Resultado do Ideb revela progresso desigual no ensino
Por O Globo
País deve aprender com desempenho dos estados
mais bem colocados, como Ceará, Paraná e Goiás
Anunciado nesta semana, o resultado do Índice
de Desenvolvimento da Educação Básica
(Ideb), principal indicador de qualidade do ensino brasileiro, revela avanços
na comparação com a última medição em 2023. Apesar de o dado geral ser
positivo, porém, o progresso é desigual e insuficiente diante da urgência do
país em área tão fundamental para a economia e o desenvolvimento.
Nos anos iniciais de ensino (1º ao 5º), a média nacional da rede pública subiu de 5,7 para 6,1; nos anos finais (6º ao 9º), foi de 4,7 para 5; no ensino médio, de 4,1 para 4,3. O índice tem dois componentes: taxa de aprovação e resultados em testes de língua portuguesa e matemática (conhecidos pela sigla Saeb). Analisando somente o desempenho nas duas áreas do conhecimento, também houve evolução.
Em muitos estados, as mesmas redes atendem ao
ensino médio e ao fundamental. Mesmo naqueles em que apenas o médio fica a
cargo da administração estadual, o papel dos governadores é decisivo para fazer
o ensino avançar também nos municípios. Por isso, a dois meses da eleição, o
Ideb é uma ferramenta útil para o eleitor avaliar o desempenho dos governos eleitos
em 2022.
No ensino fundamental, os principais
destaques são Paraná, governado por Ratinho Junior (PSD), e Ceará, do
governador Elmano de Freitas (PT). “Ambos os estados apresentaram crescimento
na nota padronizada do Saeb em linha com a média nacional, sugerindo que o
avanço no Ideb está conectado a avanços na aprendizagem”, afirma nota técnica
do Todos Pela Educação. Na administração de Ronaldo Caiado (PSD), Goiás se
manteve entre os três primeiros nos anos finais do fundamental e também no
ensino médio, categoria liderada outra vez pelo Paraná.
Infelizmente, nem todos os governos obtiveram
desempenho satisfatório. Quando eleitos em 2022, Fátima Bezerra (PT), no Rio
Grande do Norte, Fábio Mitidieri (PSD), em Sergipe, Jerônimo Rodrigues (PT), na
Bahia, Clécio Luís (União), no Amapá, e Helder Barbalho (MDB), no Pará, sabiam
que seus estados estavam entre os cinco piores do país nos anos iniciais do
fundamental. Três anos depois, os mesmos cinco permanecem entre os
retardatários — e quatro continuam entre os piores na faixa do 6º ao 9º ano
(Amapá, Sergipe, Bahia e Rio Grande do Norte, ao lado de Roraima). Na educação
fundamental, todas essas administrações foram reprovadas.
No ensino médio, o Distrito Federal, onde
Ibaneis Rocha (MDB) foi eleito em 2022, logrou a proeza de ficar na última
colocação. O Rio de Janeiro continua entre os três piores. Os estudantes da
rede pública fluminense puxam a média brasileira para baixo nos três recortes
da educação básica — isso apesar do aumento nas taxas de aprovação, manobra que
eleva a nota do Ideb. São Paulo, estado mais populoso, caiu de posição na
administração de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Nos testes de língua
portuguesa e matemática, os alunos paulistas dos anos iniciais, finais e do
ensino médio obtiveram notas iguais ou melhores, mas inferiores ao progresso
registrado no país.
É recomendável que os estados com problemas
aprendam com as práticas dos bem-sucedidos. Elas mostram um caminho a seguir
para elevar o nível do ensino em todo o país. E, ao escolher candidatos na
eleição de outubro, os eleitores têm de considerar o desempenho dos respectivos
governadores.
É uma lástima que emendas ainda desafiem
regras de transparência
Por O Globo
Mais de três anos e meio depois do orçamento
secreto, problema essencial persiste e continua a se agravar
Passados mais de três anos e meio da decisão
do Supremo Tribunal Federal (STF) que declarou inconstitucional o mecanismo
apelidado de “orçamento secreto”, as emendas parlamentares continuam a desafiar
regras básicas de transparência no gasto do dinheiro do contribuinte.
Há poucas semanas, uma auditoria do Tribunal
de Contas da União (TCU) constatou “falhas sistêmicas” no envio das emendas que
vão direto ao caixa de municípios e estados, conhecidas como “emendas Pix”.
