Não é um empréstimo qualquer
Por Folha de S. Paulo
Lula relativiza a gravidade do caso
envolvendo seu ex-chefe de gabinete, que pediu dinheiro a lobista
Cabe ao líder do Executivo fixar os limites
éticos entre o tolerável e o inaceitável na conduta da alta administração
pública
Empréstimos já ocuparam lugar de destaque na
política brasileira. Em 1992, a chamada Operação Uruguai tentou justificar a
origem dos recursos que sustentavam o alto padrão de vida do então presidente
Fernando Collor. A versão fracassou e virou símbolo de uma explicação que
desperta mais dúvidas do que esclarecimentos.
Cada caso tem particularidades, mas a experiência requer cautela com contratos de mútuo.
Compra e venda de imóveis também podem
cumprir esse papel, como nos negócios do senador Jacques Wagner (PT-BA): um terreno
declarado por R$ 28 mil ao TSE em 2018 foi vendido por R$ 13,8 milhões, e um
apartamento declarado por R$ 1,7 milhão em 2022, por R$ 10 milhões.
Permanecem, portanto, dúvidas sobre eventuais
relações de Wagner com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a quem Flávio
Bolsonaro (PL) recorreu em busca de financiamento para um filme sobre o pai,
Jair.
Foi essa
cautela que o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) deixou de demonstrar ao dizer que "todo mundo pega
empréstimo" ao comentar o caso de seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio
Ribeiro, o Marcola.
Ninguém questiona a normalidade de um
empréstimo. O problema é que Marcola, então responsável pelo controle da agenda
e do acesso ao gabinete presidencial, recebeu R$
249 mil de Roberta Luchsinger, lobista que registrou dezenas de entradas
no Planalto e em ministérios e é investigada pela Polícia
Federal.
Era esse vínculo, não o contrato entre as
partes em si, que exigia firmeza do mandatário.
É elogiável a saída de Marcola da equipe de
campanha à reeleição de Lula, que mostra compreensão sobre a gravidade política
do episódio. A alegação de que foi um empréstimo, já quitado, será examinada
pelas autoridades.
No plano político, porém, ela não basta. A PF
investiga a atuação direta de Roberta em apurações sobre fraudes no INSS e
a aproximação de outros suspeitos com o governo federal.
A empresária também é amiga de Fábio Luís
Lula da Silva, o Lulinha,
alvo de inquéritos no STF por suposto
tráfico de influência —acusações que ele nega.
Nada disso comprova favorecimento ilícito.
Mas revela perigosa zona cinzenta no cerne do Poder Executivo, o que é
repreensível.
O chefe de gabinete da Presidência é o guardião
dos bastidores do poder; não pode manter transações privadas com quem tem
trânsito livre em Brasília e está sob escrutínio policial.
Lula acerta ao defender a autonomia da PF.
Mas a liderança do Estado não se limita ao Código Penal. Cabe ao chefe do
Executivo estabelecer a fronteira entre o tolerável e o inaceitável na alta
administração.
Ao minimizar o episódio do empréstimo, Lula
emite um sinal equivocado sobre os limites da ética pública. Proteger as
instituições exige afastar conflitos de interesse antes que eles se convertam
em casos de polícia.
Golpes em alta
Por Folha de S. Paulo
Enquanto casos de roubos e furtos diminuem,
os de estelionato aumentam com expansão da digitalização
É preciso modernizar a investigação policial;
mesmo com 2,2 milhões de casos de estelionato em 2025, apenas 4,1 mil pessoas
foram presas
Embora roubos
e furtos atormentem a vida de muitos brasileiros, foi o estelionato
que mais cresceu entre os crimes contra o patrimônio privado. Trata-se de uma
pulverização do golpe no país, seja por meios de comunicação, como mensagens
pelo telefone ou pela internet, seja presencialmente, como o esquema da máquina
falsa de cartão de crédito.
É o que revela a 20ª edição do Anuário Brasileiro
de Segurança Pública, publicada em julho.
Enquanto as ocorrências de roubos
convencionais (de veículos, residências, estabelecimentos comerciais e contra
transeuntes) diminuíram 18,3% entre 2024 e 2025, houve aumento de 3,1% nos
casos de estelionato no mesmo período —desde o início da série histórica, em
2018, verifica-se
um salto de 429%.
São Paulo possui a maior quantidade absoluta
de casos (833 mil) e a maior taxa por 100 mil habitantes (1.808). Ao lado de
Rio de Janeiro e Ceará, o estado não disponibilizou dados sobre fraudes
praticadas por meio digital.
Distrito Federal e Paraná vêm em seguida em
números proporcionais às suas populações. Paraíba (248,7), Mato Grosso do Sul
(412,4) e Maranhão (467,4) apresentam as menores taxas do país.
Há um risco de subnotificação desse tipo de
crime, que até o início deste ano ainda exigia representação da vítima para dar
prosseguimento à ação penal.
Em maio, Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
sancionou uma lei, oriunda de projeto do deputado Kim Kataguiri (Missão-SP),
que permite a investigação pelo Ministério Público sem a necessidade de
representação da vítima e inclui crimes como ceder a conta bancária para a
prática de golpes.
O poder público precisa conter a impunidade,
que estimula a prática criminosa. Mesmo com um total de 2,2 milhões de casos em
2025, apenas 63,7 mil ações penais foram instauradas pelos Ministérios Públicos
estaduais no período e só 4,1 mil pessoas foram encarceradas pelo delito,
incluindo presos provisórios.
As dificuldades no combate ao estelionato
estão relacionadas aos obstáculos
enfrentados pela área de investigação no país. Faltam recursos e
capacitação técnica a policiais civis. É preciso modernizar protocolos e
expandir as delegacias especializadas.
Seguir o fluxo do dinheiro ilícito exige
ações de inteligência —97% dos estelionatos relatados às polícias não chegam à
Justiça.
Golpistas adaptaram fraudes para tempos de alta bancarização e digitalização. Ou as polícias, Ministérios Públicos e o Judiciário se atualizam, ou a população seguirá à mercê do crime.
A diplomacia a serviço do ego de Lula
Por O Estado de S. Paulo
A provocação de Milei merecia resposta, mas
Lula transformou um protesto legítimo em retaliação desproporcional e
hipócrita, subvertendo a diplomacia em instrumento de marketing eleitoral
O presidente argentino Javier Milei deu ao
Brasil razão suficiente para uma resposta firme. Veio ao País participar do
lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro e, ao lado do adversário de Luiz
Inácio Lula da Silva, chamou o presidente de “presidiário” e o ministro do
Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca”. O Itamaraty
convocou o embaixador Julio Bitelli e comunicou seu protesto ao representante
argentino. Até aí, defendeu uma fronteira elementar entre a disputa política
brasileira e a conduta esperada de um chefe de Estado estrangeiro em relação a
autoridades nacionais. Agora, o governo decidiu que Bitelli não voltará a
Buenos Aires e rebaixou a relação ao nível de encarregado de negócios.
As duas decisões brasileiras não se
confundem. A convocação registrava a gravidade da ingerência e oferecia uma
resposta proporcional, com espaço para a normalização. Manter o embaixador fora
do posto por tempo indeterminado exige uma justificativa adicional. O governo
tem o direito de pressionar Milei, mas o instrumento diplomático só faz sentido
se procurar modificar sua conduta. Até agora, Brasília não explicou o que
espera de Buenos Aires nem como saberá que a medida funcionou.
Milei deve pedir desculpas ou apenas abster-se
de novas intervenções partidárias? Quem avaliará o cumprimento de uma eventual
condição? Nenhuma resposta, nenhum prazo e nenhum critério de revisão foram
apresentados. A represália fica sujeita ao calendário eleitoral e às
provocações do presidente argentino. Cada novo ataque eleva o custo político de
Lula recuar; perto da eleição, o retorno de Bitelli poderá ser vendido como
capitulação. O governo criou para si uma posição da qual só consegue sair
pagando um preço definido por Milei.
Seria uma imprudência menor se estivesse em
jogo uma formalidade protocolar. A embaixada continua aberta, e os contatos
técnicos prosseguem, mas um encarregado de negócios não tem o acesso político
nem a autoridade de um embaixador para levar impasses aos centros de decisão.
Essa perda ocorre numa relação que dispensa dramatização para revelar sua
importância. A Argentina é um dos maiores mercados do Brasil, sobretudo da
indústria. Divergências comerciais e energéticas, muitas delas negociadas no
âmbito do Mercosul, às vezes requerem intervenção política.
O chefe de Estado brasileiro reduziu o acesso
do País em Buenos Aires. Seria um custo aceitável se houvesse um ganho
correspondente. Como Brasília não o identifica, a utilidade mais visível da
crise aparece na política doméstica. Milei oferece aos marqueteiros petistas um
antagonista ligado a Jair Bolsonaro e Donald Trump, conveniente para converter
Lula em um vingador da “soberania”. O argentino também lucra ao representar
Lula como líder do socialismo regional. Os dividendos são recíprocos, mas as
responsabilidades são distintas: Milei responde pela provocação, enquanto Lula
responde pelo emprego da representação brasileira numa disputa que rende mais
no palanque do que na diplomacia.
