sábado, 15 de agosto de 2026

‘Para Flabia, Fidel Castro’, por Flávia Oliveira

O Globo

O regime que ele inaugurou ainda resiste, agora sob asfixia brutal do governo de Donald Trump

Fidel Castro (1926-2016) completaria 100 anos na última quinta-feira, 13 de agosto. Líder da Revolução Cubana (1959), ícone da resistência ao boicote econômico dos Estados Unidos, que se estende desde então, foi inequívoca personalidade histórica do século XX. Jovem jornalista, fui a Havana, encontrei Fidel. O enredo começou em meados de 1999, quando o então presidente cubano veio ao Brasil para a Cimeira do Rio de Janeiro, reunião de chefes de Estado de América Latina, Caribe e União Europeia. De olho em potenciais investidores brasileiros, Fidel desafiou o então presidente da Federação das Indústrias do Rio (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, a levar à ilha uma delegação de empresários. Desafio aceito, partimos, eu pelo GLOBO, quatro meses depois.

O grupo incluía representantes da Brascuba, joint venture entre a Souza Cruz e a estatal cubana de cigarros, e da Petrobras. Eram, à época, as únicas empresas nacionais com negócios em Cuba. No grupo, outros empresários, jornalistas — entre os quais os saudosos Sérgio Leitão (1945-2015) e Arnaldo César (1950-2022) — e o embaixador Afonso Arinos de Mello Franco (1930-2020), já eleito para a Cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

A delegação brasileira foi convidada a jantar com Fidel. Punto Cero era o nome dado pelo serviço de inteligência ao complexo residencial onde o presidente viveu, por décadas, até morrer, em novembro de 2016. Era tido como uma espécie de bunker, em área remota de Havana, protegida por fortíssimo aparato de segurança. Não foi permitida entrada com bolsa, mochila ou pasta. Gravador e câmera, nem pensar. Ao apertar minha mão, perguntou se eu era cubana — tal como uma negra cubana poderia ser brasileira, pensei eu.

Eduardo Eugenio se lembra de um Fidel bem-humorado, que fez troça com as duas centenas de ameaças ou tentativas de assassinato que sofrera pelos Estados Unidos; e com a falta de imaginação dos vizinhos. Para o líder, segundo o ex-Firjan, Coca-Cola e Pepsi, Chevrolet e Ford eram a mesma coisa. Lembro de o presidente ter debochado do bipartidarismo americano, em que o povo era obrigado a escolher invariavelmente entre um democrata e um republicano. Ditador havia 40 anos, defendia as eleições diretas em que os cubanos escolhiam os delegados de bairros, espécie de vereadores.

O jantar, à moda Fidel, foi longo. Não durou menos de quatro, cinco horas. O comandante tratou de um tudo. Repórter de economia, guardei a preocupação explícita, algo ameaçadora, com os riscos da exploração de petróleo no mar azul-turquesa da ilha. Na ocasião, Cuba experimentava uma onda de investimentos espanhóis no setor hoteleiro, via crescer a atividade turística.

— Fiz muitas recomendações ao nosso ministro de Energia. Vamos deixar a torre por uns cinco ou oito meses e avaliar se os turistas não terão medo de vê-la a 3,5 quilômetros da praia — disparou o líder, sobre a perfuração que a Petrobras faria na província de Ciego de Ávila, no ano seguinte.

A resistência de Fidel foi o assunto principal da reportagem que escrevi na volta. Demarco Epifanio, gerente-geral do projeto cubano da Braspetro, subsidiária da Petrobras, contou que o governo local nunca deixou de demonstrar cautela com o meio ambiente.

— Cuba não tem lei de petróleo, mas de meio ambiente. Temos o desafio de conciliar nossa boa técnica a uma operação segura, que não cause danos — afirmava, 27 anos atrás.

A Petrobras não encontrou petróleo em Cuba na primeira rodada de pesquisa e prospecção, no ano 2000, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Oito anos depois, segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, voltou a assinar com a Cupet para explorar blocos em águas profundas no Golfo do México. Em 2011, sem resultados positivos, deixou novamente o país.

Fidel morreu há uma década, o regime que inaugurou ainda resiste, agora sob asfixia brutal do governo de Donald Trump. A crise energética é aguda; a humanitária, gravíssima. Em plena emergência climática, Super El Niño batendo à porta, o debate acerca de preservação ambiental e combustíveis fósseis, que Fidel apontava há quase 30 anos, é atualíssimo. Ainda ontem, a Petrobras anunciou descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, a 175 quilômetros da costa do Amapá.

Ao fim do jantar, ele posou para fotos com os convidados. Os registros do fotógrafo oficial chegaram ao Rio quase um ano depois. Do palácio, saímos, cada um, com uma caixa de charutos Cohiba Lanceros autografada pelo presidente. Nunca deixei ninguém fumar os “puros”, mofados há tempos. Protegido numa embalagem de acrílico, guardo intacto o presente, ainda embrulhado no papel cinza, em que se lê: “Para Flabia, Fidel Castro”.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário