segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Para Rubio, América Latina é o quintal dos EUA, por Demétrio Magnoli

O Globo

O alinhamento dos novos líderes da região à Casa Branca isola regionalmente o Brasil

‘A Doutrina Monroe moldou a política externa dos Estados Unidos por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.’ A legenda do vídeo divulgado há uma semana pelo Departamento de Estado incorre num erro histórico e escolhe uma palavra-chave ausente da doutrina original. Assinala, porém, em meio à desordem estratégica do governo Trump, uma nítida prioridade.

O presidente James Monroe delineou o conceito no discurso do Estado da União do final de 1823. A doutrina ganhou uma versão imperial com o Corolário Roosevelt (1904). Finalmente, tornou-se secundária com a Doutrina Truman (1947), que “moldou” a estratégia dos Estados Unidos do Pós-Guerra, baseando-a na aliança com a Europa Ocidental. O vídeo erra de propósito: na hora em que Trump abandona o compromisso com a proteção da Europa, inventa-se uma narrativa em que desaparece a Guerra Fria.

“A América para os americanos” de Monroe era uma mensagem às potências europeias, contra a ingerência delas nas novas nações independentes do que os Estados Unidos passavam a denominar “Hemisfério Ocidental”. A ideia de domínio — mas não a palavra! — emerge no final do século XIX e ganha justificativa com o Corolário Roosevelt. Sua abrangência, porém, circunscrevia-se à América Central/Caribe. Marco Rubio almeja estendê-la ao conjunto da América Latina.

O vice, J.D. Vance, e o secretário de Estado, Rubio, personificam as duas vertentes ideológicas conflitantes do segundo mandato de Trump. O primeiro é um arauto do isolacionismo populista do Make America Great Again (Maga), enquanto o segundo representa o internacionalismo agressivo da ala mais tradicional do Partido Republicano. No início de sua carreira, Rubio alinhou-se aos neoconservadores de Geoge W. Bush. Sua adesão tardia a Trump exigiu uma renúncia parcial ao internacionalismo imperial, que ficou circunscrito ao “Hemifério Ocidental”.

Numa entrevista concedida em 2025, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, declarou a necessidade de recuperar a influência “perdida para a China” no “quintal” dos Estados Unidos. Rubio concebeu a “Doutrina Donroe”, inscrita na nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump. Seu foco é restaurar o “quintal”, termo cunhado na época do intervencionismo de William McKinley e do próprio Theodore Roosevelt, entre 1897 e 1909. Eis aí o pano de fundo das sanções tarifárias e da intensa pressão diplomática aplicadas pela Casa Branca ao Brasil.

De Milei, na Argentina, a Bukele, em El Salvador, passando por Kast (Chile), Keiko Fujimori (Peru), Noboa (Equador) e Espriella (Colômbia), uma onda da direita dura espraiou-se pela América Latina. Os sucessivos êxitos da direita devem-se, fundamentalmente, às tensões ligadas à ascensão do crime organizado, à imigração e à corrupção. Trump teve escassa, ou nenhuma, contribuição para tais desenlaces eleitorais. Contudo o alinhamento dos novos líderes à Casa Branca isola regionalmente o Brasil. Mais uma vez, como no século XIX, nossa diplomacia encara o desafio de impedir o surgimento de uma coalizão hostil entre os vizinhos sul-americanos.

Nicolás Maduro, sequestrado por forças especiais dos Estados Unidos em janeiro, aparece como destaque no vídeo emanado do Departamento de Estado. A ditadura venezuelana segue em pé, mas agora obedece às ordens de Rubio. Desenrola-se uma operação de submissão do regime cubano, possivelmente em colaboração com Raulito Castro, “El Cangrejo”, neto do nonagenário Raúl Castro. Pelas urnas ou pelas canhoneiras, avança o projeto hemisférico do secretário de Estado.

Tanto Vance quanto Rubio mantiveram-se, prudentemente, à distância da aventura iraniana. A desastrosa guerra contra o Irã derivou da decisão de um Trump embevecido pelo sucesso na Venezuela e pela promessa de célere vitória de Netanyahu. O humilhante fracasso presidencial no Golfo Pérsico solicita a compensação de triunfos no teatro da América Latina.

O vídeo ameaçador é narrado pelo embaixador no Panamá, Kevin Cabrera, sinal de que veicula um recado direto ao país do canal. Entretanto o recado mais relevante, indireto, tem o Brasil como endereço: o governo dos Estados Unidos engajou-se na campanha de Flávio Bolsonaro.

 

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