A invocação da soberania esbarra ainda na
seletividade malandra do lulopetismo. Lula visitou a ex-presidente argentina
Cristina Kirchner, então em prisão domiciliar por corrupção, sugerindo que ela
era vítima de perseguição política. Nem por isso a Argentina rebaixou a relação
do Brasil. Também apoiou o peronista Sergio Massa na eleição argentina de 2023
contra Milei. É evidente que isso não autoriza Milei a intervir na campanha
brasileira, mas mostra que Lula exige de um adversário a reserva que ele mesmo
dispensa diante de aliados.
O governo deveria devolver Bitelli a Buenos
Aires. Se entende que o afastamento serve ao País, deve declarar qual resultado
pretende alcançar, em que prazo o revisará e qual conduta argentina permitirá
encerrá-lo. Firmeza diplomática se mede pela proteção dos interesses nacionais,
não pela duração do protesto. Enquanto mantiver uma represália sem finalidade
pública, Lula concederá a Milei influência sobre o nível da representação
brasileira e reduzirá os instrumentos disponíveis para lidar com ele.
É bem claro como os interesses e o ego de
Lula são bem servidos pela represália. Como ela serve ao Brasil, é coisa que
ninguém até agora soube explicar.
O BC precisa agir no caso BRB
Por O Estado de S. Paulo
Enquanto o BC parece omisso, o governo do DF
abusa da desfaçatez e acusa União e Fundo Garantidor de Créditos de inércia por
não salvarem o moribundo banco estatal
Em vez de divulgar seus resultados
financeiros, coisa que não faz há quase um ano, o Banco de Brasília (BRB), por
meio de seu controlador, o governo do Distrito Federal, segue sua cruzada da
insensatez para tentar forçar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a lhe
conceder um empréstimo de R$ 6,6 bilhões.
Os bancos sócios do FGC relutam, com toda a
razão, em dar crédito a uma instituição cujo buraco, de valor ainda
desconhecido, é certamente gigantesco – circulam estimativas de até R$ 12
bilhões. Por isso, o DF achou por bem recorrer mais uma vez ao ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, que em maio viabilizou um insólito
acordo para que o BRB conseguisse os R$ 6,6 bilhões do FGC. A nova audiência
está agendada para 13 de agosto.
O grau de desfaçatez do DF é espantoso.
Queixando-se de inércia do FGC e da União, que faz muito bem em não usar o
dinheiro do contribuinte para salvar uma instituição que escolheu se associar
ao criminoso Banco Master, o governo distrital alega que faz a sua parte,
enquanto os demais não.
Mas o BRB não faz a sua parte, porque não
divulga seu balanço e, assim, não revela o tamanho real de seu enrosco. Além
disso, o BRB também não teve sucesso na transferência de R$ 15 bilhões em
ativos do Master para a Quadra Capital, com o qual pretendia recuperar ao menos
R$ 4 bilhões. Se não tem culpa da associação criminosa com o Master, a atual
gestão do BRB tampouco demonstrou qualquer capacidade de encontrar saídas para
o banco. O que dizer de uma administração que há quase um ano não divulga
resultados?
Ademais, nem o FGC nem ninguém é obrigado a
dar empréstimo a quem quer que seja, como o governo do DF parece imaginar,
muito menos com base em garantias irreais.
Pelos termos do acordo para o empréstimo
homologado pelo STF, recursos futuros dos Fundos de Participação dos Estados
(FPE) e dos Municípios (FPM) são a contragarantia que o DF oferece ao FGC em
caso de um calote. Ocorre que tais recursos financiam a educação, a saúde e até
mesmo o salário dos servidores, sendo facilmente passíveis de judicialização.
Dito de outro modo, os bancos não contam com garantias sólidas para emprestar
ao BRB.
Mas se nem a União nem o FGC estão inertes, o
quadro muda de figura quando se trata do Banco Central (BC). Mesmo diante de
relatos de que recursos do Tesouro do DF são mantidos no caixa do BRB para
sustentar a liquidez da instituição financeira regional, o BC segue incompreensivelmente
parado.
A esta altura dos acontecimentos, é evidente
que não existe solução sem dor para o BRB. A inação, contudo, não fará com que
as prováveis feridas simplesmente se fechem. Ao contrário, só posterga e amplia
o tamanho do estrago.
Nesse sentido, soa estranha a preocupação do
Ministério da Fazenda de que a liquidação do BRB pode levar a um rombo de R$ 17
bilhões no FGC, ainda recuperando-se do resgate de mais de R$ 50 bilhões
relacionado ao conglomerado Master. Protelar ao menos uma intervenção no BRB,
como o BC vem fazendo, não impedirá resgates futuros do FGC.
Por isso mesmo, tanto pior a coerção
patrocinada pelo governo do DF para que o fundo lhe conceda um empréstimo
bilionário que o próprio mercado vê como insuficiente para salvar o BRB, que ao
que tudo indica já ultrapassou há muito tempo o ponto de não retorno.
Também é absurdo manter o BRB sangrando em
praça pública porque o banco abrigaria cerca de R$ 30 bilhões em depósitos
judiciais, motivo que, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, levou o
STF a homologar o acordo que o DF agora quer enfiar goela abaixo dos bancos. A
autoridade do Judiciário, segundo o ministro, ficaria em questão.
Cabe ao BC agir com urgência, antes que mais
um acordo sem sentido seja costurado sob as bênçãos do STF. Quanto mais tempo o
BC demorar, mais e novas justificativas para atender a interesses
inconfessáveis surgirão para manter insepulto o cadáver do BRB, ainda mais em
ano eleitoral.
Enfim, um juiz punido de verdade
Por O Estado de S. Paulo
Ministro do STJ acusado de assédio pode ser o
primeiro afastado sem direito a aposentadoria
Finalmente, ao que parece, um magistrado
acusado de ter cometido uma infração grave será efetivamente punido pelo
Judiciário, e não mais premiado com uma aposentadoria compulsória. O Superior
Tribunal de Justiça (STJ) decidiu, no julgamento de um procedimento
administrativo disciplinar, afastar o ministro Marco Buzzi, suspeito de ter
importunado sexualmente duas mulheres. Os ministros recomendaram que, ao fim da
ação que deverá ser aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido da
Advocacia-Geral da União (AGU), Buzzi fique sem o cargo e sem a benesse.
Isso só foi possível porque há pouco tempo o
Supremo concluiu, ora vejam, que aposentadoria compulsória não é punição,
corrigindo assim um erro que vinha sendo reiterado pela Justiça havia muitos
anos. Há poucos dias, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) regulamentou a
decisão da Corte constitucional, o que embasou o entendimento de 24 dos 28
ministros do STJ que votaram pela perda do cargo.
Não significa que o magistrado já esteja
sentenciado definitivamente. Buzzi seguirá amparado no devido processo legal e
gozará, como deve acontecer num Estado Democrático de Direito, das garantias
fundamentais conferidas aos réus, como o direito ao contraditório, à ampla
defesa e à presunção de inocência.
Tanto é assim que os advogados do agora
ministro afastado já negaram que ele tenha cometido qualquer ato ilícito.
Alegaram ainda que Buzzi não poderia praticar nenhum crime pois sofre de
disfunção erétil, embora essa condição fisiológica não seja um impeditivo para
a violação da dignidade sexual de uma potencial vítima: abusos sexuais, como bem
atesta o Código Penal brasileiro, vão muito além do intercurso.
No STJ, quatro ministros convenceram-se de
que Buzzi tem direito à aposentadoria compulsória, haja vista que o processo
teria sido aberto antes da decisão do STF e da regulamentação do CNJ. Embora
derrotados, esses julgadores concordaram com a tese de que uma norma punitiva
só pode retroagir em benefício do réu.
Aos acusados deve ser oferecido o acesso a
todos os instrumentos legais para que possam se defender – e Buzzi tem esse
direito, com seus advogados apresentando as teses que melhor lhes convêm. Mas,
diferentemente do julgamento de um processo na esfera criminal, no qual
prevalece o princípio da irretroatividade da norma mais gravosa, o caso, que
foi analisado pelo STJ e agora seguirá para o STF, é uma matéria eminentemente
administrativa – e, no Direito administrativo, o interesse público é
imperativo, devendo-se aplicar, em nome da moralidade e probidade, punições
rigorosas a quaisquer agentes públicos que tenham cometido ou venham a cometer
abusos, desmandos ou crimes.
O que se espera a partir de agora é que o rigor seja mantido, não sendo aceitável nem justificável qualquer interpretação criativa das regras do jogo que venha eventualmente a ressuscitar para Buzzi uma intolerável aposentadoria compulsória.
