domingo, 23 de agosto de 2026

Os filhos picaretas dos presidentes, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Tanto o primogênito do Bolsonaro quanto o do Lula têm contra si acusações sérias

Os escândalos envolvendo os dois são de tamanhos diferentes, e um deles não é candidato a presidente

Tanto o filho mais velho do Bolsonaro quanto o filho mais velho do Lula têm contra si acusações sérias. Mas os escândalos envolvendo os dois são de tamanhos muito diferentes. E só um dos dois, felizmente, é candidato a presidente.

Lulinha é acusado de ter se associado à lobista Roberta Luchsinger para conseguir que o Ministério da Saúde comprasse remédios à base de canabidiol sem licitação. O negócio não foi fechado porque o lobista chefe de Roberta foi pego antes no escândalo do INSS.

Segundo as notícias, a lobista enviou uma minuta de contrato ao chefe de gabinete de Lula, com o valor de R$ 626 milhões por 1,2 milhões de frascos (dá R$ 521,67 por frasco). Se o canabidiol for um remédio desnecessário (não tenho ideia se é ou não, não sou médico), o desvio total seria esse. Se é um remédio útil que teria sido superfaturado, o desvio seria o valor (certamente menor) do superfaturamento.

Tentei calcular esse valor, mas o contrato ainda não foi divulgado. Sem ele, não sabemos qual é a concentração do canabidiol ou o volume de cada frasco, e fica difícil comparar os preços com os do mercado.

Quem tiver acesso ao contrato pode estimar o superfaturamento utilizando os preços listados no site Fitocanabica.com.br e o desconto padrão do SUS para compras em grande escala. Não sabemos quanto do valor superfaturado teria ido para Lulinha, Roberta ou outros participantes do esquema.

Flávio Bolsonaro recebeu, comprovadamente, R$ 60 milhões (e a promessa de mais R$ 60 milhões) do dono do Master. Se todas as suspeitas contra ele forem verdadeiras, esse dinheiro foi dado a Flávio como recompensa pelos bilhões em dinheiro público que o bolsonarismo deu ao banco: foram R$ 3,6 bilhões dos aposentados do Rio de Janeiro, entregues ao Master pelo governador bolsonarista Cláudio Castro; e cerca de R$ 9 bilhões (a estimativa só cresce) do Banco de Brasília, desaparecidos quando o governador bolsonarista Ibaneis Rocha tentou salvar o Master.

As estimativas do valor total do rombo efetivamente causado pelo banco estão em torno de R$ 60 bilhões, cem vezes mais do que a maior estimativa do valor que teria sido desviado se o lobby de Lulinha tivesse dado certo.

Uma comparação mais apropriada com o caso Lulinha seria a que Flávio Bolsonaro fez quando levou Francisco Maximiano, dono da Precisa Medicamentos, ao BNDES em 2020 para discutir, segundo Flávio, investimentos em conexão para a internet. Também era lobby, como no caso do canabidiol.

Maximiano depois foi acusado de vender vacinas superfaturadas durante a pandemia. Se foi disso que Flávio tratou no BNDES, estou sendo injusto com Lulinha: pouca coisa é tão ruim quanto lobby por vacina superfaturada em meio a uma pandemia, durante a qual o pai de Flávio foi responsável por, pelo menos, 145 mil mortos —justamente por ter se recusado a comprar vacinas oferecidas a preços normais.

O ministro André Mendonça precisa derrubar o sigilo dos inquéritos do Master, do canabidiol e do INSS. Só isso pode evitar que a eleição seja vencida por quem tiver mais dinheiro e amigos poderosos que lhe permitam planejar vazamentos e modular sua repercussão.

 

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