domingo, 23 de agosto de 2026

O que não tem resposta, nem nunca terá, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A IA em breve nos permitirá fazer as perguntas mais indiscretas às nossas heroínas da literatura

'Diadorim, você fazia xixi em pé com os jagunços?' ou 'Capitu, o que você viu no Escobar?'

A IA (ou dona Iaiá, como a batizou o poeta e acadêmico Antonio Carlos Secchin) nos oferece uma nova oportunidade de nos metermos onde não fomos chamados. Segundo li, em breve poderemos "conversar" por meio dela com personagens da literatura e ouvir deles respostas a questões que seus autores deixaram em suspenso ao criá-los. Eis algumas possibilidades.

Eu faria a Diadorim, herói/heroína de "Grande Sertão: Veredas", algumas perguntas indiscretas, talvez até impróprias: "Diadorim, como você conseguiu se passar por homem durante tanto tempo no meio daqueles jagunços abrutalhados? Eles faziam xixi em pé no mato, em grupo, e davam as três pancadinhas. E você? E se eles, entre uma batalha e outra, te desafiassem para um xixi à distância? Como era na hora de tomar banho, com todo mundo se jogando nu no rio? E, com todo respeito, como você se virava quando estava naqueles dias?". Uma pergunta de cada vez, claro, para não dar chance a Diadorim de me engabelar.

Mas não sei se a maioria das pessoas irá primeiro a Diadorim. Ninguém resistirá a tentar espremer a personagem mais enigmática, cuja intimidade todos gostariam de invadir —a insuperável Capitu, de "Dom Casmurro"—, para fazer a pergunta fatal: "Capitu, você, afinal, traiu ou não o Bentinho, seu marido, com o Escobar?" Ninguém se conforma com que Machado de Assis tenha deixado essa dúvida no ar, gerando dezenas de especulações e até romances que se atreveram a recontar a história.

Nas garras da IA, Capitu seria crivada de perguntas: "Capitu querida, o Bentinho era mesmo um bolha, mas, pelo amor de Deus, o que você viu no Escobar?". Ou então: "O Brás Cubas, outro personagem de Machado, era muito melhor. Por que você não pulou de livro e foi ter um caso com ele? Na ficção, tudo é possível!".

Enfim, são perguntas válidas. Só não confio nas respostas da IA, uma idiota da objetividade, incapaz de competir com os escritores naquilo que caracteriza a verdadeira criação: o intangível, o mágico, o que não tem resposta, nem nunca terá.

 

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