Integração de forças federais e estaduais é
avanço contra crime
Por O Globo
Recém-criado Escritório Nacional Antifacção
registra progresso no combate a esquemas de combustível
É preciso reconhecer o valor da iniciativa do
Ministério da Justiça e Segurança Pública de reunir-se com órgãos estaduais
para começar a traçar estratégias integradas de combate ao crime organizado, a
partir do recém-criado Escritório Nacional Antifacção (ENA), já presente em São
Paulo e no Rio.
É conhecida a resistência dos governadores e
das autoridades estaduais a compartilhar poder e aceitar a coordenação do
governo federal na segurança pública, haja vista a resistência das bancadas
estaduais no Congresso em aprovar a PEC da Segurança Pública, que implementa
tais mecanismos. Mas não existe alternativa se o objetivo é derrotar as máfias
que se infiltram mais e mais na economia formal e no mundo político.
Um exemplo dos frutos dessa cooperação já
pode ser visto nos resultados obtidos no setor de combustíveis,
atividade que, graças às grandes somas de dinheiro vivo que movimenta, se
tornou atraente para organizações criminosas em busca de negócios para lavar
dinheiro do tráfico ou de outras fontes ilegais. Levantamento do GLOBO
constatou que, em apenas dez meses, nove operações policiais investigaram a
movimentação suspeita de R$ 40 bilhões por redes de combustível no estado do
Rio de Janeiro.
As investigações, realizadas pela Polícia
Civil, pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público (MP), desbarataram
esquemas de que participam facções, milícias, bicheiros e agentes públicos para
legalizar os recursos provenientes da corrupção e de negócios ilícitos. A
Operação Unha e Carne, da PF, investigou mais de 80 postos na Região
Metropolitana carioca, incluindo Niterói e São Gonçalo, suspeitos de ser usados
para lavagem. Ela transcorre sob supervisão do Supremo Tribunal Federal por
envolver suspeitos com foro privilegiado.
A Operação Carbono Oculto, lançada em agosto
do ano passado pelo Ministério Público de São Paulo e pelas polícias Civil e
Militar, com a participação de vários outros estados, desvendou como o Primeiro
Comando da Capital (PCC) operava desde usinas de açúcar e álcool do interior
paulista até uma extensa rede interestadual de postos, incluindo a importação
fraudada de metanol para adulterar combustível, com conexões a fintechs da
Faria Lima para lavar o dinheiro obtido.
Em novembro, o MP do Piauí lançou a Carbono
Oculto 86 (DDD do estado), que denunciou 12 acusados por fraudes no
abastecimento, adulteração, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. A
operação atingiu 11 municípios piauienses, quatro do Maranhão e um do
Tocantins. Para lavar o dinheiro, os criminosos usavam a mesma rede de fundos
de investimento e fintechs que operava para o PCC — embora não tenha ficado
comprovada a conexão com a facção paulista.
O crime organizado ainda parece vários passos à frente do poder público na integração nacional. Por isso é fundamental aprofundar as investigações sobre suas conexões financeiras. Há, para as autoridades, um grande filão a explorar. No cenário otimista, na esteira do resultado dessas operações, o Estado continuará a se integrar para combater um crime ainda bem mais organizado do que ele.
Redução na fila do INSS é bem-vinda, mas
método usado desperta ceticismo
O Globo
Dúvida é se iniciativa do governo é duradoura
ou se recusas sistemáticas farão explodir pedidos mais tarde
É indisfarçável a motivação eleitoral da
iniciativa do Planalto para reduzir a extensa fila de pedidos de
aposentadorias, pensões e outros benefícios previdenciários. Mas isso não
significa que ela não seja bem-vinda. Depois da conclamação do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, a fila caiu pela metade — do pico de 3,1 milhões em
fevereiro para 1,6 milhão em julho. O segredo para tal eficiência parece
simples: entre janeiro e maio, a média mensal de pedidos rejeitados cresceu de
395 mil para 669 mil, mais de 70%. A meta do governo é que a fila do INSS chegue a
1,3 milhão em setembro, às vésperas da eleição.
A lei estipula que todos os pedidos devem ser
atendidos em no máximo 45 dias, e o total de demandas que ultrapassam esse
prazo caiu de 1,9 milhão em janeiro para perto de 400 mil em julho. Obviamente
não se pode criticar a iniciativa para ganhar agilidade na prestação de um
serviço que, para todos os efeitos, é direito do cidadão. A dúvida é se o
método usado pelo governo para reduzir a pressão sobre os guichês do INSS
representa uma solução ou se é apenas um resultado ilusório, obtido graças à
aceleração de rejeições automáticas, que rapidamente voltarão a gerar novos
pedidos, fazendo a fila voltar a crescer. Se as recusas forem justificadas, a
aceleração merece aplauso. Se não forem, representam um atalho injusto.
