Folha de S. Paulo
Tanto o primogênito do Bolsonaro quanto o do
Lula têm contra si acusações sérias
Os escândalos envolvendo os dois são de
tamanhos diferentes, e um deles não é candidato a presidente
Tanto o filho mais velho do Bolsonaro quanto
o filho mais velho do Lula têm
contra si acusações sérias. Mas os escândalos envolvendo os dois são de
tamanhos muito diferentes. E só um dos dois, felizmente, é candidato a
presidente.
Lulinha é
acusado de ter se associado à lobista Roberta Luchsinger para
conseguir que o Ministério da Saúde comprasse remédios à base de canabidiol sem
licitação. O negócio não foi fechado porque o lobista chefe de Roberta foi pego
antes no escândalo do INSS.
Segundo as notícias, a lobista enviou uma minuta de contrato ao chefe de gabinete de Lula, com o valor de R$ 626 milhões por 1,2 milhões de frascos (dá R$ 521,67 por frasco). Se o canabidiol for um remédio desnecessário (não tenho ideia se é ou não, não sou médico), o desvio total seria esse. Se é um remédio útil que teria sido superfaturado, o desvio seria o valor (certamente menor) do superfaturamento.
Tentei calcular esse valor, mas o contrato
ainda não foi divulgado. Sem ele, não sabemos qual é a concentração do
canabidiol ou o volume de cada frasco, e fica difícil comparar os preços com os
do mercado.
Quem tiver acesso ao contrato pode estimar o
superfaturamento utilizando os preços listados no site Fitocanabica.com.br e
o desconto padrão do SUS para compras em grande escala. Não sabemos quanto do
valor superfaturado teria ido para Lulinha,
Roberta ou outros participantes do esquema.
Flávio
Bolsonaro recebeu, comprovadamente, R$ 60 milhões (e a promessa
de mais R$ 60 milhões) do dono do Master. Se todas as suspeitas contra ele
forem verdadeiras, esse dinheiro foi dado a Flávio como recompensa pelos
bilhões em dinheiro público que o bolsonarismo deu ao banco: foram R$ 3,6
bilhões dos aposentados do Rio de Janeiro, entregues ao Master pelo governador
bolsonarista Cláudio
Castro; e cerca de R$ 9 bilhões (a estimativa só cresce) do Banco de
Brasília, desaparecidos quando o governador bolsonarista Ibaneis Rocha tentou
salvar o Master.
As estimativas do valor total do rombo
efetivamente causado pelo banco estão em torno de R$ 60 bilhões, cem vezes mais
do que a maior estimativa do valor que teria sido desviado se o lobby de
Lulinha tivesse dado certo.
Uma comparação mais apropriada com o caso
Lulinha seria a que Flávio Bolsonaro fez quando levou Francisco
Maximiano, dono da Precisa Medicamentos, ao BNDES em
2020 para discutir,
segundo Flávio, investimentos em conexão para
a internet. Também era lobby, como no caso do canabidiol.
Maximiano depois foi acusado de vender
vacinas superfaturadas durante a pandemia. Se foi disso que
Flávio tratou no BNDES, estou sendo injusto com Lulinha: pouca coisa é tão ruim
quanto lobby por vacina superfaturada em meio a uma pandemia, durante a qual o
pai de Flávio foi responsável por, pelo menos, 145 mil mortos —justamente por
ter se recusado a comprar vacinas oferecidas a preços normais.
O ministro André Mendonça precisa derrubar o
sigilo dos inquéritos do Master, do canabidiol e do INSS. Só isso pode evitar
que a eleição seja vencida por quem tiver mais dinheiro e amigos poderosos que
lhe permitam planejar vazamentos e modular sua repercussão.

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