca de 300 no sábado anterior. Tamara apagou o vídeo e se retratou. Mas o mercado já havia dado a resposta: quando o assunto é livro, o público brasileiro não é indiferente.

Essa reação tem nome e número. Os dados do 7º período do Painel do Varejo de Livros no Brasil, pesquisa realizada pela Nielsen e divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros e pelo portal PublishNews mostram um setor em expansão consistente. Entre junho e julho deste ano, o varejo de livros movimentou R$ 245,1 milhões, uma alta de 9,3% em relação ao mesmo período de 2025, e comercializou 4,8 milhões de exemplares, crescimento de 2,3%. No acumulado do ano, o faturamento chegou a R$ 1,89 bilhão, com crescimento de 12,7%, e o volume vendido alcançou 35,6 milhões de exemplares, alta de 10,2%. Em todos os sete períodos auditados em 2026, houve crescimento — em alguns deles, de dois dígitos.

O dado mais revelador, porém, não é o faturamento. É a composição do que está sendo comprado. A ficção adulta consolida-se como o maior subsegmento do mercado, com 32,6% de participação, quase seis pontos percentuais a mais do que em 2025. Ou seja: os brasileiros não estão apenas comprando mais livros. Estão escolhendo narrativas, histórias e literatura. Estão lendo por prazer.

Esse crescimento é ainda mais significativo quando colocado em contexto. O setor atravessou, nos últimos anos, uma das crises mais duras de sua história recente. O fechamento das livrarias Cultura e Saraiva, duas das maiores redes do país, com décadas de presença nas principais cidades brasileiras, deixou um vazio físico e simbólico que parecia difícil de superar. Prateleiras vazias, lojas fechadas, empregos perdidos. E, ainda assim, o mercado cresceu. O livro sobreviveu ao encolhimento de seus principais pontos de venda e encontrou outros caminhos, como o e-commerce, as livrarias independentes, as feiras, as redes sociais para chegar ao leitor.

Essa resiliência não é acidental. É o reflexo de um formato que, ao contrário do que se previu por décadas, não foi derrotado pela tela. O livro continua sendo o veículo preferencial para a transmissão de ideias complexas, narrativas longas e conhecimento acumulado. Num ecossistema saturado de informação fragmentada e conteúdo descartável, ele oferece o que algoritmos não conseguem entregar: profundidade, contexto e permanência.

O que falta, agora, é o Estado enxergar essa janela de oportunidade. Políticas de incentivo à leitura, programas de compra institucional para escolas e bibliotecas públicas, redução de carga tributária sobre o livro e apoio à cadeia de distribuição em regiões sem acesso a livrarias físicas são instrumentos conhecidos e eficazes. O mercado já está fazendo sua parte. Cabe ao poder público decidir se vai surfar essa onda, ou apenas observá-la de longe.

Definido plano de manejo para a Chapada do Araripe

Por O Povo (CE)

É preciso uma fiscalização permanente para garantir a que os requisitos exigidos pelo ICMBio sejam rigorosamente respeitados

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) aprovou um plano de manejo definindo que 89% da Área de Proteção Ambiental da Chapada (APA) do Araripe pode ser utilizada para o desenvolvimento de atividades agrícolas, pecuárias, industriais e de turismo sustentável. O trecho corresponde a 914 mil hectares da área total da unidade. A APA abriga trechos dos biomas Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, abrangendo áreas nos municípios do Ceará, Pernambuco e Piauí.

Somente agora, 30 anos após a sua criação, foi definido um plano de manejo, estabelecendo normas para as atividades que podem ser realizadas nos limites da APA. O objetivo do ICMBio é conciliar atividades produtivas com a preservação ambiental, em uma das regiões estratégicas do Nordeste, pela sua biodiversidade e por ser considerada a "caixa d'água do sertão".

Conforme informou a reportagem publicada na edição desta quinta-feira, o documento divide a APA em seis áreas de ordenamento, que variam desde a Zona de Produção até a Zona de Uso Restrito — categoria que representa 0,01% da unidade — destinada à preservação rigorosa de nascentes, encostas e habitats do soldadinho-do-araripe, ave endêmica e ameaçada de extinção.

Nos locais destinados à produção, o ICMBio manteve restrições severas em todo o perímetro da reserva: estão proibidos o cultivo de transgênicos, a pulverização aérea com agrotóxicos e o desmatamento com o uso de "correntões".

As críticas à decisão do ICMBio concentram-se na extensão das áreas dedicadas a atividades produtivas em grande escala e à preocupação quanto ao impacto que isso pode produzir nos recursos naturais e ao risco às comunidades locais. A reportagem do O POVO ouviu um agricultor que participou do conselho consultivo que discutiu o plano de manejo.

Falando sob anonimato, por ter sofrido ameaças, segundo disse, ele declarou que "interesses poderosos" acompanharam de perto a formulação do documento. O agricultor afirmou que o conselho havia pedido restrição à monocultura extensiva e o aumento da reserva legal para 35% de todo o território, que teria sido retirado do texto.

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, avaliou positivamente o resultado do plano. Para ele a "prudência" prevaleceu no texto final, trazendo segurança jurídica aos pequenos e grandes produtores da região.

Agora, definida a situação, é preciso uma fiscalização severa para obrigar a que os requisitos do plano de manejo sejam rigorosamente respeitados, de modo que as atividades econômicas fiquem nos estritos limites estabelecidos pela decisão do ICMBio.

 

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