Com quadro de funcionários equivalente à
metade do que tinha há dez anos, o INSS enfrenta dificuldades para dar conta
dos pedidos de benefícios. Para aumentar a produtividade, o governo tem pagado
bônus aos servidores de acordo com a quantidade de demandas processadas. Outros
recursos têm sido a digitalização e a automação. Foram criados canais de
atendimento não presencial e há perícia médica remota. Mas isso fez crescer o
risco de fraudes. Um dos serviços mais vulneráveis é o Atestmed, que concede de
forma digital e remota o auxílio-doença por incapacidade temporária. Entre
março e maio, o INSS concedeu uma média mensal de 127,5 mil benefícios por esse
canal. As fraudes mais comuns são atestados falsos ou adulterados. Não existe
um balanço formal, mas uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU)
constatou falhas endêmicas no CRM dos médicos.
A perspectiva para o futuro recomenda uma resposta estrutural ao tamanho das filas, pois a demanda não parará de crescer. Hoje o INSS paga 41,7 milhões de benefícios, e a cada mês concede mais 700 mil, ou 32 mil por dia útil. De 2025 a 2070, apenas o regime geral, que exclui servidores públicos, deverá pagar 53,6 milhões de novas aposentadorias, de acordo com estimativa do economista Rogério Nagamine. Nos próximos 36 anos, diz ele, a concessão será 36% maior que nos 36 anos anteriores. Isso num período em que a população com idade para trabalhar diminuirá, e haverá menos contribuintes para financiar o pagamento. Uma nova reforma na Previdência e nos critérios de concessão dos benefícios sociais contribuiria não apenas para o equilíbrio das contas públicas, mas também para reduzir as filas.
Ideb mostra melhora ainda lenta da educação
no país
Por Valor Econômico
Avanços estão aquém das necessidades do país e devem ser buscados com mais persistência e método
A educação melhorou nos anos iniciais do
ensino fundamental, mostram os resultados do Índice de Desenvolvimento da
Educação Básica (Ideb). Os mesmos progressos não foram atingidos em seus anos
finais e no ensino médio, cujo desempenho continua abaixo da última meta fixada
para eles há cinco anos, em 2021. Estados do Nordeste, como Piauí, Ceará e
Pernambuco, se destacam com boas pontuações, um sinal de esperança de que o
atraso a que historicamente foi relegada a região, pode ser superado pelo
avanço educacional, base para o progresso material e cognitivo.
O Ideb é composto pela avaliação do
aprendizado em matemática e língua portuguesa e pela taxa de aprovação dos
alunos nos respectivos ciclos. Esse segundo quesito permite que um Estado
obtenha um desempenho final melhor, mesmo que não mostre aprimoramento de
aprendizagem. É o caso do Rio de Janeiro, cuja eliminação das reprovações
convive com notas ruins de matemática e português. No ranking de conhecimento
dessas duas matérias, o Estado ficou em último lugar, ao lado da Bahia.
Um dos maiores gargalos da educação
brasileira continua sendo o ensino médio, especialmente o administrado pelas
escolas públicas. É onde se concentram o abandono precoce do ensino pelos
jovens e a baixa evolução do aprendizado. No primeiro ponto, o Ideb traz
notícias auspiciosas, embora devam ser temperadas pela orientação geral de
reduzir a reprovação, pedagogicamente justificada. A aprovação passou de 71,8%
em 2007 a 94,3% em 2025. Embora seja um estímulo à permanência nos quadros
escolares, a qualidade do ensino reluta em melhorar e é uma das causas da
desistência significativa dos jovens nesse faixa de instrução. A nota do Ideb
foi de 4,2 em 2019 a 4,5 em 2025. A meta prevista para 2021 era de 5,2, ainda
distante, e as metas dos anos anteriores igualmente não foram atingidas.
Em vez de uma escala ascendente do conhecimento,
os números do Ideb mostram um descenso. Nos anos finais do fundamental (6 ao
9), as notas do Ideb aumentaram de 4,9 para 5,3, sem chegar à meta de 5,5 para
o ano de 2021. Os melhores resultados estão nos anos iniciais do ensino
fundamental, com performance inferior nos anos finais desse ciclo e piores no
ensino médio. Ainda que em situação melhor, as escolas privadas não escapam
desse desenho. As notas para todo o ensino fundamental se mantiveram nas
escolas pagas ao longo dos últimos seis anos, mas a conta da pandemia não foi
resgatada e a performance no ensino médio mostra um declínio, de 6 para 5,8.
