O Estado de S. Paulo
A fragilidade econômica das camadas mais pobres é expressa numa deficiência na sua representação política
O mais recente relatório do Observatório
Brasileiro das Desigualdades mostrou avanços importantes em diversas áreas.
Resultado do trabalho conjunto de diferentes organizações e entidades não
governamentais, o relatório, com dados de 2025, mostrou melhoria em 71% dos
indicadores avaliados. Entre esses indicadores estão insegurança alimentar,
desnutrição infantil, porcentagem da população em situação de extrema pobreza,
homicídios entre jovens e desmatamento. Em média, a vida melhorou em relação ao
ano anterior.
No caso de um importante indicador econômico e social, entretanto, o Observatório constatou não a persistência de um quadro ruim, mas sua piora. Já muito elevada no Brasil, que por isso ocupa uma posição destacada entre os países socialmente mais desiguais do mundo, a concentração de renda se acentuou. Não foi muita coisa, mas aumentou. O rendimento médio do grupo das pessoas que compõem a faixa dos 1% mais ricos correspondia a 30,2 vezes o rendimento dos 50% mais pobres; em 2025, a 31,5 vezes. Isso quer dizer que a renda apropriada por 2,1 milhões de ricos equivale a mais de 31 vezes o total recebido por 106 milhões de brasileiros na faixa de renda mais baixa.
Outro estudo divulgado recentemente mostra,
de maneira diversa, a intensificação da concentração de renda no Brasil.
Trata-se do relatório Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder,
Privilégio e a Captura da Democracia, elaborado pela Oxfam Brasil, uma
organização não governamental que atua no País desde 2015 e, como sua matriz
Oxfam International, tem como objetivo combater a pobreza e as desigualdades
sociais. O relatório mostrou que, em 2023, a fatia formada pelos 1% mais ricos
da população brasileira concentrava 24,3% de toda a renda do País, bem mais do
que a fatia de 20,4% que detinha em 2017. Há concentração também entre os mais
ricos. Da fatia de 1% de renda mais alta, a parcela correspondente a 0,1%
apropriou-se da maior parte dos ganhos no período. Essas mudanças ocorreram num
quadro em que muitos outros indicadores sociais melhoraram.
Políticas públicas voltadas para os mais
pobres certamente contêm em alguma medida o avanço da concentração de renda no
Brasil. Sem elas, o problema teria se agravado com mais rapidez e mais
intensidade. Mas o que as estatísticas deixam claro é que, a despeito de seu
impacto positivo nas condições de vida de uma fatia importante da população,
elas são insuficientes. O combate mais efetivo do imenso fosso social retratado
pela crescente concentração de renda deve envolver outras medidas, inclusive
alguma mudança na tributação da renda.
Esta é uma decisão que implica acertos e
negociações na esfera política. E, nesse campo, a fragilidade econômica das
camadas mais pobres da população é expressa numa notável deficiência na sua
representação política.
O estudo da Oxfam estabelece relações
relevantes entre renda e poder político. É como se a concentração de renda se
reproduzisse na concentração de poder. Não se trata, obviamente, de condenar o
sistema representativo e o sistema eleitoral adotado pelo Brasil, que tem
assegurado liberdades essenciais para os brasileiros. Mas é preciso conhecer
adequadamente a relação entre renda e poder no Brasil.
Do ponto de vista técnico, o relatório
destaca que uma importante fonte de dados, os bens declarados pelos candidatos
à Justiça Eleitoral, pode ter valores subestimados. Imóveis ou ativos podem ter
sido declarados por seus valores históricos e não por seu valor de mercado,
além de poder haver omissões. Mas são os únicos dados oficiais disponíveis.
Ainda que possam conter distorções, esses
dados mostram com clareza que o acesso ao poder político é fortemente associado
à condição econômica. Os mais ricos têm melhores condições para disputar
eleições e obter espaço nas decisões sobre políticas públicas, o que cria um
ciclo no qual a concentração de renda transforma-se em concentração de poder.
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
para as eleições de 2022 revelam, por exemplo, que o valor dos bens declarados
por quase 45% dos eleitos era superior a R$ 1 milhão “e que há uma clara
concentração de milionários entre o grupo de homens eleitos”, diz a Oxfam. “Os
dados também deixam evidente a realidade assinalada neste relatório: a fortuna
individual tem forte vinculação com a efetiva chance de eleição.” No caso da
eleição majoritária para o Senado, dos 207 candidatos, 15 declararam patrimônio
de até R$ 100 mil; nenhum foi eleito. O poder dos mais ricos se estende a
outras esferas do setor público, inclusive o Judiciário.
Entre as medidas para começar a conter essa
concentração de poder, a Oxfam propõe mudanças no sistema tributário, a
ampliação da diversidade na representação política e o fortalecimento do
controle social sobre os recursos públicos. Não é coisa simples. Mas em algum
momento a mudança precisa começar a ser feita.

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