sábado, 1 de agosto de 2026

Sobre mentiras e tarifas, por Fareed Zakaria

Washington post / O Estado de S. Paulo

Presidente parece ordenar que governo certifique formalmente como fato algo que não é verdade

Em dois anos, Trump converteu os EUA na economia avançada mais protecionista do mundo

Para quem achava que a Suprema Corte havia posto fim à obsessão de Donald Trump por tarifas, é melhor repensar. Em fevereiro, ela derrubou as tarifas abrangentes do Dia da Libertação, determinando que o presidente não possuía poderes de emergência para tributar importações de quase todos os países do mundo. A resposta de Trump foi vasculhar os códigos legais em busca de formas incomuns, obscuras e talvez ilegais de restabelecer tarifas semelhantes.

Primeiro veio uma tarifa global temporária. Quando ela expirou, ele impôs tarifas de 10% a 12,5% sobre 60 economias alegando práticas comerciais desleais. No caso do Canadá, Trump recorreu à Seção 338 da Lei Tarifária Smoot-Hawley de 1930, uma disposição nunca invocada até então.

Para essas tarifas, a justificativa é o suposto trabalho forçado. O governo declarou que países que vão do Camboja à Noruega não conseguiram impedir a entrada em seus mercados de produtos fabricados com trabalho forçado, e essa falha sobrecarrega o comércio americano. A acusação é tão espúria que revelou o jogo. É quase certo que ela foi inventada porque a Casa Branca precisava de um pretexto para subverter o espírito da decisão da Suprema Corte.

Isso vai além da simples manipulação política. O presidente parece estar ordenando que o governo dos EUA certifique formalmente como fato algo que sabe não ser verdade. Os órgãos governamentais são obrigados a publicar conclusões, elaborar argumentos jurídicos e conferir a autoridade do Estado a uma falsidade fabricada com o objetivo de contornar a Suprema Corte.

CORRUPÇÃOÉ assim que as instituições são corrompidas: primeiro, pede-se que distorçam a verdade; depois, que atestem a mentira. E então as mentiras se tornam rotina, de modo que ninguém mais as considera incomuns. Esse é o caminho para o mundo de Orwell.

Aliás, a Walk Free, ONG de direitos humanos que elabora o Índice Global de Escravidão, estima que os EUA importam anualmente US$ 169,6 bilhões em mercadorias que correm o risco de terem sido produzidas com trabalho forçado – de longe o maior total entre os países do G-20. Isso não prova que a fiscalização americana seja pior do que a de todos os países que Trump tem como alvo. Mas faz com que a posição moral do governo pareça ainda mais absurda.

Os argumentos econômicos contra as tarifas ficam mais sólidos à medida que os números são divulgados. Os gastos com a construção no setor manufatureiro, que dispararam durante o governo Biden e atingiram um pico de US$ 250 bilhões em taxa anual em setembro de 2024, caíram para US$ 175 bilhões em maio. O número de empregos no setor manufatureiro diminuiu em 75 mil postos desde a volta de Trump. A produção industrial aumentou, mas os ganhos estão concentrados na manufatura avançada e na inteligência artificial, refletindo investimentos planejados antes de Trump assumir.

LÓGICA INVERSA. Considere o caso de Greg Fraley, sobre quem a Câmara de Comércio escreveu há alguns meses. Ele ajuda a administrar a Falco, pequena empresa do Arizona que fabrica peças de alumínio para aeronaves comerciais. Esse é o tipo de negócio que Trump diz querer ajudar: uma fábrica americana que emprega trabalhadores americanos.

Os custos com alumínio da Falco aumentaram 72%. A empresa não pode simplesmente comprar metal americano; a produção nacional atende apenas cerca de metade da demanda dos EUA e grande parte dessa produção não está disponível no mercado aberto.

Assim, a Falco continua importando alumínio, paga a tarifa e absorve o prejuízo. Ela congelou as contratações, permitiu que sua força de trabalho diminuísse em 20% por meio de rotatividade natural, recorreu às reservas de caixa e adicionou uma “sobretaxa tarifária” às faturas dos clientes, segundo Fraley.

Enquanto isso, Trump dobrou a tarifa sobre o alumínio importado para 50% e ofereceu aos produtores um desconto caso construíssem fundições nos EUA. A Rio Tinto, uma das maiores produtoras mundiais de alumínio, recusou a oferta. Assim, a tarifa alcançou uma tríplice consequência: custos mais altos para um fabricante americano, menos empregos e menos investimentos no país, e nenhuma nova fundição do produtor estrangeiro que se pretendia atrair.

A lógica está de cabeça para baixo. A fundição de alumínio representa apenas uma pequena fração dos empregos do setor de alumínio nos EUA. A grande maioria está na reciclagem e nos setores intermediários e de transformação, que convertem o metal em peças para aeronaves, carros, latas, maquinário e materiais de construção. Trump está protegendo a minúscula fatia do setor de produção, tributando a base industrial muito maior que depende dela e emprega muito mais.

Por oito décadas, os EUA lideraram o mundo rumo a mercados abertos e ao livre comércio. Em apenas dois anos, Trump transformou o país na economia avançada mais protecionista do mundo. O resultado não foi um renascimento da indústria manufatureira. Foram preços mais altos, investimentos mais fracos, menos empregos na indústria e um governo cada vez mais disposto a transformar falsidades em política oficial para defender um credo econômico fracassado. 

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