terça-feira, 25 de agosto de 2026

Perdas e ganhos, por Merval Pereira

O Globo

Os processos que tramitam no STF é que dão motivos para a queda de Flávio Bolsonaro e a subida de Lula, ou vice-versa, dependendo da semana.

Por incrível que pareça, a eleição presidencial tem sido decidida por medidas do Supremo Tribunal Federal (STF) e atuações da Polícia Federal. Não se trata de figura de linguagem. Os processos que tramitam no STF é que dão motivos para a queda de Flávio Bolsonaro e a subida de Lula, ou vice-versa, dependendo da semana. Existem três ministros envolvidos em diversas decisões supremas fundamentais para ditar o rumo dos acontecimentos, que têm tido repercussão nos resultados das pesquisas de opinião.

O ministro Flávio Dino acaba de autorizar que a Polícia Federal tenha acesso às informações e provas que a Polícia de São Paulo obteve nas investigações sobre a produtora Karina Ferreira da Gama e sua empresa Go Up Entertainment, responsáveis pela cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Embora a investigação original sobre um projeto de Wi-Fi na cidade de São Paulo não tenha nada a ver com o filme “Dark Horse”, a produtora é a mesma. A PF poderá obter dados sobre ela e aprofundar investigações sobre o financiamento da biografia do ex-presidente Bolsonaro.

O inquérito foi aberto depois que Dino pediu a apuração da Controladoria-Geral da União sobre emendas dos deputados Mário Frias, Marcos Pollon e Bia Kicis destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à Academia Nacional de Cultura (ANC), entidades vinculadas a uma mesma empresa coordenada por Karina. A suspeita é que tanto o contrato para implantação do sistema de Wi-Fi na capital paulista quanto emendas parlamentares foram desviados, inclusive para financiar o filme.

Outro ministro que atua no caso Master, embora não devesse, por ter interesses pessoais, é Alexandre de Moraes, cuja mulher, a advogada Viviane Barci, mantinha com o Banco Master um contrato, que lhe rendeu R$ 80 milhões em dois anos. Ameaçado de impeachment pela oposição, Moraes fez-se de intermediário entre o presidente Lula e o senador Davi Alcolumbre, que preside o Senado e quer continuar presidindo. De lá, controla diversas iniciativas do plenário, entre elas impeachments contra ministros do STF. Mas tem também flancos vulneráveis, como o envolvimento da Previdência do Amapá, sua terra natal, com investimentos irresponsáveis no Master. Seria um jogo de ganha-ganha para os três envolvidos, mas, para isso, Lula tem de ser reeleito.

O terceiro ministro, atualmente o mais poderoso de seus pares no Supremo, é o novato André Mendonça, que tem por obra de um algoritmo a relatoria tanto do caso de corrupção no INSS quanto do caso Master. A defesa de Lulinha atribui a Mendonça, ou a alguma leniência, o vazamento dos diálogos envolvendo os negócios da lobista Roberta Luchsinger com o filho do presidente, suspeito de agir como abridor de portas para ela e seu principal sócio, o Careca do INSS.

O caso do filme “Dark Horse”, em que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro investiu milhões de reais que a Polícia Federal desconfia terem ido parar em cofres nos Estados Unidos da família Bolsonaro; e o do tráfico de influência de Lulinha, envolvendo o chefe de gabinete Marcola, que teve de se demitir, e um assessor do ministério da Saúde conhecido por Berger, são responsáveis por perdas e ganhos na corrida presidencial.

A política como a conhecíamos não existe mais, veja-se a desmoralização dos debates eleitorais que as ausências dos candidatos preferidos pelos eleitores, Lula e Flávio, provocaram. Evitar o confronto com adversários é assumir que não se está preparado para governar com uma oposição atuante. Os dois, ou outro qualquer que vencer, terá esse enfrentamento, num Congresso conservador e dono de seu próprio orçamento secreto. O presidente Tancredo Neves dizia que “Presidência da República é destino”. Desta vez, o destino está nas mãos do Supremo e da Polícia Federal.

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