Numa amostra de cem repasses, 41 não permitiam nenhum controle sobre a
movimentação dos recursos, segundo o TCU. As emendas problemáticas haviam sido
indicadas por 37 deputados e senadores entre 2020 e 2024, num total de R$ 534,4
milhões. O TCU verificou que o uso de diversas contas-correntes dificulta a
rastreabilidade dos recursos. Depois as emendas Pix foram reguladas por
decisões do STF, mas ainda paira sobre todo esse universo de recursos a
suspeita de desvio de dinheiro do Tesouro — e algumas fragilidades ainda
persistem segundo o TCU.
Esperava-se que, com a decisão do STF de
dezembro de 2022, a falta de transparência no uso do dinheiro público fosse
sanada. Sob a relatoria da ainda ministra Rosa Weber, a Corte apontou como
falhas a corrigir: a falta de identificação do parlamentar autor da emenda; a
grande concentração de recursos nas presidências da Câmara, do Senado e nas
cúpulas partidárias; e as dificuldades de rastrear o dinheiro da origem ao
destinatário final. Em vez de resolver o problema, o Congresso passou a
transferir emendas às comissões permanentes das duas Casas e a adotar outras
manobras para manter a opacidade. Nomeado relator depois de assumir a vaga de
Rosa no Supremo, o ministro Flávio Dino tem baixado diversas liminares para
tentar disciplinar essa modalidade de gasto. Até agora, porém, o problema
persiste.
A apropriação de fatias cada vez maiores dos
recursos públicos pelo Congresso não encontra paralelo em nenhuma democracia
que se preze. Num país em que o Orçamento é engessado por pisos constitucionais
em Saúde e Educação, pela folha de servidores e por despesas crescentes com
aposentadorias e pensões, apenas 8% das despesas primárias são destinadas às
políticas públicas e investimentos. Dessa parcela, 23% já são capturados pelas
emendas. Em 2015, eram entre 3% e 4%.
Desde 2015, primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff, a conta das emendas parlamentares passou de R$ 9,6 bilhões para pouco mais de R$ 60 bilhões, crescimento real de aproximadamente 270%, segundo a Instituição Fiscal Independente (incluindo gastos dos ministérios também submetidos aos parlamentares). O Legislativo, em princípio fiscal dos gastos do Executivo, assumiu no Brasil o papel de gestor de despesas, duplicidade de funções que causa ruídos entre Poderes e deteriora a democracia.
Fugir do debate é fugir do eleitor
Por Folha de S. Paulo
Se Lula e Flávio evitarem participar de
encontros, privarão os brasileiros do confronto entre propostas
Flávio diz que irá se Lula estiver presente;
como líder das pesquisas e protagonista da disputa, é o presidente quem deve
dar o exemplo
A possibilidade de os dois principais
postulantes à Presidência, Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
e Flávio
Bolsonaro (PL), evitarem os
debates eleitorais é um péssimo sinal para a democracia
brasileira.
A decisão pode fazer sentido para as
campanhas, mas contraria o interesse público e priva o eleitor de um dos poucos
momentos em que quem pretende governar o país é obrigado a confrontar ideias,
responder perguntas difíceis e defender suas propostas diante dos adversários.
Os debates de hoje estão longe do modelo
ideal. Tornaram-se excessivamente controlados pelas assessorias. Regras
negociadas à exaustão, blocos engessados e intervenções milimetricamente calculadas
buscam expor os candidatos o mínimo possível, reduzindo riscos e improvisos.
Ainda assim, continuam sendo um espaço insubstituível.
Quando há perguntas de jornalistas
profissionais, os candidatos precisam responder a questionamentos
independentes, muitas vezes incômodos, e não apenas repetir mensagens do
marketing.
Quando podem inquirir diretamente os
adversários, revelam diferenças de visão, prioridades, capacidade de
argumentação e preparo para governar. Nada disso aparece com a mesma força em
programas e peças eleitorais.
Seria vergonhoso que, numa das maiores
democracias do mundo, os dois principais concorrentes encontrassem razões para
fugir desse compromisso.
Flávio afirma que só participará se Lula
estiver presente. Sua posição é conveniente, mas transfere ao presidente a
palavra final. Como líder das pesquisas, chefe de Estado e protagonista da
disputa, é Lula quem deve dar o exemplo. Sua presença praticamente decidirá se
haverá debates capazes de mobilizar o interesse do eleitorado.
Os argumentos estratégicos são conhecidos.
Quem lidera teme virar alvo dos adversários; quem aparece atrás prefere evitar
um confronto sem o principal oponente. Faz sentido para os marqueteiros, mas
não para uma eleição presidencial.
Quem se apresenta para comandar um país de
mais de 200 milhões de habitantes não pode escolher apenas os ambientes
confortáveis nem falar somente quando controla as perguntas.
