quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Os (poucos) 45 dias que decidem o Brasil, por Mauricio Moura

O Globo

Não foi sempre assim: até a minirreforma eleitoral de 2015, a campanha oficial durava 90 dias.

Todo ciclo eleitoral brasileiro carrega o mesmo paradoxo: escolhemos quem vai administrar bilhões em orçamento público, definir políticas de segurança, saúde e educação para 215 milhões de pessoas, e o fazemos depois de um debate público oficial que dura, na prática, 45 dias. É o tempo que a legislação eleitoral reserva para a propaganda nas ruas antes do primeiro turno, um intervalo que, comparado ao de outras democracias relevantes, é curto até para os padrões de um país que historicamente prefere resolver tudo em cima da hora.

Não foi sempre assim. Até a minirreforma de 2015, a campanha oficial durava 90 dias. A justificativa para o corte foi legítima: reduzir custos, atenuar o desgaste institucional e coibir o abuso do poder econômico e de máquina. Só que a reforma resolveu um problema e criou outro: comprimiu radicalmente o tempo em que o eleitor tem contato formal, regulado e comparável entre propostas de governo, plataformas partidárias e planos de governo. Trocamos excesso de abusos por escassez de deliberação. E muitas vezes mantivemos ou ampliamos certos abusos.

Um sistema bastante diferente de outras democracias. Nos EUA, o processo eleitoral presidencial é extenso mesmo quando se conta apenas a fase pós-convenções: a campanha geral de 2024, por exemplo, se estendeu por cerca de dois meses e meio até a véspera da votação. Sem contar as prévias. No Reino Unido, o debate é contínuo já que primeiro-ministro e oposição disputam a opinião pública semana a semana no Parlamento. Nas recentes disputas presidenciais de Peru e Colômbia, as campanhas duraram meses. Na Argentina, teremos prévias e dois turnos durante todo o segundo semestre de 2027.

O ponto comum entre esses sistemas não é necessariamente “mais dias de propaganda”, mas sim mais tempo de exposição pública organizada: debates, escrutínio parlamentar, cobertura jornalística estruturada antes de o eleitor precisar decidir.

Um constante comportamento eleitoral se repete a cada ciclo: o eleitor brasileiro é primeiro exposto a uma avalanche de informação sobre eleição nacional. O volume de cobertura da presidencial é exponencialmente maior. Depois, se engaja na disputa dos governos estaduais, e por último nos pleitos legislativos. Desde 2018, esse processo todo se reduziu pela metade criando inúmeros desafios cognitivos na opinião pública. Não por desinteresse, mas porque o sistema simplesmente não lhe dá tempo hábil para digerir informação, comparar propostas e formar convicção.

O resultado, principalmente nas escolhas legislativas, é um eleitorado mais suscetível a atalhos cognitivos: recall, heurísticas de simpatia, polarização afetiva, viralização de conteúdo emocional e, cada vez mais, desinformação. E, claro, quando o tempo de deliberação encolhe, favorece fortemente quem já está no poder. A dimensão da importância do Congresso versus o tempo que o eleitor brasileiro se dedica a tal é extremamente desproporcional. E distorce inúmeros parâmetros democráticos.

No Brasil, especialmente parlamentares, quem já tem estrutura de comunicação digital ou cargo público consolidado debate o ano inteiro; quem depende do horário eleitoral formal ou de menor musculatura institucional tem, de fato, 45 dias. E aí tem suas chances muito mais limitadas.

Em resumo, 45 dias é pouco. Enquanto os congressistas discutirem minirreformas eleitorais a cada dois anos sem tocar nesse ponto, o Brasil continuará repetindo o mesmo ritual: um eleitorado que decide na última hora, decisões de governo com mandato frágil de legitimidade deliberativa, e um debate público que se resume, na prática, a 45 dias para escolher os próximos quatro anos do país.

 

 

 

Um comentário:

  1. Texto de excepcional qualidade! Parabéns ao autor, e ao blog por divulgá-lo! Aumentaram muito os gastos públicos para os partidos, mas o tempo eleitoral se reduziu. Tudo isto favorece os atuais detentores de cargos e mandatos.

    ResponderExcluir