“Os EUA anunciam que são potência
imperial com domínio incontestável sobre a região, cobiçada pela China. Com
isso, tratam a América Latina não como parceira, mas como vassala.” (O Estado de SP, 17/08/2026)
O jornalão da oligarquia paulista,
diário oficial do segmento mais atrasado da classe dominante brasileira, levou
nada menos de 151 anos para descobrir que o imperialismo é uma realidade
objetiva e ousou nomeá-lo como presente na América Latina. O escorregão
ideológico ajuda a explicar — se ainda é necessário —, a natureza desse império
que vem, de longa data, marcadamente a partir da proclamação da Doutrina Monroe
(1823), que reduzia nosso Continente a mera extensão de sua soberania. Na
sequência sobreveio (1904) o Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe
(“fale suavemente e carregue um grande porrete” ) e agora nos chega o Corolário Trump, uma
atualização imperial do big stick :“Os Estados Unidos
reafirmarão e imporão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana
no Hemisfério Ocidental".
O ponto de partida foi o México, que
teve 53% de seu território surrupiado, e o ponto de chegada inda não é a
Venezuela, a cuja invasão (com o sequestro de seu presidente) se seguiu a
rapina de suas principais riquezas, ouro e petróleo.
Os EUA sempre atuaram contra nossos
países das mais variadas formas, desde ações diplomáticas, pressões econômicas,
sabotagens e operações militares visando a mudar regimes, seja substituindo
presidentes eleitos (mas supostamente não “amigáveis”) como, por exemplo, João Goulart
(1964) e Salvador Allende (1973), a cujas deposições se seguiram duas longevas
ditaduras militares, às quais deram apoio o mais variado, inclusive treinando
torturadores.
A história registra 42 invasões desde
1898, mas elas não encerram a história toda, pois os EUA também intervieram e
solaparam as experiências democrático-representativas de um considerável número
de países, promovendo golpes de Estado, desestabilização política e operações
de sabotagem quase sempre operadas pela CIA. Atuaram e atuam no financiamento
da ação oposicionista aos governos-alvo, promoveram sanções econômicas e
políticas, e influíram (e influem) na linha editorial dos principais meios de
comunicação. O caso brasileiro é exemplar.
Em 1975 os EUA coordenaram e financiaram
a Operação Condor, uma aliança institucionalizada entre Brasil, Argentina,
Uruguai, e Chile para aniquilar opositores, responsável por 400 mil presos e
noventa mil mortos e “desaparecidos”. A ação criminosa cessa em 1983, com a
queda da ditadura militar argentina.
Acossado pela crise interna, um
capitalismo ameaçado de colapso, cuja liderança vem sendo corroída
pela China, os EUA de hoje optam por um acelerado fechamento do regime, com
políticas abertamente racistas e persecutórias e culto à imagem do autocrata
(cenário em que o respeito ao processo eleitoral vai se tornando uma hipótese
distante); para fora, uma postura que contrasta com a “política de boa
vizinhança” que nos trouxe Walt Disney, Orson Welles, Aliança para o Progresso
etc. com vistas à contenção da influência soviética. Sob Trump, cientes do seu
próprio declínio relativo (“Make America Great Again”), os EUA não se mostram
propensos a sutilezas - pelo contrário (símbolo disso é que o Departamento de
Defesa virou Departamento da Guerra). A este país – em franca degeneração
política, da qual Trump é um produto coerente, o inefável Estadão (4 de
julho), de novo ele, dedica editorial no qual
saúda “O vigor da democracia americana.” Qual o conceito de
democracia que inspira os Mesquita?
O projeto dos EUA de fazer da América
Latina seu quintal é exposto sem rebuços. Stephen Miller, um dos principais assessores de
Donald Trump na Casa Branca, justifica a necessidade da invasão e a rapina da
Venezuela: seria “um absurdo permitir que uma nação em nosso quintal (our own
backyard no original) se torne fornecedora de recursos para
nossos adversários, e não para nós”. No quintal dos EUA o Brasil exporta
minérios estratégicos para a China, contra quem os EUA abrem uma nova Guerra
Fria, filha daquela que no século passado, após a segunda guerra mundial,
entreteve com a URSS.
