O Globo
O alinhamento dos novos líderes da região à
Casa Branca isola regionalmente o Brasil
‘A Doutrina Monroe moldou a política externa
dos Estados Unidos por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério
Ocidental nunca mais será questionado.’ A legenda do vídeo divulgado há uma
semana pelo Departamento de Estado incorre num erro histórico e escolhe uma
palavra-chave ausente da doutrina original. Assinala, porém, em meio à desordem
estratégica do governo Trump, uma nítida prioridade.
O presidente James Monroe delineou o conceito no discurso do Estado da União do final de 1823. A doutrina ganhou uma versão imperial com o Corolário Roosevelt (1904). Finalmente, tornou-se secundária com a Doutrina Truman (1947), que “moldou” a estratégia dos Estados Unidos do Pós-Guerra, baseando-a na aliança com a Europa Ocidental. O vídeo erra de propósito: na hora em que Trump abandona o compromisso com a proteção da Europa, inventa-se uma narrativa em que desaparece a Guerra Fria.
“A América para os americanos” de Monroe era
uma mensagem às potências europeias, contra a ingerência delas nas novas nações
independentes do que os Estados Unidos passavam a denominar “Hemisfério
Ocidental”. A ideia de domínio — mas não a palavra! — emerge no final do século
XIX e ganha justificativa com o Corolário Roosevelt. Sua abrangência, porém,
circunscrevia-se à América Central/Caribe. Marco Rubio almeja estendê-la ao
conjunto da América Latina.
O vice, J.D. Vance, e o secretário de Estado,
Rubio, personificam as duas vertentes ideológicas conflitantes do segundo
mandato de Trump. O primeiro é um arauto do isolacionismo populista do Make
America Great Again (Maga), enquanto o segundo representa o internacionalismo
agressivo da ala mais tradicional do Partido Republicano. No início de sua
carreira, Rubio alinhou-se aos neoconservadores de Geoge W. Bush. Sua adesão
tardia a Trump exigiu uma renúncia parcial ao internacionalismo imperial, que
ficou circunscrito ao “Hemifério Ocidental”.
Numa entrevista concedida em 2025, o chefe do
Pentágono, Pete Hegseth, declarou a necessidade de recuperar a influência
“perdida para a China” no “quintal” dos Estados Unidos. Rubio concebeu a
“Doutrina Donroe”, inscrita na nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump.
Seu foco é restaurar o “quintal”, termo cunhado na época do intervencionismo de
William McKinley e do próprio Theodore Roosevelt, entre 1897 e 1909. Eis aí o
pano de fundo das sanções tarifárias e da intensa pressão diplomática aplicadas
pela Casa Branca ao Brasil.
De Milei, na Argentina, a Bukele, em El
Salvador, passando por Kast (Chile), Keiko Fujimori (Peru), Noboa (Equador) e
Espriella (Colômbia), uma onda da direita dura espraiou-se pela América Latina.
Os sucessivos êxitos da direita devem-se, fundamentalmente, às tensões ligadas
à ascensão do crime organizado, à imigração e à corrupção. Trump teve escassa,
ou nenhuma, contribuição para tais desenlaces eleitorais. Contudo o alinhamento
dos novos líderes à Casa Branca isola regionalmente o Brasil. Mais uma vez,
como no século XIX, nossa diplomacia encara o desafio de impedir o surgimento
de uma coalizão hostil entre os vizinhos sul-americanos.
Nicolás Maduro, sequestrado por forças
especiais dos Estados Unidos em janeiro, aparece como destaque no vídeo emanado
do Departamento de Estado. A ditadura venezuelana segue em pé, mas agora
obedece às ordens de Rubio. Desenrola-se uma operação de submissão do regime
cubano, possivelmente em colaboração com Raulito Castro, “El Cangrejo”, neto do
nonagenário Raúl Castro. Pelas urnas ou pelas canhoneiras, avança o projeto
hemisférico do secretário de Estado.
Tanto Vance quanto Rubio mantiveram-se,
prudentemente, à distância da aventura iraniana. A desastrosa guerra contra o
Irã derivou da decisão de um Trump embevecido pelo sucesso na Venezuela e pela
promessa de célere vitória de Netanyahu. O humilhante fracasso presidencial no
Golfo Pérsico solicita a compensação de triunfos no teatro da América Latina.
O vídeo ameaçador é narrado pelo embaixador
no Panamá, Kevin Cabrera, sinal de que veicula um recado direto ao país do
canal. Entretanto o recado mais relevante, indireto, tem o Brasil como
endereço: o governo dos Estados Unidos engajou-se na campanha de Flávio
Bolsonaro.

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