Há um problema ainda mais grave. A campanha
avança sem que os
brasileiros conheçam, de forma substantiva, as propostas dos
dois favoritos para temas centrais, como endividamento público,
segurança, saúde, educação, Previdência
Social, reforma do Estado e política externa.
Os debates não resolvem essa deficiência, mas
são uma das poucas oportunidades para confrontar projetos diante dos eleitores.
Se Lula faltar e Flávio cumprir a promessa de também não comparecer, ambos
prestarão um desserviço à democracia.
O eleitor merece mais do que campanhas
estrategicamente blindadas. Precisa ver os candidatos frente a frente,
defendendo ideias e respondendo por elas.
Limites para a queda dos juros
Por Folha de S. Paulo
Convergência da inflação para a meta depende
da desaceleração econômica e de ajuste nas contas públicas
No exterior, pesam os conflitos no Oriente
Médio e uma eventual alta dos juros nos EUA, que encareceria o financiamento
global
O Copom reduziu a
Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, em decisão unânime.
O movimento, o quarto consecutivo nessa magnitude desde março, quando a taxa
estava em 15%, não trouxe surpresas e sugere a continuidade de um ciclo gradual
de afrouxamento da política monetária.
O comitê evitou sinalizar seus próximos
passos, limitando-se a reiterar que manterá a restrição adequada para levar
a inflação a
patamar ao redor da meta de 3% até o início de 2028.
A tarefa é árdua. O Banco Central projeta
IPCA de 5,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.
Por sua vez, as expectativas de mercado,
coletadas pela pesquisa Focus, permanecem muito distantes da meta, em 5% para
este ano e 4,2% para o próximo. E a inflação acumulada nos últimos 12 meses, de
4,64%, ainda supera o teto do alvo (4,5%), mas os dois últimos resultados do
IPCA deram sinais de acomodação, inclusive na inflação de serviços.
Além disso, o balanço de riscos da inflação
continua assimétrico para cima, segundo o comunicado. Na área externa, os
conflitos no Oriente Médio podem
trazer novos aumentos dos preços de energia. Há também a possibilidade de que o
Federal Reserve, o banco central americano, eleve sua taxa de juros,
pressionando o custo do financiamento global.
No plano doméstico, por outro lado, há
evidências de desaceleração da atividade. A indústria e o varejo mostram perda
de tração, enquanto a inadimplência de famílias e empresas se mantém em
patamares elevados devido ao arrocho dos juros.
No mercado de trabalho, ainda aquecido, os
sinais são incipientes: a criação de vagas pelo Caged tem sido mais modesta, e
as últimas leituras do IBGE apontam
menor pressão sobre os salários.
O cenário, de todo modo, permanece incerto,
sobretudo pela falta de clareza sobre a política econômica após as eleições
presidenciais, em especial
quanto às perspectivas de ajuste fiscal. Sem compromisso crível
nessa área, não haverá convergência sustentável para taxas de juros mais
civilizadas.
O nível atual de aperto é insustentável, pois
onera de forma crescente a dívida pública e comprime cada vez mais os tomadores
de crédito, já pressionados por alto endividamento.
Diante desse quadro, a perspectiva mais provável é a continuidade de cortes graduais nas próximas reuniões, que podem levar a Selic a patamar ainda elevado, entre 13% e 13,5%, até o final do ano, a depender da evolução da inflação e da atividade.
Marcola é Lula
Por O Estado de S. Paulo
Com a chave de acesso ao presidente, Marcola
não tem existência própria para explicar, sozinho, por que recebeu dinheiro de
uma lobista. Quem deve satisfação ao País é o chefe dele
O sr. Marco Aurélio Santana Ribeiro, vulgo
“Marcola”, é um zé-ninguém que só existe como extensão do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, de quem foi o mais próximo assessor no Palácio do
Planalto e a quem devota lealdade canina. Por isso, as suspeitas que recaem
sobre ele não podem ser tratadas como um problema circunscrito à esfera privada
de um assessor qualquer. Marcola admitiu ter recebido, a título de
“empréstimo”, R$ 249 mil de Roberta Luchsinger, lobista com interesses diretos
junto ao governo federal e que tem relações com um dos suspeitos de liderar o
esquema de assalto aos aposentados do INSS, o empresário Antônio Camilo
Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Marcola é o segundo sujeito muito próximo de
Lula a se ver envolvido em obscuros negócios com a sra. Luchsinger. O primeiro,
como se sabe, é Fábio Luís Lula da Silva, vulgo “Lulinha”, o filho mais velho
do presidente e que é amigão da lobista. Portanto, Lula não pode dizer
simplesmente que não sabia de nada, terceirizando a responsabilidade a
“aloprados” – termo que Lula usou na campanha eleitoral de 2006 ao se referir a
petistas que tentaram comprar um dossiê contra seu adversário José Serra.