A mão pesada do imperialismo está
presente entre nós há mais de um século. Sob o desvario trumpista, na sequência
dos tarifaços, o país dá início a uma escalada diplomática envolvendo
a indicação de seu novo embaixador, um agente provocador, e revogando o visto
da embaixadora brasileira, Maria Luiza Viotti.
Em dezembro de 2025, o governo Trump
publicou a nova “Estratégia de Segurança Nacional” onde se lê: “Os Estados
Unidos reafirmarão e imporão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência
americana no Hemisfério Ocidental”. O império afirma que se valerá de todos os
meios ao seu alcance, e são muitos. Conhecemos invasões como a da
Venezuela (no último 3 de janeiro), os tarifaços e
o cerco político-econômico que Cuba padece desde 1959.
A mão pesada do imperialismo
segue presente entre nós. Vivemos hoje uma versão de guerra híbrida. Ou a
guerra clássica por outros meios. E um deles é a intervenção no processo
eleitoral. Foi intervindo desabridamente nas eleições de 1962 que o império
começou a preparar a deposição do presidente João Goulart. As eleições de 1962 são um marco
importante para estudar a ingerência de Washington na política brasileira,
porque a atuação norte-americana passou de uma influência diplomática/econômica
mais convencional para uma intervenção direta no processo eleitoral, combinando
financiamento clandestino de partidos e candidatos de oposição ao governo, com
articulação com setores militares, empresariais e políticos
brasileiros.
Intervieram com recursos diretos e por
intermédio de multinacionais americanas — como Texaco, Esso, Coca-Cola, Bayer e
IBM —, aqui atuando tanto no processo eleitoral propriamente dito quanto
interferindo na linha editorial da grande imprensa. Naquela altura, o maior e
mais ouvido noticiário brasileiro era “O Seu Repórter Esso”, transmitido pela
Rádio Nacional (então líder de audiência) e retransmitido por um
sem-número de emissoras espalhadas pelo país. Na televisão, o maior e mais
ouvido noticiário era o “Repórter Esso”, levado ao ar pela TV Tupi, líder da
Cadeia Associada. Para viabilizar a ação corruptora do processo eleitoral, foi
fundado o IBAD — Instituto Brasileiro de Ação Democrática.
O Brasil de então era insuportável para
Washington. Ademais de sustentar uma política externa independente, mantinha
boas relações com Cuba.
Em 1962, o Brasil realizaria eleições
quase gerais: tratava-se das eleições para governadores, Senado, Câmara dos
Deputados e assembleias legislativas. A estratégia do Departamento de Estado
era fortalecer a oposição. Era a oportunidade para modificar a correlação de
forças dentro do próprio Estado brasileiro: 1: eleger uma bancada conservadora
capaz de bloquear as iniciativas de Jango no Congresso (tática que a direita
repete nas eleições de 2026); e 2: evitar a eleição de governadores de
esquerda, como Miguel Arraes em Pernambuco.
Os EUA intervieram sob as mais diversas
formas. Mas o principal instrumento foi o financiamento de candidatos considerados
anticomunistas, conservadores e favoráveis aos interesses econômicos
estadunidenses. Esse dinheiro chegou por diversas fontes: diretamente, por
intermédio da CIA, ou pelos canais estabelecidos com multinacionais e mesmo
diretamente entregues aos beneficiários. Um mar de dólares, ainda hoje difícil
de quantificar.
A CPI (1963) que investigou a ação do
IBAD apurou um derrame de US$ 5 milhões, enquanto uma fonte da própria CIA
(Philip Agee) estima em US$ 20 milhões os gastos dos EUA nas eleições brasileiras
de 1962 em apoio a candidatos de oposição. A dinheirama, todavia, não foi
aplicada apenas na sustentação das candidaturas. De igual modo, milhões de
dólares foram injetados na montagem de uma máquina de propaganda anticomunista,
de que era acusado o governo que falava em reforma agrária. Ainda segundo o
relatório da CPI algo como 600 candidatos a deputados estaduais e 250
candidatos a deputados federais, além de candidatos a governador e
vice-governador, teriam recebido ajuda da CIA por intermédio do IBAD.