A vantagem em relação às escolas públicas,
porém, continua significativa. As diferenças de pontuação entre ambas em
português e matemática equivalem, segundo os especialistas, a uma vantagem que
corresponde entre 2,5 e 3 anos de aprendizado (Folha de S. Paulo, 6-8). Se a
renda familiar nesse caso é determinante para a ter mais chances de sucesso em
uma escola particular, no agregado dos resultados a riqueza dos Estados não
assegura educação de melhor qualidade. O exemplo do Rio é um deles. O de São
Paulo, outro, no qual se inclui também a capital paulista. A rede paulista
ocupava o primeiro lugar no Ideb em 2015, e hoje 11 Estados têm um desempenho melhor
que ela. A educação técnica e profissional melhora um pouco a situação do
Estado no ranking, elevando-o à oitava posição.
Três Estados se destacam nos avanços na
educação na região Nordeste, o mais recente deles o Piauí, ao lado de dois
outros que já vinham obtendo avanços notáveis, Ceará e Pernambuco. O Piauí foi
o Estado cujas escolas obtiveram a segunda melhor nota no ensino médio e a 7ª
nos anos finais do fundamental (O Globo, ontem). O Ceará se colocou no segundo
lugar no ranking dos anos iniciais e em terceiro nos anos finais do ensino
fundamental. Pernambuco e Ceará se destacam entre os dez primeiros no ensino
médio. Todos os Estados nordestinos apresentaram avanço nas notas. Por outro
lado, o Distrito Federal, que tem a maior renda per capita do país, está entre
os últimos colocados. O Paraná, por sua vez, liderou o ranking em português e
matemática.
Apesar das diferenças regionais e de
políticas dos governadores, exemplos que dão certo estão se disseminando.
Irapuan Pinheiro, a 350 quilômetros de Fortaleza, com pouco menos de 10 mil
habitantes, tem escolas entre as que melhor pontuam no país. Ela tem sistema de
avaliação e de incentivos próprios. Os professores que deram aulas aos alunos
com melhor classificação recebem um 14º salário, e os 40 estudantes mais bem
posicionados ganham notebooks. Todas as escolas da cidade têm ensino em horário
integral, com três refeições diárias e salas climatizadas (Estadão, 6-8).
Mesmo que essas condições não possam ser generalizadas, as premissas indicam um caminho, o dos incentivos conjuntos, para professores e alunos, à medida que conseguem atingir metas de aprendizado definidas e obtenham progressos tangíveis. O Ideb mostra que houve melhoras nas notas dos alunos nas três etapas de ensino, o que é muito positivo. Os progressos são, no entanto, muito lentos, estão aquém das necessidades do país e devem ser buscados com mais persistência e método.
As eleições e os desafios do cárcere
Por Correio Braziliense
Ao confinar quase 1 milhão de pessoas em um
sistema com déficit superior a 280 mil vagas e sem um projeto de recuperação
eficiente, o Estado estende os efeitos da pena para além do indivíduo preso
Em contagem regressiva para uma eleição que pode promover a renovação no Congresso Nacional, alguns temas que há décadas se arrastam sem soluções precisam estar no radar dos brasileiros para a definição do voto. Um deles é o sistema penitenciário. A marca alarmante de uma população carcerária que ultrapassa centenas de milhares de pessoas, alçando o Brasil ao triste posto de detentor de uma das maiores massas prisionais do mundo, não reflete apenas altos índices de criminalidade, mas também a falência crônica de um modelo punitivo arcaico e, muitas vezes, ineficaz. A discussão de medidas que tirem das prisões a condição de locais em que imperam a violência, a insalubridade e o domínio de facções criminosas é uma pauta urgente.
O sintoma mais visível e devastador dessa
engrenagem é a superlotação crônica. Unidades prisionais operam
sistematicamente com taxas de ocupação muito acima de sua capacidade máxima,
criando um cenário de confinamento. Homens e mulheres amontoam-se em celas
exíguas, sem ventilação adequada, desprovidos de acesso regular a saneamento
básico, água potável ou atendimento médico digno, além de outros problemas.
Longe de funcionarem como possibilidade de recuperação social, os presídios
brasileiros transformaram-se em verdadeiros barris de pólvora.