Como chefe de gabinete de Lula até poucas
semanas atrás, Marcola controlava pessoalmente o acesso – inclusive físico – ao
presidente. Consta que Lula nem sequer possui celular próprio, valendo-se
inúmeras vezes do aparelho de seu assessor pessoal para se comunicar ou ser
alcançado por interlocutores. Nada do que diz respeito a Lula, nem mesmo sua
relação com parentes, amigos e políticos, passava ao largo do crivo de Marcola.
E é justamente esse guardião das chaves de acesso ao poder maior da República
que aparece agora enredado em uma investigação da Polícia Federal sobre as
fraudes no INSS.
Convém explicar aos distintos leitores quem é
essa figura. Formado em Ciências Sociais, Marcola passou por gabinetes na
Assembleia Legislativa de São Paulo e na Câmara dos Deputados antes de se
aproximar de Lula no Instituto Lula, há cerca de dez anos. Quando Lula foi
preso, Marcola paralisou a própria vida para ir viver em Curitiba entre os
apoiadores do petista que levantaram acampamento nos arredores da sede da
Polícia Federal (PF) na capital paranaense. Foi ali que Marcola fortaleceu sua
relação de intimidade com Lula na base da devoção religiosa.
Para defender o sabujo, Lula saiu-se com
esta: “Quem nunca pediu um empréstimo para um amigo?”. De fato, ninguém está
livre de passar por um aperto financeiro na vida, mas por que não recorrer a
uma instituição bancária, como faz a esmagadora maioria dos cidadãos em
dificuldade? Se o objetivo era recorrer a uma pessoa física, entre todos os 200
milhões de brasileiros disponíveis, por que Marcola escolheu como mutuante
justamente uma notória lobista com interesse direto em acessar autoridades do
governo federal para defender negócios de seus clientes – acesso este que
passava pelo crivo do próprio mutuário?
Há boas razões para os cidadãos suspeitarem
que o tal repasse não foi empréstimo coisa nenhuma. O jornal Valor revelou que a sra.
Luchsinger chegou a pagar contas pessoais de Marcola como contrapartida à
liberação de acesso da lobista ao ex-secretário-executivo do Ministério da
Saúde Swedenberger Barbosa. Onde já se viu empréstimo em que o credor banca a
vida cotidiana do devedor? E mais: Marcola só devolveu o dinheiro depois de ser
avisado, pasme o leitor, de que suas conversas com a lobista haviam sido
descobertas pela PF, no âmbito da investigação que corre contra ela por
suspeita de participação nas fraudes do INSS. Quem o avisou? Essa pergunta tem
de ser respondida por Lula e Marcola urgentemente.
Lula se jacta do fato de a PF ser
independente em seu governo para investigar quem quer que seja, como se isso
fosse concessão sua, não imperativo legal. Ora, que a PF investigue os fatos
com absoluta isenção e rigor técnico é o mínimo que se espera. Mas Lula não
pode se escudar nessa bravata, de resto ociosa, para se eximir da
responsabilidade que lhe cabe nesse rolo por ter premiado a subserviência de um
obscuro campista com a chave do Gabinete Pessoal da Presidência da República.
Sem perspectiva de juros baixos
Por O Estado de S. Paulo
Se a Selic cairá em setembro, não se sabe,
mas é certo que seguirá elevada. Uma redução estrutural da taxa depende de um
ajuste fiscal, tema proibido entre candidatos à Presidência
Depois da confusão causada em junho, o Banco
Central (BC) optou pela concisão ao reduzir a taxa básica de juros em 0,25
ponto porcentual, para 14% ao ano. Não houve surpresas em relação à decisão,
que já era amplamente esperada pelo mercado financeiro, mas o curto comunicado
divulgado após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), ainda que não
tenha sinalizado claramente quais serão os próximos passos a serem adotados, ao
menos não abriu margem para contradições.
De fato, são tantas as incertezas que parece
prudente deixar todas as possibilidades em aberto até a próxima reunião, em
setembro. No exterior, a duração dos conflitos no Oriente Médio permanece uma
incógnita. Já no mercado doméstico, há alguns sinais de que a economia perdeu
força, a despeito de todas as medidas eleitoreiras que o governo Lula lançou
nos últimos meses.