O objetivo era alterar a composição
política do Congresso e, assim, inviabilizar o governo Jango. Criar condições
para uma solução de força caso a via eleitoral não funcionasse. Não se tratava,
ainda, naquela altura, de sua deposição, mas da construção de uma correlação de
forças que tornaria possível sua queda. Como sabe a história, a conspiração
militar contra João Goulart teve início mesmo antes de sua posse, com a
tentativa de golpe intentada pelos ministros militares, na sequência da
renúncia de Jânio Quadros.
Um dos objetivos da política dos EUA
para o Brasil, hoje, é impedir a reeleição de Lula, medida fundamental para a
consolidação do controle reacionário da América do Sul. A preferência declarada
é pelo herdeiro do capitão Bolsonaro. Mas qualquer alternativa a Lula será bem
recebida. A direita não carecerá de apoio político ou de recursos. Dão-se as
mãos a Faria Lima e o agronegócio: o rentismo estéril e o atraso político. Não
faltarão recursos, sejam forâneos, sejam nacionais, para financiar a campanha
eleitoral da direita. Desta feita, o objetivo explícito é consolidar e fazer
crescer a atual composição do Congresso, majoritariamente reacionária, e,
assim, inviabilizar o eventual quarto mandato do presidente Lula. Se não
conseguir derrotá-lo, ou impedir sua posse, como o bolsonarismo tentou em
janeiro de 2023.
Esta eleição, portanto, se
apresenta com características que a tornam exemplar. Ela é certamente a mais
importante desde a redemocratização de 1985. Mais do que eleger o novo
presidente da República, estaremos decidindo o destino da democracia
brasileira.
***
Ação e reação_ - Um efeito do avanço da direita (tendo como ponta de lança a extrema-direita neofascista) é, quase como numa aplicação
da terceira lei de Newton, o recuo da esquerda. Vejamos: enquanto à direita há
três candidaturas com discurso fascista, sem papas na língua (para elas, o céu
é o limite), ao lado de uma da direita tradicional (e todas pontuando nas
pesquisas), à esquerda temos que nos agarrar à "utopia lulista" de
preservar algo do capítulo social da CF-88 sem arranhar o sacrossanto arcabouço
fiscal (a propósito, que lições o atual ministro da Fazenda foi pedir a Pedro
Malan e Armínio Fraga?). Assim, a pressão estrangeira sobre nosso processo
eleitoral também se presta, para além de tentar impedir a reeleição de Lula, a
restringir a um quase nada o espaço de ação da esquerda brasileira, cingindo os
limites do nosso próprio imaginário à perspectiva da sobrevivência. Neste
quadro, como falar em socialismo?
A ignorância leva a injustiças. A diretora da Faculdade de Comunicação
da UnB bloqueou o andamento do processo de concessão do título de professor
emérito da UnB aí Professor Marco Antonio Rodrigues Dias, proposto pelos
professores do setor de pós-graduação. O motivo alegado é que ele teria sido
vice-reitor da ditadura. A decisão é arbitrária e lamentável, e Marco Antonio é
intelectual respeitado e admirado como poucos pela sua atuação na UnB,
principalmente nos difíceis tempos da ditadura. A diretora, nada
obstante ter curso superior -requisito para ocupar o cargo --, desconhece
a diferença entre na ditadura e da ditadura.
A história recente da UnB, porém, é conhecida e ela nos diz que o
Professor Marco Antonio, cuja amizade me honra, se destacou justamente
pela oposição à ditadura e por haver defendido os estudantes punidos em 1977,
ao preço de uma perseguição implacável que incluiu, até ameaças de morte.
Recomendo à diretora da Faculdade a leitura da ata da segunda reunião do
Conselho Universitário da UnB -Consuni. Se o fizer, conhecerá o que ignora
apesar do cargo e a vivência na Universidade. As razões por que estudantes de
Medicina, Comunicação, Psicologia e outros cursos escolheram naquela época o
Professor Marco Antonio como paraninfo, patrono ou homenageado especial.
*Com a colaboração de Pedro Amaral

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