Outra questão que já atingiu um patamar
dramático reside na completa ausência de perspectivas reais de ressocialização.
A Lei de Execução Penal, que preconiza o trabalho e a educação como bases para
o retorno do apenado ao convívio social, não passa, na esmagadora maioria dos
estabelecimentos, de mera normativa. A negligência educacional e a inexistência
de oficinas de capacitação fazem com que o egresso retorne às ruas ainda mais
vulnerável. Sem oportunidades lícitas de subsistência, o indivíduo,
normalmente, encontra as portas abertas apenas no crime organizado, que utiliza
o próprio ambiente penitenciário como palco para expandir suas redes de
atuação.
Fato é que, ao confinar quase 1 milhão de
pessoas em um sistema com deficit superior a 280 mil vagas e sem um projeto de
recuperação eficiente, o Estado estende os efeitos da pena para além do
indivíduo preso, atingindo famílias, comunidades e a própria segurança pública
como um todo. Nesse contexto, uma das dificuldades a serem enfrentadas está
ligada ao estigma do antecedente criminal, fator que, em vários casos,
inviabiliza a inserção no mercado formal — somente cerca de 20% dos custodiados
têm acesso ao trabalho na prisão, quase sempre carente de qualificação técnica.
E, com a falta de políticas efetivas de egressos, os detentos saem das celas
despreparados para retomar a vida em liberdade, sendo empurrados para a
subocupação informal ou para o aliciamento criminoso.
Diante desse quadro, a sociedade, o Legislativo e o Executivo — sem deixar de lado o Judiciário — não podem mais contemporizar. O enfrentamento dessa chaga exige uma corajosa guinada no sistema, com a expansão e o aperfeiçoamento das penas alternativas quando cabíveis, a qualificação da complexa cadeia de profissionais que trabalham dentro dos muros e o rigor no cumprimento das leis. Enquanto o cárcere for tratado como solução mágica para a complexidade da violência urbana, o Brasil continuará a perpetuar um ciclo que já provou ser incapaz de promover a paz social no país.
O desafio de manter a redução da mortalidade
infantil
Por O Povo (CE)
Compreender o perfil epidemiológico da
mortalidade infantil no Ceará é fundamental para avaliar a qualidade da atenção
à saúde. Saber onde agir, como, com qual investimento e estrutura, para
alcançar mais resultados como os dos últimos 25 anos. O número de óbitos entre
recém-nascidos caiu de 3,8 mil para 1,2 mil no ano, entre 2000 e 2025,
representando queda de 68%.
As taxas sobre a morte de mães e crianças é
uma preocupação constante no Estado que viu os números mudarem após diferentes
investimentos. Campanhas de imunização, acesso a serviços de qualidade, menos
exposição a doenças parasitárias e infectocontagiosas e mais informações sobre
os cuidados com as crianças. Uma nova perspectiva para o futuro foi possível,
ainda, por causa da mudança no padrão familiar brasileiro: menos filhos e,
portanto, mais possibilidades de atenção à qualidade de vida.
Nessas quase três décadas, aprendeu-se que
Saúde da Família, programa criado em solo cearense, contribui
significativamente para a queda da mortalidade infantil, melhorando as
condições de vida das gestantes e dos recém-nascidos. O programa atua no
fortalecimento da rede de assistência ao pré-natal, parto e puerpério, além de
priorizar o acompanhamento da criança e da mãe nos primeiros anos.
E, para isso, se faz necessário estratégias e
intersetorialidade entre diferentes pastas, profissionais, poderes e esferas. A
força política que alcança uma melhor condição de nascimento não tem a ver com
ideologia e partidos. Governos com visões diferentes de mundo estiveram no
poder ao longo destes 25 anos e uma linha básica foi respeitada, garantindo a
sustentação dos resultados (com exceção do período pandêmico da Covid-19).
À frente da elaboração de políticas públicas,
projetos, notas técnicas, cartilhas e leis, profissionais da saúde e gestores
que se dedicaram a entender os motivos que levavam, em 2020, 26,5 a cada mil
crianças morrerem no primeiro ano de vida. No ano passado, esse índice foi 57%
menor: 11,2 a cada mil.
Resultado que precisa ser ainda melhor em 2027, quando, de acordo com o Plano Estadual de Saúde, o Ceará deverá atingir a meta de redução para 9,5 óbitos para cada mil bebês nascidos vivos. Desafio que depende do esforço conjunto para consolidação dos avanços obtidos em relação à saúde materno-infantil.

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