Sobre isso, o BC não dourou a pílula, ao
reconhecer que os “desenvolvimentos da política fiscal” impactam a política
monetária e os ativos financeiros e reforçam incertezas. Manteve, também, a
menção a “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo,
que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto
potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política
monetária”.
Entre os analistas, há quem veja motivos de
sobra para continuar a reduzir a Selic, assim como há quem avalie que o espaço
para cortar os juros se exauriu. O fato é que há uma grande diferença entre as
projeções de inflação para o primeiro trimestre de 2028 – o chamado “horizonte
relevante”, que guia as decisões do Copom. Para o BC, elas continuam em 3,2%;
para o mercado financeiro, segundo a última edição do Boletim Focus, elas estão
em 3,8%. De qualquer forma, ambas permanecem acima do centro da meta, de 3%.
O balanço de riscos que o BC avalia para
tomar suas decisões também continua assimétrico, ou seja, com mais chances de a
inflação subir do que cair. Além da guerra, das medidas do governo e das
expectativas de inflação, permanecem os potenciais efeitos do Super El Niño na
produtividade do agronegócio e as pressões do setor de serviços na inflação. Na
outra ponta, figuram a desaceleração da economia no País e no exterior e a
redução nos preços das commodities.
A ata da reunião, a ser divulgada na próxima
semana, pode ajudar a dissipar algumas dúvidas sobre o cenário, mas é
improvável que traga sinalizações mais explícitas sobre a visão do BC.
Escaldado pelos ruídos da reunião anterior, o Copom parece decidido a
incorporar o estilo lacônico que o banco central norte-americano adotou sob a
direção de Kevin Warsh, que assumiu o Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês)
em maio deste ano, sob as bênçãos do presidente dos EUA, Donald Trump.
Uma coisa é evitar se comprometer com
decisões futuras sobre os juros, o que os bancos centrais têm todo o direito de
fazer, sobretudo em momentos de tanta instabilidade. Outra, bem diferente, é
tomar uma decisão em um sentido quando os dados indicam o oposto. O problema,
nesse caso, não foi excesso de informação, mas falta de coerência, algo crucial
para a credibilidade das instituições.
De um lado, a desaceleração da inflação nos
últimos dois meses, por exemplo, está bastante relacionada às ações para conter
os preços dos combustíveis e ao comportamento dos alimentos, que costuma recuar
nessa época do ano. Do outro, as medidas para expandir o acesso ao crédito
lançadas pelo governo mal começaram a fazer efeito, e o Executivo já cobrou que
os bancos públicos abram o cofre e flexibilizem restrições para os
encalacrados.
Se os juros cairão ou não em setembro, não se
sabe, mas é certo que eles seguirão em nível muito elevado. Uma redução
estrutural da Selic depende, necessariamente, de um duro ajuste fiscal, algo
sobre o qual nem o presidente Lula nem os candidatos da oposição querem falar
neste momento. Enquanto isso não ocorrer, as contas públicas permanecerão
desequilibradas, a trajetória da dívida continuará com viés de alta e a
inflação seguirá sob pressão, razão pela qual não há motivo para esperar taxas
mais civilizadas.
Parente não é suplente
Por O Estado de S. Paulo
Suplência familiar transforma um mandato
público de senador em patrimônio privado
Pré-candidata ao Senado pelo Distrito
Federal, Michelle Bolsonaro (PL) deve colocar o irmão, Diego Torres, como
suplente. No Piauí, o senador Ciro Nogueira (PP), que já teve a própria mãe
como sua substituta, agora pretende lançar o irmão, Raimundo Nogueira, para a
mesma função. A suplência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP),
também é consanguínea. Seu irmão Josiel Alcolumbre ocupa o posto de primeiro
suplente. Todos os casos estão dentro da lei. Mas revelam uma excrescência da
democracia brasileira: a transformação da suplência do Senado em um negócio de
família.
Há ainda outros exemplos. Também
pré-candidata ao Senado pelo DF, a deputada Bia Kicis (PL-DF) lançou o filho
Samuel para sua suplência. Policial militar da reserva, o senador Styvenson
Valentim (Podemos-RN) confirmou a irmã Anne Kelly para a função. No passado
recente, a mulher do senador Eduardo Braga (MDB-AM), Sandra Braga, já foi sua
suplente e chegou a assumir mandato no Senado Federal em 2015. A lista é
grande.
O problema não é apenas a lei permitir esse
arranjo. Nada obriga um candidato a transformar a suplência em assunto de
família. É uma escolha. O pior é que a política brasileira transformou essa
permissão em licença para distribuir mandatos entre parentes. O eleitor imagina
estar escolhendo um senador, mas, como é obrigado a votar no pacote fechado,
pode acabar representado pelo irmão, pela mãe, pelo filho ou pelo cônjuge do
candidato em quem votou. Em nenhum outro cargo eletivo essa naturalização do
parentesco é tão escancarada.
