O Globo
Concurso para professor da USP é exemplar de
como as oligarquias dos três Poderes se ajudam mutuamente para manter o statu
quo
Diz-se que a vida imita a arte, mas não é
preciso ser artista, apenas um sensível observador, para fazer da arte um
reflexo da realidade da vida. O jurista Joaquim Falcão foi premonitório em seu
livro recém-lançado “A oligarquia dos poderes”, ao constatar que os interesses
particulares dos integrantes dos três Poderes se sobrepõem aos públicos,
provocando o que chama de “mal-estar social”. O cidadão comum não tem certeza
sobre como as autoridades estatais se relacionam e negociam entre si.
Foi esse mal-estar que produziu uma reação cívica à tentativa de oligarcas do Judiciário de interferir no concurso para professor doutor na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), a maior e mais importante universidade pública do Brasil. Criada em 1934, a USP é líder em produção científica na América Latina e destaque em rankings mundiais. O concurso foi anulado porque o candidato vitorioso, Rafael Campos Soares da Fonseca, filho do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Reynaldo Soares da Fonseca, anexou a seu memorial acadêmico cartas de recomendação assinadas por autoridades do Judiciário, incluindo ministros do STF como Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Edson Fachin e André Mendonça. Havia também cartas dos ministros do STJ, colegas de seu pai, Ribeiro Dantas e Gurgel de Faria, e outra do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Houve manifestação contrária da comunidade
acadêmica, sob a alegação de que as declarações de ministros do Supremo e do
STJ poderiam interferir no julgamento da banca examinadora — mesmo antes de a
celeuma se tornar pública, um dos examinadores deu nota zero ao candidato
devido a essa interferência —, e uma concorrente pediu oficialmente a anulação
da prova. A instituição concluiu que o uso das cartas violou os princípios de
impessoalidade, o tratamento dos candidatos de forma igualitária e a isonomia.
A Faculdade de Direito da USP anulou o
concurso no dia 6 e deverá realizar um novo processo seletivo para preencher a
vaga. A defesa do candidato nega pressão sobre a banca e informou que pode
apresentar recursos administrativos na instituição. Esse caso é exemplar de
como as oligarquias dos três Poderes se ajudam mutuamente para manter o statu
quo, outro aspecto da vida institucional brasiliense abordado por Joaquim
Falcão em seu livro. As “parentelas”, conforme sua definição, se encontram e
combinam atuações e reciprocidade, sobretudo, segundo o autor, nas festas na
capital, classificadas por ele de “amálgamas da oligarquia dos Poderes”.
A reação da USP também é exemplar de como a
sociedade civil, vítima desse conluio dos poderosos, pode reagir a esses
retrocessos institucionais, garantindo a higidez de sua atuação. O mesmo
enfrentamento vem acontecendo nos Estados Unidos, onde o governo Donald Trump
tem pressionado as grandes universidades para que adiram ao modo “trumpista” de
ver o mundo, tentando limitar a liberdade de manifestação e pensamento dentro
dos campi universitários. Até na China é possível discutir nas universidades
temas que não são publicáveis em jornais e revistas controlados pelo governo
comunista.
Os avanços autoritários não se limitam ao meio
jurídico, mas se estendem por várias instituições privadas, inclusive no campo
esportivo. A sensação de poder cada vez maior faz com que o Supremo seja um
player político relevante, a ponto de o presidente Lula ter sido flagrado
combinando um cafezinho com o ministro do Supremo Alexandre de Moraes, que
acabou sendo o intermediário de um encontro de apaziguamento entre o presidente
do Senado, Davi Alcolumbre, e o próprio Lula.

Muito bom o artigo.
ResponderExcluirMuito bom o artigo.
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