Imagine-se, por um instante, que ministros de
Estado, governadores ou prefeitos anunciassem a intenção de deixar seus cargos
para parentes. A justa indignação seria imediata. No Senado, porém, esse
expediente foi incorporado à rotina política.
Os mesmos políticos que costumam defender
rigor ético na administração pública, condenar privilégios e exigir respeito
aos princípios da moralidade não enxergam qualquer constrangimento em reservar
uma cadeira no Senado aos próprios parentes. A vida pública exige mais do que o
estrito cumprimento da lei. Nem tudo o que é legal é compatível com a
responsabilidade de representar milhões de eleitores.
O Congresso sabe, há anos, que esse modelo é
indefensável. Em 2013, o Senado aprovou uma proposta de emenda à Constituição
que proíbe a escolha de parentes como suplentes e reduz seu número de dois para
um. Desde então, a matéria permanece convenientemente esquecida na Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, parada juntamente com outras propostas
similares.
Não faltam projetos. Falta vontade política
para aprovar uma regra que atingiria justamente muitos dos parlamentares
encarregados de votá-la.
A política brasileira já convive com dinastias familiares em excesso. Mandato não é herança, nem patrimônio de família. Quem trata uma cadeira no Senado como extensão da própria árvore genealógica pode até estar amparado pela lei, mas dificilmente honra o espírito republicano que deveria orientar a vida pública.
Planalto deve ter frieza ante provocações de
Trump e Milei
Por Valor Econômico
O clima eleitoral no Brasil não favorece posições sóbrias, especialmente quando os dois candidatos podem ganhar pontos junto aos eleitores com a exploração da disputa diplomática
O governo brasileiro não conta com a menor
simpatia do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nem de seus fervorosos
adeptos na América Latina, entre os quais se destaca o mandatário argentino,
Javier Milei. São dados da realidade com os quais o Planalto terá de conviver
da melhor e mais serena maneira possível, buscando preservar certos pontos
vitais: EUA e Argentina são o segundo e o terceiro maiores parceiros comerciais
do país. O clima eleitoral no Brasil não favorece posições sóbrias, especialmente
quando os dois candidatos podem ganhar pontos junto aos eleitores com a
exploração da disputa diplomática. Pela primeira vez nas eleições presidenciais
desde a redemocratização, há interferência externa na disputa. Apesar de tudo,
candidatos e presidentes passam, o Brasil fica. A diplomacia busca construir
marcos de atuação com solidez temporal que contemplem essas circunstâncias.
A ofensiva contra o Brasil, que parte da Casa
Branca, está sendo instrumentalizada com alarido pelo secretário de Estado dos
EUA, Marco Rubio, que tem ambições de suceder a Donald Trump na Presidência,
chance ampliada pelo baixo perfil de atuação do vice-presidente, J. D. Vance.
Rubio deixou muito claro em declarações recentes que o Brasil não está na lista
dos aliados americanos no continente e age de acordo. O caso do embaixador
Daniel Perez foi uma provocação evidente. Não houve respeito à praxe consagrada
de enviar previamente e em sigilo o nome do escolhido para o “de acordo” do
governo brasileiro, nem decorreu um prazo extenso (a indicação foi no começo de
junho) para que o governo brasileiro pudesse ser acusado de protelação
intencional por motivos ideológicos.
Os pretextos têm que ser levados em conta no
contexto de antagonismos. Um enviado do Departamento de Estado, o assessor
Darren Beattie, teve seu visto revogado depois de pretender, sem fazer parte
dos objetivos oficiais de sua vinda ao Brasil, visitar o ex-presidente Jair
Bolsonaro, em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de
Estado. Dois outros enviados tiveram a mesma sorte, e o jornal Washington Post
publicou que pretendiam avaliar o sistema eleitoral brasileiro. Em função
dessas recusas, a Casa Branca retirou o visto da embaixadora brasileira em
Washington, Maria Luiza Viotti, em uma ação sem precedentes na história das
relações entre os dois países.
O governo brasileiro deveria comunicar
claramente aos EUA o que não permitiria que seus enviados fizessem. Quanto aos
caçadores de irregularidades eleitorais, poderia tê-los deixado seguir seus
roteiros, porque os argumentos de fraudes com urnas eletrônicas são um velho e
ineficaz discurso bolsonarista, que mal serve de motivo, embora o governo
americano possa inventar qualquer pretexto para agir contra o país.
Interferências do tipo são constantes e mudam
de sinal de acordo com preferências políticas. Durante a ditadura militar, o
governo de Jimmy Carter fez várias incursões para ouvir representantes de
movimentos de oposição no país. Antes de Carter visitar o Brasil, em 1978, sua
esposa Rosalynn, um ano antes, se encontrara com Dom Paulo Evaristo Arns e se
informara sobre a existência de tortura a presos políticos. As visitas tiveram
efeitos políticos relevantes no desgaste do regime, ao contrário do que possam
provocar relatos sobre urnas eletrônicas feitos por emissários americanos
enviesados. Eles não precisariam ter sido importunados em sua missão inócua.
Ataques perfunctórios vieram também da
vizinha Argentina. As diatribes de Milei contra Lula são velhas e sua
participação na convenção de Flavio Bolsonaro, para apoiá-lo, nada conta de
novo. Milei já havia faltado a uma reunião de Cúpula do Mercosul em 8 de julho
de 2024 para participar de uma conferência de ação conservadora na companhia do
ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos. A preferência eleitoral, pelo
manual diplomático, não deve ser manifesta nas relações bilaterais, mas o PT e
os presidentes eleitos pelo partido nunca deixaram de manifestar predileção por
candidatos peronistas, e Lula visitou Cristina Kirchner após condenação dela
por corrupção, além de a isentar de culpa.
Os ataques de Trump e Milei não deixarão de
ocorrer e possivelmente se intensificarão durante o período eleitoral. Os
interesses da campanha eleitoral de Lula deveriam ser apartados dos interesses
do presidente da República, que representa os da nação. O esfriamento
praticamente inevitável das relações políticas não deveria contaminar os demais
elos do convívio entre países, em especial os comerciais, que precisam ser
preservados. Há hoje um esforço de convencimento, com apoio de empresários
americanos, para suavizar ao máximo possível as tarifas punitivas e injustas de
Trump aplicadas ao Brasil. Os arroubos de Milei não têm afetado as transações
entre as duas maiores economias do Mercosul e deveriam ser objeto de notas de
repúdio firmes, acompanhadas de elegante indiferença em relação a ofensas
previsíveis.
Alvo de constante pressão diplomática, mais ou tão grave como a do Brasil, a esquerdista Claudia Scheinbaum, presidente do México, tem exercido com maestria a arte de resistir às investidas de Trump, sem rompantes retóricos e com manobras diplomáticas defensivas bem calibradas. Sua receita, de altivez e sobriedade, deveria valer também para o Planalto.
A tela que não desliga em casa
Por Correio Braziliense
As escolas e os professores têm papel
fundamental ao frear a invasão dos dispositivos no momento do estudo, mas não
têm prerrogativa nem meios de reeducar as famílias
A escola sempre foi o lugar em que a
sociedade delega o que não sabe resolver em casa. Foi assim com a educação
sexual, com a saúde alimentar, com o bullying. Desta vez, é a vez das telas.
Afinal, a coincidência entre a explosão do uso de smartphones e a deterioração
do bem-estar juvenil deixou de ser uma hipótese para se tornar um consenso
científico. A questão agora não é mais se as telas fazem mal. É o que fazer a
respeito.
A pesquisa TIC Educação 2025, lançada nesta
semana pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da
Informação (Cetic.br), ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, com base
em entrevistas com mais de 2,4 mil gestores escolares, revela um dado que
merece atenção: oito em cada 10 escolas brasileiras já incluíram em sua agenda
o debate sobre o impacto das tecnologias digitais na saúde mental dos
estudantes. O número representa um salto de 18 pontos percentuais em apenas um
ano e reflete uma realidade áspera: as instituições de ensino estão tentando
administrar os sintomas de uma crise comportamental que ultrapassa seus muros.
A restrição do uso de celulares nas salas de aula, que começou no início do ano
passado, foi uma medida necessária e correta. Tratar esse banimento como
solução definitiva, no entanto, é uma perigosa ilusão.
Impedir a presença de smartphones durante o
turno letivo estanca a desatenção imediata e força o convívio social no pátio.
Contudo, o esforço pedagógico esbarra no vácuo de limites quando, ao fim das
aulas, o aluno retorna a um ecossistema doméstico de telas irrestritas, muitas
vezes utilizadas como ferramentas de conveniência por adultos exaustos em busca
de silêncio. Os efeitos colaterais desse hiperestímulo traduzem-se em distúrbios
crônicos de sono, ansiedade, apatia física e deficit de aprendizado. Confiscar
o aparelho por algumas horas passa longe de ser solução.
A pesquisa do Cetic.br indica que o ambiente
escolar tenta assumir esse protagonismo. Em 2025, 75% dos gestores convocaram
pais e responsáveis para discutir o impacto das tecnologias, ante 60% no ano
anterior. O debate sobre o uso seguro e crítico dos recursos digitais saltou de
56% para 75% nas pautas escolares. Há, porém, um gargalo estrutural. As ações
preventivas são profundamente desiguais: prevalecem nas escolas urbanas e
naquelas com melhor infraestrutura de conectividade, deixando as regiões mais
vulneráveis duplamente expostas.
O dado mais revelador da pesquisa, porém,
está nos obstáculos: 75% dos gestores que realizam ações de educação digital
apontam a baixa participação das famílias como o principal entrave. É um
diagnóstico que aponta onde o problema realmente mora. As escolas e os
professores têm papel fundamental ao frear a invasão dos dispositivos no
momento do estudo, mas não têm prerrogativa nem meios de reeducar as famílias.
A terceirização da disciplina digital para o corpo docente é uma omissão cujos
custos já estão sendo cobrados no desenvolvimento das novas gerações.
O poder público pode formular diretrizes e a escola deve aplicar restrições rigorosas. Mas o exercício prático da moderação e o monitoramento de conteúdo são deveres indelegáveis de quem cria. A proteção da integridade mental dos jovens não será garantida apenas por regimentos escolares. A linha de defesa contra os excessos do mundo digital precisa, obrigatoriamente, começar dentro de casa.
Lei Maria da Penha completa 20 anos
Por O Povo (CE)
Depois de duas décadas da vigência da lei, é
preciso que o poder público se empenhe ainda mais para aperfeiçoar os
mecanismos de proteção às mulheres
Os 20 anos da Lei Maria da Penha, sancionada
no dia 7 de agosto de 2006 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
provocaram mudanças significativas para aumentar a proteção das mulheres e
também para punir mais severamente os agressores. Com a lei, a violência
doméstica deixou de ser tratada como uma questão particular, que dizia respeito
somente à família, com a proteção das vítimas passando a ser obrigação do
Estado.
Como registrou a reportagem publicada na
edição desta quinta-feira, assinada pela jornalista Lara Vieira, ao longo
dessas duas décadas, a lei nº 11.340 impulsionou a criação de uma rede de
proteção às mulheres que antes não existia ou era extremamente precária.
Antes da Lei Maria da Penha, como explicou ao
O POVO a defensora pública Jeritza Braga, supervisora do Núcleo de
Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Defensoria Pública do Estado do
Ceará, o tratamento relativizava a gravidade das agressões.
"As mulheres vítimas de violência
doméstica tinham seus casos tratados como crimes comuns, a exemplo de uma lesão
corporal leve. Muitas vezes, a demanda tramitava em um Juizado Especial Cível e
Criminal, antigamente conhecido como Juizado de Pequenas Causas. Isso demonstra
a redução da gravidade com que o tema era tratado."
Mas, apesar dos avanços no apoio às mulheres
a violência doméstica não cede. Somente entre janeiro e junho de 2026 foram
registrados 13.210 crimes contra a mulher no Ceará, segundo dados da Secretaria
da Segurança Pública e Defesa Social. Considerando-se o ano de 2025, foram
26.897 casos, índice 42% maior do que o registrado cinco anos antes, em 2021,
com 18.889 ocorrências.
Além disso, em todo o Brasil, incluindo o
Ceará, aumenta o número de feminicídios, o assassinato de mulheres pela sua
condição feminina. Em 2025, foram 1.571 vítimas desse tipo de crime no País, o
maior número da série histórica, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança
Pública. Ou seja, quatro mulheres são mortas por dia devido à sua condição de
gênero.
A questão levanta o debate sobre os limites
da legislação para garantir a proteção das mulheres. Especialistas ouvidos pela
plataforma de notícias DW afirmam que a resposta passa por uma combinação de
fatores. A legislação criou instrumentos importantes para responsabilizar
agressores e oferecer proteção às vítimas, mas sua efetividade depende de uma
estrutura pública que ainda não funciona por completo no país.
Portanto, depois de duas décadas da vigência da Lei Maria da Penha, é preciso que o poder público se empenhe ainda mais para aperfeiçoar os mecanismos de proteção às mulheres. Ao mesmo tempo, neste período eleitoral insistir para que os candidatos, ao Executivo e Legislativo, priorizem em seus programas de governo propostas para erradicar a violência que continua a atingi-las.

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